Aquele que toma emprestada a vaca e toma emprestado também o seu dono junto com ela, ou a aluga e aluga também o seu dono junto com ela — tomou emprestado o dono ou o alugou, e depois disso tomou emprestada a vaca, e ela morreu — está isento, pois foi dito: "Se o seu dono está com ele, não pagará." — Esta é a lei conhecida como she'ilah be-ba'alim: quando o dono do animal está, ele mesmo, a serviço de quem tomou o animal emprestado — trabalhando para ele, seja emprestado seja contratado, seja na própria tarefa da vaca seja em outra tarefa qualquer — o tomador fica isento de qualquer dano sobrevindo ao animal, inclusive por acidente (ones). O que decide a isenção não é a presença do dono no momento da morte, mas sim a sua presença no momento em que o empréstimo da vaca foi contraído.
Mas tomou emprestada a vaca e só depois tomou emprestado o dono ou o alugou, e ela morreu, é responsável, pois foi dito: "Se o seu dono não está com ele, pagará, pagará." — Se, ao contrário, o dono só passa a estar a serviço do tomador depois que este já havia tomado emprestada a vaca sozinha, a isenção bíblica não se aplica — mesmo que o dono estivesse presente, a seu serviço, no exato momento em que o animal morreu. A Torá vincula a isenção ao instante da contratação do empréstimo, não ao instante do acidente.
A mishná cita diretamente o versículo que rege os danos a um animal emprestado — a base de toda a estrutura de she'ilah (empréstimo) desenvolvida a partir daqui.
Rambam esclarece que a tradição oral ensina que a expressão bíblica "se o seu dono está com ele, não pagará" refere-se ao dono estar com ele no momento de contrair o empréstimo — e este é o princípio fundamental: se o dono estava presente no momento do empréstimo, o tomador não precisa que ele continue presente no momento do acidente ou da morte do animal. Inversamente, se o dono não estava presente no momento do empréstimo, o tomador é responsável mesmo que o dono estivesse, por acaso, presente no momento do dano — pois a Torá não fala dessa presença posterior. Rambam acrescenta um princípio ainda mais notável: quando se toma emprestada a vaca junto com o seu dono, o tomador fica isento até mesmo se agiu com negligência (peshi'ah) — a she'ilah be-ba'alim isenta de um grau de responsabilidade normalmente inescapável para um sho'el comum.
Bartenura precisa a abrangência da lei: basta que o dono da vaca estivesse a serviço do tomador — emprestado ou contratado, na mesma tarefa da vaca ou em qualquer outra — para que a isenção se aplique caso o animal morra. E confirma o ponto decisivo apontado por Rambam: se o dono estava presente no momento do acidente mas não no momento em que o empréstimo foi contraído, isso não configura she'ilah be-ba'alim, e o tomador continua responsável — a presença que isenta é exclusivamente aquela do instante da contratação.
Rashi observa uma sutileza na leitura da própria mishná: a expressão "aluguel" (sechirut), ao longo de todo o texto, refere-se sempre à condição do dono — que pode estar emprestado ou contratado ao tomador — e não à vaca em si, que aqui é sempre tomada por she'ilah (empréstimo). Ou seja, a mishná ensina explicitamente o caso da vaca emprestada, cujo dono está, ele mesmo, emprestado ou contratado ao tomador; o caso paralelo de uma vaca alugada (cujo dono está igualmente a serviço do locatário) não é ensinado nesta mishná, mas se deduz de uma baraita citada na Guemará.