Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Tet · Mishná 5 de 13

Se há nele o suficiente para uma pilha

אִם יֶשׁ בָּהּ כְּדֵי לְהַעֲמִיד כְּרִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná estabelece um limiar mínimo de produção abaixo do qual o meeiro pode abandonar legitimamente o cuidado do campo: se a colheita esperada não chega a formar sequer uma pilha mensurável de grãos, seu esforço não é mais exigido. Rabi Yehudá discorda do critério da pilha e propõe, em vez disso, a quantidade equivalente à semente originalmente plantada.

Aquele que recebe um campo de seu companheiro e ele não produziu, se há nele o suficiente para erguer uma pilha, é obrigado a cuidar dele. — Se o campo arrendado produz muito pouco, o meeiro ainda é obrigado a continuar seu trabalho — colher, debulhar e processar o que houver — desde que a quantidade seja suficiente para formar uma pilha (kri) mensurável de grãos, medida técnica correspondente a cerca de dois seá, o bastante para cobrir a pá usada para joeirar o cereal ao vento.

Disse Rabi Yehudá: Que medida há na pilha? — Rabi Yehudá questiona o critério da pilha como padrão fixo, observando que ele é inadequado: um campo grande e um campo pequeno podem produzir a mesma quantidade mínima para formar uma pilha, mas o esforço de cuidado exigido de cada um é muito diferente, tornando a medida injusta.

Antes, [o critério é] se há nele o suficiente para uma semeadura. — Em vez da medida fixa da pilha, Rabi Yehudá propõe um critério proporcional: o meeiro é obrigado a continuar cuidando do campo se a colheita esperada for pelo menos equivalente à quantidade de semente originalmente plantada — permitindo, assim, replantar o campo para a próxima safra. A halachá não segue Rabi Yehudá.

הַמְקַבֵּל שָׂדֶה מֵחֲבֵרוֹ וְלֹא עָשְׂתָה, אִם יֶשׁ בָּהּ כְּדֵי לְהַעֲמִיד כְּרִי, חַיָּב לְטַפֵּל בָּהּ. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, מַה קִּצְבָּה בַכְּרִי. אֶלָּא אִם יֶשׁ בָּהּ כְּדֵי נְפִילָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 9:5
הַמְקַבֵּל שָׂדֶה מֵחֲבֵרוֹ וְלֹא עָשְׂתָה אִם יֶשׁ בָּהּ כוּ׳: כְּרִי הוּא עֲרֵמַת הַתְּבוּאָה שֶׁיּוּכַל לְכַסּוֹת הָרַחַת בְּגָבְהוֹ, וְהוּא שִׁעוּר סָאתַיִם, יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ. וְרַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר שֶׁזֶּה שִׁעוּר שֶׁאֵינוֹ יָדוּעַ... כְּדֵי נְפִילָה שִׁעוּר מַה שֶּׁזָּרַע בָּהּ... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

Rambam define tecnicamente a pilha (kri) como o monte de grãos capaz de cobrir a pá de joeirar em sua altura, correspondendo à medida de dois seá; se o campo produz ao menos essa quantidade, o meeiro cumpriu sua obrigação e deve continuar o trabalho. Explica a objeção de Rabi Yehudá como uma crítica à arbitrariedade dessa medida fixa, e confirma que a halachá segue a opinião dos sábios anônimos — o critério da pilha —, e não a de Rabi Yehudá.

Bartenura · Bava Metzia 9:5
אִם יֶשׁ בָּהּ כְּדֵי. לַעֲשׂוֹת מִתְּבוּאָתָהּ כְּרִי, שֶׁיֵּשׁ בּוֹ כְּדֵי לְכַסּוֹת הָרַחַת שֶׁזּוֹרִים בָּהּ הַתְּבוּאָה, וְהוּא קָרוֹב לִסְאָתַיִם, חַיָּב לְטַפֵּל בָּהּ בְּעַל כָּרְחוֹ: מַה קִּצְבָּה בַכְּרִי. אֵין קִצְבָה זוֹ רְאוּיָה שֶׁתִּהְיֶה שָׂדֶה גְדוֹלָה בְּשִׁעוּר כְּרִי וְשָׂדֶה קְטַנָּה בְּשִׁעוּר כְּרִי, וְאֵינָהּ דּוֹמָה טִפּוּלָהּ שֶׁל שָׂדֶה גְדוֹלָה לְטִפּוּלָהּ שֶׁל שָׂדֶה קְטַנָּה: אֶלָּא אִם יֶשׁ בּוֹ כְּדֵי נְפִילָה. כְּלוֹמַר כְּשִׁעוּר מַה שֶּׁזָּרַע בָּהּ, חַיָּב לְטַפֵּל בָּהּ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:

Bartenura confirma a medida de dois seá para a pilha e explica com clareza a crítica de Rabi Yehudá: não é razoável que um campo grande e um campo pequeno sejam tratados pela mesma medida absoluta, já que o esforço proporcional de cuidado é muito diferente entre eles; por isso ele propõe medir pela quantidade de semente originalmente plantada, tornando o critério relativo ao tamanho do próprio campo. A halachá, porém, segue o critério da pilha.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Bava Metzia 105a
מַתְנִי׳ הַמְקַבֵּל שָׂדֶה מֵחֲבֵרוֹ וְלֹא עָשְׂתָה - תְּבוּאָה אֶלָּא מְעַט, וּבָא לוֹ הָאָרִיס לִמְנֹעַ מִלְּהִתְעַסֵּק בָּהּ עוֹד, שֶׁאֵין בָּהּ כְּדֵי טָרְחוֹ: אִם יֵשׁ בָּהּ כְּדֵי לַעֲשׂוֹת - מִתְּבוּאָתָהּ כְּרִי, וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ מַאי שִׁיעוּרֵיהּ: חַיָּב לְטַפֵּל בָּהּ - בְּעַל כָּרְחוֹ, וְהָא לֵיתָא אֶלָּא בְּקַבְּלָנוּתָא, דְּאִי בְּחָכְרָנוּתָא מַה לוֹ לְבַעַל הַשָּׂדֶה אִם יֶחְדַּל לוֹ, סוֹף סוֹף חִכּוּרוֹ הוּא נוֹתֵן לוֹ: אֶלָּא אִם יֵשׁ בָּהּ כְּדֵי נְפִילָה - שֶׁיָּכוֹל לַחְזֹר וְלִזְרְעָהּ לְשָׁנָה הַבָּאָה מִתְּבוּאַת שָׁנָה זוֹ: נְפִילָה - זֶרַע שֶׁמְּפַזְּרִים לָהּ בְּמַפֹּלֶת יָד:

Rashi explica que o meeiro, diante de uma colheita magra, busca justificativa para abandonar o cuidado do campo, alegando que o esforço não compensa; e esclarece que esta obrigação de continuar trabalhando só se aplica ao regime de aricultura proporcional (kablanuta), pois no regime de locação fixa a produção real do campo não interessa ao proprietário, que de qualquer forma recebe a quantia combinada. Sobre a expressão 'nefilá' de Rabi Yehudá, explica que se refere à semente que se espalha sobre a terra pela queda da mão do semeador — ou seja, o critério passa a ser a quantidade originalmente lançada na semeadura.