Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Guimel · Mishná 5 de 12

E assim dois utensílios, um vale um mané e outro mil zuz

וְכֵן שְׁנֵי כֵלִים אֶחָד יָפֶה מָנֶה וְאֶחָד יָפֶה אֶלֶף זוּז
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná estende o princípio de 3:4 a um caso mais oneroso: em vez de dinheiro divisível, dois utensílios de valores muito diferentes — cuja partilha exige, na prática, quebrar o maior deles.

E assim dois utensílios, um vale um mané e um vale mil zuz, e este diz: o que vale mais é meu, e aquele diz: o que vale mais é meu — dá o pequeno a um deles, e do grande dá o valor do pequeno ao segundo, e o restante fique guardado até que venha Elias.O mesmo princípio de 3:4 se aplica aqui, mas com uma dificuldade adicional: como os bens em disputa não são dinheiro fungível, e sim dois utensílios distintos, a solução prática é entregar o utensílio de menor valor a um dos reclamantes, e retirar do utensílio maior — vendendo-o ou avaliando-o — uma quantia equivalente ao valor do pequeno, entregando-a ao outro reclamante; o restante do valor do utensílio grande permanece retido até que Elias venha esclarecer a verdade.

Disse Rabi Yossei: Se assim, o que perdeu o fraudador? Ao contrário, que tudo fique guardado até que venha Elias.Rabi Yossei repete aqui sua objeção de 3:4: se o fraudador recebe de qualquer forma o valor do utensílio pequeno, nada perdeu com sua mentira. Por isso, insiste que ambos os utensílios — íntegros, sem necessidade de quebrar o maior — permaneçam retidos até que Elias venha, preservando toda a disputa em aberto e desencorajando a fraude.

וְכֵן שְׁנֵי כֵלִים, אֶחָד יָפֶה מָנֶה וְאֶחָד יָפֶה אֶלֶף זוּז, זֶה אוֹמֵר יָפֶה שֶׁלִּי וְזֶה אוֹמֵר יָפֶה שֶׁלִּי, נוֹתֵן אֶת הַקָּטָן לְאֶחָד מֵהֶן, וּמִתּוֹךְ הַגָּדוֹל נוֹתֵן דְּמֵי קָטָן לַשֵּׁנִי, וְהַשְּׁאָר יְהֵא מֻנָּח עַד שֶׁיָּבֹא אֵלִיָּהוּ. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, אִם כֵּן מַה הִפְסִיד הָרַמַּאי. אֶלָּא הַכֹּל יְהֵא מֻנָּח עַד שֶׁיָּבֹא אֵלִיָּהוּ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam nota que o raciocínio é idêntico ao de 3:4, e que a mishná repete o caso apenas para evitar um engano possível quanto ao prejuízo do dono do utensílio grande; Bartenura detalha essa mesma preocupação, explicando por que os sábios ainda assim mantiveram sua posição contra Rabi Yossei.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 3:5
וכן שני כלים אחד יפה מנה ואחד יפה אלף זוז כו': ההקש בזה כמו ההקש במנה ומאתים והדין אחד ואמנם הביא זה המשל השני שלא תאמר הואיל ובזו התביעה יפסיד בעל כלי גדול עליו לפי שהוא מפסיד הכלי עצמו ונותן לו קצת דמיו יהיו שניהם מונחים עד שיבא אליהו כדי שיודה הרמאי מהם על האמת קמ"ל שאין הדבר כן אלא זהו כמו מנה ומאתים שלא הפסיד בעל המאתים עצם (ממנו) [ממונו] אלא הפסיד קצתו ואין הלכה כרבי יוסי:

Rambam explica que a analogia com o caso de mané e duzentos é direta, e a lei é a mesma; ele apenas traz este segundo exemplo para que não se pense: já que nesta reivindicação o dono do utensílio grande sai perdendo — pois perde o próprio utensílio, sendo-lhe entregue apenas uma parte de seu valor —, talvez ambos devessem ficar retidos até que venha Elias, para que o fraudador confesse a verdade, como Rabi Yossei propõe. A mishná nos ensina que não é assim: o caso é equivalente ao de mané e duzentos, em que o dono dos duzentos não perde a essência de seu dinheiro, mas apenas uma parte dele. E a halachá não segue Rabi Yossei.

Bartenura · Bava Metzia 3:5
וְכֵן שְׁנֵי כֵלִים. לְרַבָּנָן אִצְטְרִיכָא לֵיהּ. וְלֹא זוֹ אַף זוֹ קָתָנֵי, לֹא מִבַּעְיָא בְּמָנֶה וּמָאתַיִם דְּלֵיכָּא פְּסֵדָא דִּשְׁבִירַת כְּלִי, אָמְרוּ רַבָּנָן נוֹתֵן לָזֶה מָנֶה וְלָזֶה מָנֶה, אֶלָּא אֲפִלּוּ בִּשְׁנֵי כֵלִים דְּאִיכָּא פְּסֵדָא שֶׁצָּרִיךְ לְשַׁבֵּר הַכְּלִי הַגָּדוֹל כְּדֵי לָתֵת מִמֶּנּוּ דְּמֵי הַקָּטָן, וְלִכְשֶׁיָּבֹא אֵלִיָּהוּ נִמְצָא שֶׁבַּעַל הַכְּלִי הַגָּדוֹל הִפְסִיד שֶׁנִּשְׁבַּר הַכְּלִי שֶׁלּוֹ, וְסַלְקָא דַּעְתָּךְ אֲמֵינָא דִּבְהָא מוֹדוּ רַבָּנָן לְרַבִּי יוֹסֵי שֶׁהַכֹּל יְהֵא מֻנָּח עַד שֶׁיָּבֹא אֵלִיָּהוּ. קָמַשְׁמַע לָן. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים:

Bartenura explica que este segundo caso era necessário para os sábios: não bastava dizer que no caso de mané e duzentos, onde não há prejuízo de se quebrar um utensílio, os sábios ensinaram que se dá cem a cada um; era preciso ensinar o mesmo mesmo em dois utensílios, onde há o prejuízo real de ter de quebrar o utensílio grande para retirar dele o valor do pequeno — pois, quando Elias vier, o dono do utensílio grande terá perdido por ter tido seu utensílio quebrado, e poder-se-ia pensar que aqui os sábios concordariam com Rabi Yossei, que tudo deveria ficar retido. A mishná nos ensina que não é assim. E a halachá segue os sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na continuação da sugya em Bava Metzia 37b, formula exatamente essa objeção potencial — o prejuízo de quebrar o utensílio grande — como base da posição de Rabi Yossei.

Rashi רש״י
Bava Metzia 37b
פְּסֵידָא דְגָדוֹל — שֶׁל כְּלִי גָדוֹל שֶׁשְּׁבָרוּהוּ, וּכְשֶׁיָּבֹא אֵלִיָּהוּ וְיֹאמַר שֶׁל מִי הוּא, נִמְצָא מַפְסִיד בִּשְׁבִירָתוֹ: בְּהָא קָאָמַר רַבִּי יוֹסֵי — מִשּׁוּם פְּסֵידָא דְגָדוֹל.

Rashi identifica a base específica da objeção de Rabi Yossei neste caso: diferentemente do dinheiro no caso anterior, aqui há um prejuízo real e irreversível — o utensílio grande precisa ser quebrado ou vendido para que se extraia dele o valor equivalente ao pequeno. Se depois vier Elias e revelar que o utensílio grande pertencia, na verdade, ao reclamante que recebeu apenas o pequeno, este já terá perdido definitivamente seu utensílio, que foi quebrado sem necessidade. É precisamente por causa desse prejuízo do dono do utensílio grande que Rabi Yossei insiste em reter ambos os utensílios intactos, em vez de partir o maior.