O que é néchech (mordida) e o que é tarbit (acréscimo)? — A mishná abre o perek anunciando que tratará dos dois termos bíblicos para o juro: néchech, do verbo "morder", e tarbit, "aumento" — a Torá os menciona lado a lado (Vayikrá 25:36), e a mishná passa a defini-los um a um.
O que é néchech? Aquele que empresta um sela por cinco dinares, ou dois seá de trigo por três — porque isso morde. — Um sela vale quatro dinares; exigir cinco de volta é juro explícito, cobrado na própria moeda ou espécie emprestada — a mishná o chama de "mordida" porque desfalca o devedor de modo direto e evidente, sem disfarce algum.
E o que é tarbit? Aquele que lucra em produtos. Como assim? — Ao contrário do néchech, o tarbit não é um acréscimo cobrado abertamente, mas um lucro obtido ao revestir o empréstimo com a aparência de uma operação legítima de compra e venda.
Comprou dele trigo por um dinar de ouro o kor — sendo esse o preço vigente — e o trigo subiu para trinta dinares; disse-lhe: dá-me meu trigo, pois quero vendê-lo e comprar vinho com ele. Disse-lhe: eis que teu trigo está fixado para mim em trinta, e eis que tens comigo, por eles, vinho — mas vinho ele não tem. — O comprador pagara pelo trigo ao preço justo do momento. Quando o preço sobe, o vendedor prefere não entregá-lo e, em vez disso, converte o valor em uma dívida fixada no novo preço mais alto, prometendo saldá-la em vinho — mas na realidade não possui vinho algum. É juro disfarçado: ele lucra com a valorização do trigo que já deveria ter entregado, usando a promessa de vinho apenas como fachada comercial.
Rambam distingue néchech como juro de origem bíblica e tarbit como juro de origem rabínica, e explica quando é permitido fixar um preço em produtos sobre uma dívida existente. Bartenura detalha os valores (o dinar de ouro) e confirma que o caso proibido depende de o vendedor efetivamente não possuir a mercadoria prometida.
Rambam explica que néchech é o juro de origem bíblica, e tarbit, o juro de origem rabínica cobrado por via de compra e venda disfarçada. Ele esclarece que a frase final da mishná — "vinho ele não tem" — é a razão da proibição: é vedado lançar sobre o devedor uma dívida em mercadoria que o credor não possui de fato. Mas quando alguém simplesmente entrega dinheiro a seu próximo para receber dele, no futuro, uma quantidade fixa de trigo a um preço já determinado, isso é permitido, mesmo que o vendedor não tenha o trigo em mãos no momento — pois se trata de uma venda legítima a termo, e não de uma dívida disfarçada.
Bartenura explica que néchech recebe esse nome porque "morde" — o credor toma do devedor o que este não lhe deu. Ele fixa o valor do dinar de ouro em vinte e cinco dinares de prata, e confirma o ponto central do caso: se o vendedor tivesse entregado trigo de fato, não haveria problema; a proibição surge apenas porque ele transforma a dívida em vinho — mercadoria que não possui — arriscando-se a lucrar caso o vinho também suba de preço enquanto a dívida permanece em aberto.
Rashi, em Bava Metzia 60b, ao comentar o início da mishná, explica a origem do termo "morder" e confirma, com base na Guemará, por que o caso do trigo convertido em vinho constitui juro disfarçado.
Rashi confirma que néchech significa literalmente "morder", pois o credor toma do devedor exatamente o que este não lhe entregou. Sobre tarbit, ele nota — citando a Guemará — que tanto o empréstimo de dinheiro quanto o de produtos podem gerar esse tipo de juro, pois em ambos os casos o capital do credor se multiplica; mas aqui a mishná ilustra especificamente o juro de origem rabínica que se disfarça sob a forma de uma compra e venda. Rashi confirma que, se o comprador de fato tivesse recebido o trigo, o caso seria permitido — a proibição existe apenas porque o pagamento é convertido em vinho que o vendedor não possui, deixando-o exposto a lucrar caso o preço do vinho também suba.