Não se recebe rebanho de ferro de um israelita, porque isso é ribit. — No "rebanho de ferro", o recebedor assume plena responsabilidade sobre o valor dos animais — como se fossem "de ferro", isto é, seu valor permanece garantido e fixo perante o dono, independentemente do que lhes aconteça —, repartindo apenas o lucro do trabalho e das crias. Como o recebedor deve ao dono, incondicionalmente, o valor integral avaliado dos animais, essa parte da transação equivale a um empréstimo em dinheiro; e o fato de ele lucrar administrando esse "empréstimo" configura juro.
Mas recebe-se rebanho de ferro dos gentios, e toma-se emprestado deles e empresta-se a eles com ribit; e o mesmo vale para o guer toshav. — A proibição bíblica de cobrar ou pagar juro aplica-se apenas entre israelitas; com um gentio — e igualmente com o guer toshav, o residente estrangeiro que aceitou as leis noaítas mas não se converteu — é permitido tanto tomar como emprestar com juro, e por extensão também o arranjo do rebanho de ferro.
Um israelita pode emprestar o dinheiro de um gentio com o conhecimento do gentio, mas não [apenas] com o conhecimento do israelita. — O caso é de um israelita que já devia dinheiro com juro a um gentio, e quer transferir essa dívida para outro israelita, que assumiria o pagamento do juro ao gentio em seu lugar; isso só é permitido se o gentio for de fato informado e assumir o segundo israelita como seu devedor direto — pois, se a transação permanecer apenas entre os dois israelitas, sem o conhecimento do gentio, o primeiro continua sendo, na prática, quem cobra o juro do segundo em nome próprio, o que é proibido.
Rambam explica o mecanismo do rebanho de ferro e detalha o cenário do israelita que administra dinheiro de um gentio. Bartenura confirma por que essa mishná, embora pareça redundante à anterior, é necessária para introduzir o caso dos gentios.
Rambam explica que o "rebanho de ferro" é o arranjo em que o recebedor se compromete contratualmente a não sofrer perda alguma sobre o valor dos animais, remetendo ao tratado de Ketubot, onde a expressão é discutida em outro contexto. Sobre o segundo caso, Rambam esclarece o cenário exato: um israelita já devia dinheiro com juro a um gentio; quando quer transferir essa dívida a outro israelita, não pode simplesmente instruí-lo a "pagar ao gentio como eu pagava" — isso deixaria o próprio israelita como cobrador de juro do outro. É necessário que ele devolva o dinheiro ao gentio, e que o gentio, por sua vez, torne a emprestá-lo diretamente ao segundo israelita — só assim o gentio se torna o credor real, com pleno conhecimento da transação.
Bartenura observa que esta mishná, à primeira vista, é redundante com a anterior — já que quem assume "toda a responsabilidade" sobre o rebanho de ferro está, com maior razão, sujeito à mesma proibição de quem assume apenas metade do risco. Mas ela é ensinada aqui para introduzir a segunda parte, permitindo o rebanho de ferro com gentios. Sobre o último caso, Bartenura confirma o cenário: um israelita devedor de um gentio quer que outro israelita assuma sua dívida com juro; isso só é permitido se o primeiro efetivamente colocar o segundo diante do gentio, tornando-o o devedor direto e conhecido — caso contrário, é o próprio primeiro israelita quem, na prática, empresta com juro ao segundo, o que é proibido.
Rashi, em Bava Metzia 70b, ao comentar diretamente esta mishná, confirma o mecanismo do rebanho de ferro e a razão pela qual as crias ficam isentas do dízimo de primogênitos quando pertencem a um gentio.
Rashi confirma que no rebanho de ferro toda a responsabilidade pelos bens recai sobre quem os recebe, que os avalia em dinheiro e reparte o lucro enquanto não devolve o valor ao dono. Ele observa, como Bartenura, que a mishná parece redundante, mas é necessária para chegar à permissão com gentios. Na Guemará, Rashi traz a prova trazida a partir da lei dos primogênitos: mesmo as crias nascidas da parte de um rebanho de ferro que "pertence" ao israelita (por cálculo de valor) ficam isentas da santidade de primogênito — o que prova que, enquanto o dono (o gentio) não recebeu de volta seu dinheiro, os próprios animais continuam juridicamente em sua posse, e não na do israelita que os recebeu.