Se estava trabalhando com figos, não pode comer uvas; com uvas, não pode comer figos. Mas pode conter-se até chegar ao lugar das frutas melhores, e então come. — O direito bíblico de comer aplica-se apenas ao produto específico em que o trabalhador está ativamente ocupado — a Torá permitiu "uvas" na vinha e "espigas" na seara, não qualquer produto do campo. Contudo, dentro do próprio tipo de fruta permitido, o trabalhador pode legitimamente adiar o consumo, aguardando o momento em que chegar à parte de melhor qualidade — uma estratégia lícita, pois ainda está dentro dos limites de seu direito.
E tudo isto não disseram senão quanto ao momento do trabalho; mas por causa de 'devolver o perdido a seus donos' disseram: os trabalhadores comem enquanto vão de uma fileira a outra, e ao retornar do lagar, e o jumento enquanto está sendo descarregado. — Todas as restrições anteriores (tipo de produto, momento de conclusão, uso de mãos e pés) aplicam-se somente ao tempo efetivo de trabalho. Mas os sábios ampliaram o direito, por uma razão totalmente distinta: evitar que trabalhadores famintos, ao passarem por momentos de pausa técnica — a caminho da próxima fileira, ou voltando do lagar de vinho —, sejam tentados a desviar-se e "devolver perdas a si mesmos" tomando frutas às escondidas. Permitir-lhes comer abertamente nesses intervalos evita a tentação do furto disfarçado. O mesmo vale, por analogia, para o animal de carga, que pode comer da própria carga enquanto ainda a transporta, até o momento exato da descarga.
Rambam observa que o versículo especifica "uvas" — ve-achalta anavim — e a tradição recebida (kabalá) restringiu esse direito exatamente àquele produto: "uvas, e não outra coisa". Por isso, o trabalhador de figos não pode comer uvas, e o de uvas não pode comer figos — cada tipo de fruta é regido pelo texto que trata especificamente dele (a vinha aqui, a seara em Devarim 23:26). A permissão excepcional de comer durante o trajeto entre fileiras, ou no retorno do lagar — quando tecnicamente não se trabalha — não deriva mais do direito bíblico direto, mas de uma extensão fundada no princípio geral de "devolver o perdido a seus donos" (Devarim 22:1-3): evita-se que o trabalhador, com fome, seja levado a subtrair furtivamente o que não lhe é permitido nesse momento.
Rambam explica que a restrição a "uvas, e não outra coisa" vem diretamente da leitura recebida do versículo. Quanto à extensão aos momentos de trânsito e retorno, oferece uma razão prática adicional, que complementa a de "devolver o perdido": como os trabalhadores de qualquer forma precisam comer, é preferível que o façam justamente nos momentos em que já estão ociosos (a caminho, ou voltando do lagar) — e não durante o próprio trabalho, quando comer os interromperia e prejudicaria o dono da obra. Assim, a permissão nesses intervalos beneficia tanto o trabalhador quanto o empregador.
Bartenura interpreta a razão de "devolver o perdido a seus donos" de forma ligeiramente distinta da de Rambam: comer nos intervalos evita que o trabalhador se distraia de sua tarefa principal para parar e comer durante o trabalho ativo — o que causaria prejuízo ao dono. Por isso, embora esses intervalos (caminhar entre fileiras) tecnicamente não sejam "momento de trabalho", o próprio dono da obra prefere que o consumo ocorra ali. Já o jumento, explica, pode comer da carga que transporta durante o trajeto, mas essa permissão cessa exatamente no momento em que a carga é descarregada de suas costas.
Rashi confirma que o trabalhador que se contém até alcançar as frutas de melhor qualidade pode então concentrar ali toda a sua porção de consumo — a estratégia de esperar não reduz seu direito, apenas adia o momento em que o exerce.