Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Zayin · Mishná 4 de 11

Se estava trabalhando com figos

הָיָה עוֹשֶׂה בִתְאֵנִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná restringe o direito de comer ao tipo específico de fruta em que o trabalhador está ocupado — mas permite que ele se contenha estrategicamente até alcançar a melhor parte do campo. Em seguida, amplia excepcionalmente o direito, por um motivo distinto (o princípio de devolver objetos perdidos), a momentos em que o trabalhador tecnicamente não está trabalhando.

Se estava trabalhando com figos, não pode comer uvas; com uvas, não pode comer figos. Mas pode conter-se até chegar ao lugar das frutas melhores, e então come.O direito bíblico de comer aplica-se apenas ao produto específico em que o trabalhador está ativamente ocupado — a Torá permitiu "uvas" na vinha e "espigas" na seara, não qualquer produto do campo. Contudo, dentro do próprio tipo de fruta permitido, o trabalhador pode legitimamente adiar o consumo, aguardando o momento em que chegar à parte de melhor qualidade — uma estratégia lícita, pois ainda está dentro dos limites de seu direito.

E tudo isto não disseram senão quanto ao momento do trabalho; mas por causa de 'devolver o perdido a seus donos' disseram: os trabalhadores comem enquanto vão de uma fileira a outra, e ao retornar do lagar, e o jumento enquanto está sendo descarregado.Todas as restrições anteriores (tipo de produto, momento de conclusão, uso de mãos e pés) aplicam-se somente ao tempo efetivo de trabalho. Mas os sábios ampliaram o direito, por uma razão totalmente distinta: evitar que trabalhadores famintos, ao passarem por momentos de pausa técnica — a caminho da próxima fileira, ou voltando do lagar de vinho —, sejam tentados a desviar-se e "devolver perdas a si mesmos" tomando frutas às escondidas. Permitir-lhes comer abertamente nesses intervalos evita a tentação do furto disfarçado. O mesmo vale, por analogia, para o animal de carga, que pode comer da própria carga enquanto ainda a transporta, até o momento exato da descarga.

הָיָה עוֹשֶׂה בִתְאֵנִים, לֹא יֹאכַל בַּעֲנָבִים, בַּעֲנָבִים, לֹא יֹאכַל בִּתְאֵנִים. אֲבָל מוֹנֵעַ אֶת עַצְמוֹ עַד שֶׁמַּגִּיעַ לִמְקוֹם הַיָּפוֹת וְאוֹכֵל. וְכֻלָּן לֹא אָמְרוּ אֶלָּא בִשְׁעַת מְלָאכָה, אֲבָל מִשּׁוּם הָשֵׁב אֲבֵדָה לַבְּעָלִים אָמְרוּ, פּוֹעֲלִים אוֹכְלִין בַּהֲלִיכָתָן מֵאֻמָּן לְאֻמָּן, וּבַחֲזִירָתָן מִן הַגַּת, וּבַחֲמוֹר כְּשֶׁהִיא פוֹרָקֶת:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּמִּקְרָא

Devarim 23:25
כִּי תָבֹא בְּכֶרֶם רֵעֶךָ וְאָכַלְתָּ עֲנָבִים כְּנַפְשְׁךָ שָׂבְעֶךָ וְאֶל כֶּלְיְךָ לֹא תִתֵּן.
"Quando entrares na vinha do teu próximo, comerás uvas segundo o teu desejo, até te fartares, mas em teu vasilhame não porás."

Rambam observa que o versículo especifica "uvas" — ve-achalta anavim — e a tradição recebida (kabalá) restringiu esse direito exatamente àquele produto: "uvas, e não outra coisa". Por isso, o trabalhador de figos não pode comer uvas, e o de uvas não pode comer figos — cada tipo de fruta é regido pelo texto que trata especificamente dele (a vinha aqui, a seara em Devarim 23:26). A permissão excepcional de comer durante o trajeto entre fileiras, ou no retorno do lagar — quando tecnicamente não se trabalha — não deriva mais do direito bíblico direto, mas de uma extensão fundada no princípio geral de "devolver o perdido a seus donos" (Devarim 22:1-3): evita-se que o trabalhador, com fome, seja levado a subtrair furtivamente o que não lhe é permitido nesse momento.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 7:4
הָיָה עוֹשֶׂה בִתְאֵנִים לֹא יֹאכַל בַּעֲנָבִים כוּ': אָמַר רַחֲמָנָא בְּפוֹעֵל וְאָכַלְתָּ עֲנָבִים וּבָאָה הַקַּבָּלָה עֲנָבִים וְלֹא דָּבָר אַחֵר, וְאָמְנָם הִתִּיר לָהֶם לֶאֱכֹל בַּהֲלִיכָתָן מֵאֻמָּן לְאֻמָּן וּבַחֲזִירָתָן לַגַּת לְפִי שֶׁבְּאוֹתָהּ שָׁעָה הֵם בְּטֵלִים, וְכֵיוָן שֶׁאִי אֶפְשָׁר לָהֶם בְּלֹא אֲכִילָה טוֹב הוּא לֶאֱכֹל בִּשְׁעַת הַבַּטָּלָה וְלֹא יֹאכְלוּ בִּשְׁעַת מְלָאכָה וְיִתְבַּטְּלוּ כָּל זְמַן שֶׁאוֹכְלִין, וְזֶה לְטוֹב בַּעַל הַבַּיִת:

Rambam explica que a restrição a "uvas, e não outra coisa" vem diretamente da leitura recebida do versículo. Quanto à extensão aos momentos de trânsito e retorno, oferece uma razão prática adicional, que complementa a de "devolver o perdido": como os trabalhadores de qualquer forma precisam comer, é preferível que o façam justamente nos momentos em que já estão ociosos (a caminho, ou voltando do lagar) — e não durante o próprio trabalho, quando comer os interromperia e prejudicaria o dono da obra. Assim, a permissão nesses intervalos beneficia tanto o trabalhador quanto o empregador.

Bartenura · Bava Metzia 7:4
מִפְּנֵי הָשֵׁב אֲבֵדָה לַבְּעָלִים. שֶׁלֹּא יִבָּטֵל מִמְּלַאכְתּוֹ וְיֹאכַל: אָמְרוּ, פּוֹעֲלִים אוֹכְלִים בַּהֲלִיכָתָן מֵאֻמָּן לְאֻמָּן. כְּשֶׁגָּמְרוּ שׁוּרָה זוֹ וְהוֹלְכִים לְהַתְחִיל בַּחֲבֶרְתָּהּ. וְאַף עַל גַּב דְּהַהִיא שַׁעְתָּא לָאו שְׁעַת מְלָאכָה הִיא, נִיחָא לֵיהּ לְבַעַל הַבַּיִת בְּהָא: וַחֲמוֹר כְּשֶׁהִיא פוֹרָקֶת. בַּהֲלִיכָתָהּ אוֹכֶלֶת מִמַּשְּׂאוֹי שֶׁעַל גַּבָּהּ עַד שֶׁתְּהֵא פוֹרֶקֶת:

Bartenura interpreta a razão de "devolver o perdido a seus donos" de forma ligeiramente distinta da de Rambam: comer nos intervalos evita que o trabalhador se distraia de sua tarefa principal para parar e comer durante o trabalho ativo — o que causaria prejuízo ao dono. Por isso, embora esses intervalos (caminhar entre fileiras) tecnicamente não sejam "momento de trabalho", o próprio dono da obra prefere que o consumo ocorra ali. Já o jumento, explica, pode comer da carga que transporta durante o trajeto, mas essa permissão cessa exatamente no momento em que a carga é descarregada de suas costas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Bava Metzia 91b
מתני' אבל מונע הוא עצמו וכו' - ואוכל כל אכילתו מהן:

Rashi confirma que o trabalhador que se contém até alcançar as frutas de melhor qualidade pode então concentrar ali toda a sua porção de consumo — a estratégia de esperar não reduz seu direito, apenas adia o momento em que o exerce.