Não se estabelece um lojista por metade do lucro, nem se dá dinheiro para comprar com ele produtos por metade do lucro — a menos que se lhe dê seu salário como a um trabalhador contratado. — Quando o dono do capital entrega mercadoria ou dinheiro a um lojista para vender e repartir o lucro meio a meio, metade da operação é, na prática, um empréstimo — pois o lojista assume o risco de perda sobre a metade que não é sua, e o trabalho que dedica a essa metade em troca do lucro futuro equivale a receber juro pelo uso do dinheiro alheio. A única forma de tornar isso permitido é pagar ao lojista um salário justo por seu trabalho naquela metade, independentemente do lucro.
Não se estabelecem galinhas por metade [dos pintos], nem se avaliam bezerros e potros por metade — a menos que se lhe dê o salário de seu trabalho e sua alimentação. — O mesmo princípio se aplica à criação de animais: se os ovos ou os animais jovens são avaliados em dinheiro desde o início, e o criador assume metade do risco de perda em troca de metade do ganho futuro, isso equivale a juro sobre a metade que não é sua — a menos que receba compensação por seu trabalho e pela alimentação que fornece.
Mas recebem-se bezerros e potros por metade, e os criam até que estejam na terça parte [de seu crescimento]; e o jumento, até que possa carregar carga. — Quando os animais jovens são entregues sem avaliação prévia em dinheiro — de modo que, se morrerem, o criador nada deve, e se sobreviverem, o lucro é repartido — não há juro algum, pois não existe uma soma fixa que o criador deva ao dono independentemente do resultado. Este é o modelo permitido: risco genuinamente compartilhado, sem dívida disfarçada.
Rambam explica em detalhe o mecanismo iská (sociedade meio-empréstimo, meio-depósito) por trás da proibição, e as formas de contorná-la licitamente. Bartenura confirma o princípio com o termo "trabalhador desocupado" (poel batel) como medida do salário devido.
Rambam explica que o salário devido ao lojista deve ser calculado como o de um "trabalhador desocupado" (poel batel) — isto é, quanto essa pessoa aceitaria receber para ficar sem trabalhar em vez de exercer sua profissão habitual, durante todo o tempo em que durar a sociedade. Ele acrescenta uma exceção importante: se o próprio lojista investe algo de seu capital na sociedade — mesmo uma quantia mínima, "um dinar em mil" — e recebe qualquer proporção de lucro sobre o todo, não há juro algum, pois ele está então investindo em nome próprio, e não apenas cuidando do dinheiro alheio.
Bartenura explica a estrutura jurídica que fundamenta toda a mishná: numa sociedade padrão de "metade do lucro" (iská), metade do investimento é tratada como empréstimo e a outra metade como depósito. Como quem recebe a mercadoria assume responsabilidade sobre a metade tratada como empréstimo — mesmo em caso de perda por acidente ou queda de preço —, essa metade é, de fato, uma dívida sua; e o trabalho que ele dedica a administrá-la em troca de participação no lucro é, na prática, pagamento pela demora em devolver esse "empréstimo" — ou seja, juro. Por isso a sociedade só se torna permitida quando o sócio ativo recebe também um salário justo por seu trabalho, medido como o de um trabalhador desocupado da mesma profissão.
Rashi, em Bava Metzia 68a, ao comentar diretamente esta mishná, explica com clareza o mecanismo da iská e a expressão "trabalhador desocupado" usada para medir o salário devido.
Rashi ilustra o caso da mishná com um exemplo concreto: o dono do capital entrega ao lojista produtos que valem quatro seá por sela no mercado, e o lojista os revende no varejo, na loja, ganhando um lucro adicional; se dividirem esse lucro meio a meio sem que o lojista receba salário fixo, ele está de fato administrando a metade do dono que é tratada como um depósito garantido — em troca do benefício de ter recebido esse capital emprestado, o que é juro. Na Guemará, Rashi registra a pergunta retórica sobre a expressão "trabalhador desocupado": como pode ser chamado de "desocupado" alguém que efetivamente trabalha — carregando produtos, vendendo, recebendo dinheiro e medindo mercadoria? A resposta é que a expressão mede o valor do salário, não a ausência de trabalho: paga-se o quanto essa pessoa exigiria para permanecer ociosa em vez de exercer sua profissão.