Não se fixa preço sobre os produtos até que saia o preço [de mercado]. (Saiu o preço, fixam-se [preços], e ainda que este não tenha, aquele tem.) — Comprar produtos agora, por um preço fixo, para receber a entrega apenas mais tarde, é uma forma de compra a termo — mas antes que o preço da nova safra seja conhecido no mercado, tal fixação equivale a um empréstimo disfarçado: o vendedor recebe dinheiro agora contra uma entrega futura de valor incerto, arriscando pagar juro caso o preço suba. Uma vez que o preço de mercado é conhecido, a fixação é permitida mesmo que o próprio vendedor ainda não possua a mercadoria — pois outros no mercado a têm, e ele pode adquiri-la com o próprio dinheiro recebido.
Se ele foi o primeiro entre os ceifeiros, pode fixar preço com ele sobre a meda [de trigo ainda no campo], sobre o tonel de uvas, sobre o depósito de azeitonas, sobre os tijolos [de barro] do oleiro, e sobre a cal desde que a afundou no forno. E fixa preço com ele sobre o esterco durante todos os dias do ano. — Quando o vendedor já possui a mercadoria em algum estágio de produção — mesmo não acabada —, a venda antecipada por um preço fixo é sempre permitida, independentemente de o preço geral de mercado já ter saído: como a mercadoria específica já existe e já é dele, não há risco de juro disfarçado, apenas uma venda legítima a termo de algo que já está em processo de se tornar seu produto final.
Rabi Yosei diz: não se fixa preço sobre o esterco, a não ser que ele já tivesse esterco no monturo. Mas os sábios permitem. — Rabi Yosei restringe a permissão sobre o esterco: mesmo no verão, quando o esterco de outros já apodreceu e se tornou disponível no mercado, ele exige que o próprio vendedor já possua esterco acumulado. Os sábios discordam, permitindo a fixação de preço mesmo sem posse prévia, pois no verão o esterco está amplamente disponível a todos.
E fixa preço com ele conforme o preço mais alto [em quantidade, isto é, o mais barato]. Rabi Yehudá diz: mesmo que não tenha fixado com ele conforme o preço mais alto, pode dizer: dá-me como isto, ou dá-me meu dinheiro. — Quando a fixação de preço depende do vendedor efetivamente possuir a mercadoria, ele deve comprometer-se a entregar pelo preço mais vantajoso ao comprador — caso o preço geral caia (isto é, fique "alto" em quantidade de produto por moeda) antes da entrega. Rabi Yehudá acrescenta que, mesmo sem essa condição explícita, o comprador pode exigir esse mesmo direito, ou reaver seu dinheiro, pois a compra ainda não se completou por tradição (meshichá).
Rambam explica o sentido invertido da expressão "preço alto" e confirma que a halachá não segue nem Rabi Yosei nem Rabi Yehudá. Bartenura detalha cada exemplo da mishná — meda, tonel, tijolos, cal e esterco — mostrando o critério comum de posse já iniciada.
Rambam esclarece uma aparente contradição na linguagem da mishná: "preço alto" (sha'ar hagavoah) refere-se, paradoxalmente, ao preço mais barato daquele tipo de produto — pois quando o produto é abundante e barato, obtém-se dele uma quantidade "alta" por cada moeda. O vendedor deve entregar ao comprador pela melhor variedade e ao câmbio mais vantajoso daquele tipo. Rambam determina que a halachá não segue nem Rabi Yosei (quanto ao esterco) nem Rabi Yehudá (quanto ao direito de exigir o preço mais alto sem condição explícita).
Bartenura explica cada exemplo: o "primeiro entre os ceifeiros" já tem uma meda pronta, mesmo sem o preço geral ainda estabelecido, e por isso pode vender livremente. Os recipientes de uvas (evit) e azeitonas (ma'atan) são vasilhames onde a fruta ainda fermenta antes de virar vinho ou azeite — a mercadoria já existe fisicamente, mesmo incompleta. Sobre o esterco, Bartenura explica que a permissão dos sábios vale especificamente no verão, quando o esterco de outros já apodreceu e ficou disponível a todos, mesmo que o vendedor não tenha o seu próprio — e confirma que a halachá segue os sábios. E confirma a explicação de que "preço alto" significa, na prática, preço baixo — quando se recebe grande quantidade de produto por pouco dinheiro.
Rashi, em Bava Metzia 72b, ao comentar diretamente esta mishná, detalha os mesmos exemplos e confirma por que a posse prévia da mercadoria — ainda que em processo — elimina o risco de juro.
Rashi confirma que quem já possui a meda de trigo, mesmo antes do preço geral ser conhecido, pode fixar qualquer preço, pois a mercadoria já lhe pertence desde o momento do acordo — não há espaço para juro disfarçado. Ele descreve o evit e o ma'atan como grandes recipientes onde uvas e azeitonas ainda fermentam antes de se tornarem vinho ou azeite — a fruta já existe fisicamente, embora o produto final ainda não esteja pronto. E confirma a leitura paradoxal de "preço alto" como sinônimo de preço baixo: quando muitos produtos são dados por pouco dinheiro. Por fim, Rashi explica que Rabi Yehudá permite ao comprador exigir esse direito mesmo sem tê-lo estipulado, porque, não tendo havido ainda tradição (meshichá) da mercadoria, ele ainda pode recuar do acordo.