Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Hei · Mishná 10 de 11

Capina comigo e capinarei contigo

נַכֵּשׁ עִמִּי וַאֲנַכֵּשׁ עִמָּךְ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata da troca de dias de trabalho entre vizinhos, que deve ser feita com tarefas de dificuldade equivalente e dentro da mesma estação, e conclui com duas categorias adicionais de ribit — o juro em gestos e favores (Rabban Gamliel) e o juro em meras palavras (Rabi Shimon).

Pode um homem dizer a seu próximo: capina comigo e capinarei contigo, cava comigo e cavarei contigo — mas não deve dizer-lhe: capina comigo e cavarei contigo, cava comigo e capinarei contigo. — Trocar um dia de trabalho por outro dia de trabalho idêntico é uma troca justa, sem qualquer elemento de juro. Mas se as tarefas trocadas são de dificuldade diferente — capinar sendo mais leve que cavar, por exemplo —, o trabalho mais leve recebido em troca do mais pesado prestado constitui, na prática, um pagamento adicional pela espera até a reciprocidade, o que é juro (agar natar, "aluguel da espera").

Todos os dias de garid (estação seca) são um só; todos os dias de revi'á (estação chuvosa) são um só. — Dentro da mesma estação, não há necessidade de se preocupar se um dia específico foi mais longo, mais fácil ou mais difícil que outro — todos os dias de uma mesma estação são tratados como equivalentes para fins de troca.

Não deve dizer-lhe: lavra comigo no garid, e eu lavrarei contigo no revi'á. — Mas trocar um dia de trabalho na estação seca (mais fácil, solo leve) por um dia de trabalho na estação chuvosa (mais difícil, solo pesado) não é uma troca equivalente entre estações diferentes — o trabalho mais difícil prestado no revi'á, em troca do mais fácil no garid, constitui juro pela demora.

Rabban Gamliel diz: há ribit antecipado e há ribit posterior. Como assim? Pôs os olhos para tomar emprestado dele, e passou a enviar-lhe [presentes], dizendo: por causa de que me emprestarás — este é ribit antecipado. Tomou emprestado dele e devolveu-lhe seu dinheiro, e passou a enviar-lhe [presentes], dizendo: por causa de teu dinheiro que ficou ocioso comigo — este é ribit posterior. — Rabban Gamliel identifica duas categorias de juro que ocorrem fora do período do próprio empréstimo: presentes enviados antes, para conquistar a boa vontade de um futuro credor, e presentes enviados depois, como agradecimento por um empréstimo já quitado — ambos são, na essência, pagamento pelo uso do dinheiro alheio, ainda que disfarçados de gestos de cortesia.

Rabi Shimon diz: há ribit de palavras — não deve dizer-lhe: sabe que veio fulano de tal lugar. — Rabi Shimon acrescenta uma categoria ainda mais sutil: mesmo um favor verbal, como informar ao credor sobre uma notícia útil (por exemplo, a chegada de um comerciante interessante ao mercado) por causa do empréstimo recebido, constitui uma forma de juro — o "pagamento" não precisa ser material para ser proibido.

אוֹמֵר אָדָם לַחֲבֵרוֹ, נַכֵּשׁ עִמִּי וַאֲנַכֵּשׁ עִמָּךְ, עֲדֹר עִמִּי וְאֶעְדֹּר עִמָּךְ, וְלֹא יֹאמַר לוֹ נַכֵּשׁ עִמִּי וְאֶעְדֹּר עִמָּךְ, עֲדֹר עִמִּי וַאֲנַכֵּשׁ עִמָּךְ. כָּל יְמֵי גָרִיד, אֶחָד. כָּל יְמֵי רְבִיעָה, אֶחָד. לֹא יֹאמַר לוֹ חֲרשׁ עִמִּי בַּגָּרִיד וַאֲנִי אֶחֱרשׁ עִמְּךָ בָּרְבִיעָה. רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, יֵשׁ רִבִּית מֻקְדֶּמֶת וְיֵשׁ רִבִּית מְאֻחֶרֶת. כֵּיצַד. נָתַן עֵינָיו לִלְווֹת הֵימֶנּוּ, וְהָיָה מְשַׁלֵּחַ לוֹ וְאוֹמֵר בִּשְׁבִיל שֶׁתַּלְוֵנִי, זוֹ הִיא רִבִּית מֻקְדֶּמֶת. לָוָה הֵימֶנּוּ וְהֶחֱזִיר לוֹ אֶת מְעוֹתָיו, וְהָיָה מְשַׁלֵּחַ לוֹ וְאָמַר בִּשְׁבִיל מְעוֹתֶיךָ שֶׁהָיוּ בְטֵלוֹת אֶצְלִי, זוֹ הִיא רִבִּית מְאֻחֶרֶת. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, יֵשׁ רִבִּית דְּבָרִים, לֹא יֹאמַר לוֹ, דַּע כִּי בָא אִישׁ פְּלוֹנִי מִמָּקוֹם פְּלוֹנִי:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam define garid e revi'á como as estações seca e chuvosa, explica por que o trabalho na terra é mais difícil na estação das chuvas, e confirma que tanto Rabban Gamliel quanto Rabi Shimon estão descrevendo práticas a evitar, mesmo sem serem tecnicamente proibidas por lei. Bartenura confirma os mesmos pontos com breves glosas lexicais.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 5:10
אוֹמֵר אָדָם לַחֲבֵרוֹ נַכֵּשׁ עִמִּי וַאֲנַכֵּשׁ עִמָּךְ כוּ': גָּרִיד, יְמוֹת הַחַמָּה; וּרְבִיעָה, יְמוֹת הַגְּשָׁמִים; וְהַקַּרְקַע בִּימוֹת הַחַמָּה קַל לַחְפֹּר לְתַקֵּן, לְמִעוּט הַטִּנּוּף וְאֹרֶךְ הַיּוֹם. וְנִכּוּשׁ הוּא הַחֲפִירָה בְּשָׁרְשֵׁי הָאִילָנוֹת, כְּמוֹ הַחֲרִישָׁה שֶׁחוֹרְשִׁין לִזְרֹעַ: רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר יֵשׁ רִבִּית מֻקְדֶּמֶת וְיֵשׁ רִבִּית מְאֻחֶרֶת כוּ': מַה שֶּׁאָמַר רַבָּן גַּמְלִיאֵל וְרַבִּי שִׁמְעוֹן הַכֹּל הֲלָכָה, אֲבָל צָרִיךְ שֶׁתֵּדַע שֶׁהַדְּבָרִים הָאֵלֶּה וְכַיּוֹצֵא בָּהֶם הֵם דְּבָרִים שֶׁרָאוּי לְהִתְרַחֵק מֵהֶם בִּלְבַד:

Rambam define garid como os dias secos do verão e revi'á como os dias chuvosos do inverno, explicando que o trabalho da terra é naturalmente mais leve no verão — menos lama e mais horas de luz. Ele esclarece que nichush (capina) é a limpeza ao redor das raízes das árvores, enquanto charishá (lavoura) é o preparo mais pesado da terra para semeadura. Sobre a conclusão da mishná, Rambam faz uma observação importante: tanto a opinião de Rabban Gamliel quanto a de Rabi Shimon são aceitas como halachá, mas ele adverte que se trata de comportamentos que "convém evitar" — uma categoria de prudência recomendada, e não necessariamente de proibição legal formal e punível.

Bartenura · Bava Metzia 5:10
נַכֵּשׁ עִמִּי. הַיּוֹם וַאֲנַכֵּשׁ עִמְּךָ לְמָחָר. נִכּוּשׁ הוּא עֲקִירַת הָעֲשָׂבִים הָרָעִים הַגְּדֵלִים בַּתְּבוּאָה: עֲדֹר. חֲפֹר: לֹא יֹאמַר לוֹ נַכֵּשׁ עִמִּי וְאֶעְדֹּר עִמָּךְ. פְּעָמִים שֶׁזּוֹ קָשָׁה מִזּוֹ, וְיֵשׁ כָּאן אֲגַר נָטַר: גָּרִיד. יְמוֹת הַחַמָּה: רְבִיעָה. יְמוֹת הַגְּשָׁמִים: וַאֲנִי אֶחֱרֹשׁ עִמְּךָ בָּרְבִיעָה. שֶׁיְּמֵי רְבִיעָה קָשִׁים לַמְּלָאכָה שֶׁבַּשָּׂדוֹת:

Bartenura confirma que nichush é a remoção de ervas daninhas que crescem entre a plantação, enquanto avodá (cavar) é um trabalho de esforço diferente; trocar um pelo outro sem equivalência gera um elemento de "aluguel da espera" (agar natar) — o benefício obtido por ter esperado até a reciprocidade ser paga. Ele confirma as mesmas definições de garid e revi'á, e explica que o motivo de não trocar lavoura entre as estações é que os dias de revi'á são, por natureza, mais difíceis para o trabalho no campo do que os dias de garid.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, em Bava Metzia 75a-75b, ao comentar diretamente esta mishná, confirma as mesmas definições e explica com precisão por que trocar trabalho de dificuldade desigual constitui "aluguel da espera".

Rashi רש״י
Bava Metzia 75a–75b
מַתְנִי' נַכֵּשׁ עִמִּי — הַיּוֹם וַאֲנִי אֲנַכֵּשׁ עִמְּךָ לְמָחָר: נִכּוּשׁ — שִׂרְקְלִי"ר בְּלַעַ"ז: עֲדוֹר — חֲפֹר: אֲבָל לֹא יֹאמַר לוֹ נַכֵּשׁ עִמִּי הַיּוֹם וְאֶעְדֹּר עִמְּךָ לִזְמַן פְּלוֹנִי — פְּעָמִים שֶׁזּוֹ קָשָׁה מִזּוֹ וְיֵשׁ כָּאן אֲגַר נָטַר לוֹ בִּשְׂכַר שֶׁמַּמְתִּין לוֹ עַל שְׂכַר פְּעֻלָּתוֹ עַד אוֹתוֹ זְמַן, הוּא מְקַבֵּל עָלָיו מְלָאכָה שֶׁהִיא קָשָׁה מִזּוֹ: כָּל יְמֵי גָרִיד אֶחָד הֵם — וְלֹא דִּקְדְּקוּ בַּדָּבָר לָחוּשׁ שֶׁמָּא יוֹם אֶחָד יְהֵא אָרוֹךְ מֵחֲבֵרוֹ אוֹ קָשֶׁה מֵחֲבֵרוֹ... אֲבָל לֹא יֹאמַר לוֹ חֲרוֹשׁ עִמִּי וַאֲנִי אֶחֱרוֹשׁ עִמְּךָ בָּרְבִיעָה — שֶׁיְּמֵי רְבִיעָה קָשִׁין לַמְּלָאכָה שֶׁבַּשָּׂדוֹת:

Rashi explica com clareza o conceito de agar natar ("aluguel da espera") que fundamenta a proibição central da mishná: quando alguém presta um trabalho mais difícil hoje e recebe de volta, mais tarde, um trabalho mais fácil, o benefício obtido não é apenas a reciprocidade — é também um "aluguel" pago pelo tempo de espera até que a dívida de trabalho fosse quitada. Rashi confirma que a razão para agrupar todos os dias de uma mesma estação como equivalentes é que os sábios não quiseram entrar em minúcias sobre se um dia específico foi mais longo ou mais difícil que outro; mas entre estações diferentes, a disparidade é real e sistemática — os dias chuvosos são reconhecidamente mais árduos para o trabalho agrícola do que os dias secos.