Um lobo não é força maior; dois lobos são força maior. Rabi Yehudá diz: no tempo de invasão de lobos, mesmo um lobo é força maior. Dois cães não são força maior. — Um único lobo é considerado um perigo comum, evitável com vigilância normal — não isenta o guardião. Mas dois lobos atacando juntos excedem a capacidade razoável de defesa de um guardião sozinho, caracterizando força maior genuína. Rabi Yehudá qualifica: em períodos excepcionais de matilhas de lobos famintos soltas pela região, mesmo um único lobo se torna imprevisível e violento o bastante para configurar força maior. Cães, por serem naturalmente menos agressivos que lobos, exigem um padrão ainda mais alto — nem dois bastam.
Yadua, o babilônico, diz em nome de Rabi Meir: de uma direção, não é força maior; de duas direções, é força maior. — Um critério alternativo de avaliação: não o número de animais, mas o padrão do ataque — se os lobos atacam de um único lado (permitindo defesa concentrada), não é força maior; se atacam simultaneamente de duas direções (impossibilitando defesa eficaz), é força maior.
O assaltante — eis que isto é força maior. O leão, o urso, o leopardo, o lobo-cerval e a serpente — eis que isto é força maior. — Diferentemente dos lobos e cães (animais que um guardião comum pode em geral afugentar), estes predadores maiores e mais perigosos, bem como o assaltante armado, configuram força maior mesmo isoladamente — pois excedem a capacidade de defesa esperada de um guardião comum.
Quando? Quando vieram por si mesmos; mas se os levou a um lugar de bandos de feras e assaltantes, não é força maior. — A qualificação de força maior pressupõe que o perigo tenha surgido de modo imprevisível. Se, ao contrário, o próprio guardião conduziu o animal a um território conhecido por abrigar feras ferozes ou bandidos, o ataque deixa de ser "força maior" — pois decorre de sua própria negligência em escolher aquele caminho.
Esta mishná é uma continuação direta do tema iniciado na mishná anterior: define, em minúcia prática, o que conta como "hatarefá" (o despedaçado por fera) — a categoria de força maior que a Torá explicitamente isenta o guardião remunerado e o locatário de pagar (Shemot 22:12). Rambam observa que a Torá isentou apenas certos tipos de "força maior" ("hatarefá lo yeshalem"), e por isso a mishná lista com precisão quais ataques de animais, e em que circunstâncias, se qualificam para essa isenção bíblica, e quais não passam de risco evitável pelo qual o guardião continua responsável.
Rambam recorda o princípio já estabelecido: o guardião remunerado e o locatário estão isentos de força maior porque a Torá disse a respeito deles "pelo despedaçado não pagará" — e por essa mesma razão não respondem por animal quebrado ou capturado (categorias próximas à força maior). Por isso, a mishná dedica-se a listar precisamente quais eventos se enquadram nessa isenção. Confirma que a halachá não segue nem Rabi Yehudá (sobre um único lobo em tempo de invasão) nem Yadua, o babilônico (sobre direções de ataque) — prevalecendo a regra simples da opinião anônima.
Bartenura explica que a expressão bíblica "pelo despedaçado não pagará" é lida como implicando uma distinção: existe "despedaçamento" pelo qual se paga (o de um único lobo comum) e "despedaçamento" pelo qual não se paga (verdadeira força maior) — daí a necessidade de a mishná discriminar os casos. Sobre "tempo de invasão de lobos", esclarece que se trata de um período em que feras perigosas, soltas em bando, atacam mesmo um homem sozinho — tornando o ataque de um único lobo tão perigoso quanto o de vários em condições normais. Confirma que a halachá segue a opinião anônima, e não Rabi Yehudá nem Yadua, o babilônico. Quanto ao assaltante, esclarece que basta um único assaltante para configurar força maior — diferentemente dos lobos.
Rashi explica "tempo de invasão de lobos" como um período em que, por decreto do rei (ou por circunstância excepcional), feras perigosas são soltas na região e atacam mesmo um homem sozinho — daí a periculosidade extraordinária que torna força maior até um único lobo. Confirma a leitura de que basta um único assaltante ("ve-chad lestim ka'amar") para configurar força maior, ao contrário do lobo comum, que exige dois. Identifica ainda "bardelas" com o termo em língua estrangeira ("potish" em francês antigo) — um felino selvagem semelhante ao lince ou pantera.