Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Zayin · Mishná 5 de 11

O trabalhador come um pepino

אוֹכֵל פּוֹעֵל קִשּׁוּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do limite quantitativo e de valor do direito de comer: não há teto de preço, mas há um limite de bom senso — o trabalhador não deve ser voraz a ponto de se tornar indesejável para futuros empregadores.

O trabalhador come um pepino ainda que valha um dinar, e uma tâmara ainda que valha um dinar.O direito bíblico de comer não tem limite de valor monetário: mesmo um único item caro, valendo uma moeda inteira (dinar), está dentro do direito do trabalhador, desde que se trate do produto correto e do momento correto.

Rabi Elazar Chisma diz: o trabalhador não deve comer mais do que seu salário.Rabi Elazar Chisma introduz um limite: com base na expressão bíblica "segundo o teu desejo" (kenafshecha), interpretada como referência ao valor de sua contratação (kis'chiruto), ele entende que o trabalhador só pode comer até o equivalente ao próprio salário — pois é por esse salário que ele arrisca sua vida, subindo em árvores ou lugares perigosos para realizar o trabalho.

Mas os sábios permitem — porém instruem o homem a não ser voraz, para que não feche a porta diante de si mesmo.A maioria dos sábios rejeita esse limite legal, permitindo consumo sem teto de valor. Ainda assim, reconhecem um limite prático, de natureza social e não jurídica: o trabalhador que come com voracidade excessiva corre o risco de adquirir má reputação, afastando futuros empregadores — um dano que ele mesmo se causa, "fechando a porta" à sua própria subsistência futura.

אוֹכֵל פּוֹעֵל קִשּׁוּת אֲפִלּוּ בְדִינָר, וְכוֹתֶבֶת אֲפִלּוּ בְדִינָר. רַבִּי אֶלְעָזָר חִסְמָא אוֹמֵר, לֹא יֹאכַל פּוֹעֵל יָתֵר עַל שְׂכָרוֹ. וַחֲכָמִים מַתִּירִין, אֲבָל מְלַמְּדִין אֶת הָאָדָם שֶׁלֹּא יְהֵא רַעַבְתָן וִיהֵא סוֹתֵם אֶת הַפֶּתַח בְּפָנָיו:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּמִּקְרָא

Devarim 23:25
וְאָכַלְתָּ עֲנָבִים כְּנַפְשְׁךָ שָׂבְעֶךָ.
"Comerás uvas segundo o teu desejo, até te fartares."

A expressão "ke-nafshecha" ("segundo o teu desejo/tua pessoa") é a base textual da disputa entre Rabi Elazar Chisma e os sábios. Segundo Rashi, Rabi Elazar Chisma deriva dali que o consumo deve corresponder à medida da própria contratação do trabalhador (ki-schiruto) — precisamente porque é sobre esse salário que ele "entrega sua vida" (moser et nafsho), subindo por escadas ou galhos, em locais de risco, para cumprir seu trabalho. Os sábios leem a mesma expressão de modo mais amplo — "até saciar-se", sem limite de valor —, reservando apenas uma recomendação ética, não uma restrição legal.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 7:5
אוֹכֵל פּוֹעֵל קִשּׁוּת אֲפִלּוּ בְדִינָר וְכוֹתֶבֶת אֲפִלּוּ בְדִינָר כוּ': תַּנָּא קַמָּא סָבַר אֵין מְלַמְּדִין אוֹתוֹ וַחֲכָמִים אוֹמְרִים מְלַמְּדִין וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים:

Rambam nota, de passagem, uma camada adicional da disputa: se, além de permitir comer sem limite de valor, cabe também instruir o trabalhador sobre moderação. Confirma que a halachá segue os sábios — tanto na permissão ampla quanto na recomendação de bom senso.

Bartenura · Bava Metzia 7:5
אֲפִלּוּ בְדִינָר. אֲפִלּוּ הִיא שָׁוָה דִינָר: לֹא יֹאכַל פּוֹעֵל יָתֵר עַל שְׂכָרוֹ. דְּאָמַר קְרָא כְּנַפְשְׁךָ, כִּשְׂכִירוּתוֹ, שֶׁעָלָיו הוּא מוֹסֵר אֶת נַפְשׁוֹ לַעֲלוֹת בַּכֶּבֶשׁ וְלִתָּלוֹת בָּאִילָן: מְלַמְּדִין. אוֹמְרִים לוֹ דֶּרֶךְ עֵצָה הוֹגֶנֶת. וְתַנָּא קַמָּא פָּלֵיג אַחֲכָמִים וְאָמַר אֵין מְלַמְּדִין. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים: וִיהֵא סוֹתֵם אֶת הַפֶּתַח בְּפָנָיו. שֶׁיִּמָּנְעוּ מִלְּשָׂכְרוֹ:

Bartenura confirma que "ainda que valha um dinar" significa literalmente uma única fruta cujo preço de mercado equivale a essa moeda inteira — sem qualquer desconto pelo direito de comer. Explica a leitura de Rabi Elazar Chisma sobre "kenafshecha" como referência ao salário do trabalhador, justificada pelo risco físico que ele assume — subir rampas, pendurar-se em árvores — em troca desse mesmo salário. Por fim, esclarece que "instruir" significa aconselhar com uma palavra sensata, não impor lei; e que a halachá segue os sábios tanto na permissão quanto no conselho de moderação, para que o trabalhador não perca oportunidades futuras de emprego por fama de voraz.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Bava Metzia 92a
מתני' ואפילו בדינר - ואפילו היא שוה דינר: לא יאכל פועל יותר על שכרו - לקמן יליף מכנפשך בשכירותו שמוסר נפשו עליו לעלות באילן או במקום סכנה: ויהא סותם את הפתח בפניו - שימנעו לשוכרו למלאכתו:

Rashi confirma a leitura literal de "ainda que valha um dinar" e remete à Guemará para a derivação de "kenafshecha" como referência ao risco de vida que o trabalhador assume ao subir em árvores ou lugares perigosos por seu salário. Confirma também que "fechar a porta diante de si" significa que futuros empregadores se absterão de contratá-lo, temendo sua voracidade.