Seder Nezikin · Massechet Bava Kamma · Perek Vav · Mishná 6 de 6

A centelha que saiu debaixo do martelo

גֵּץ שֶׁיָּצָא מִתַּחַת הַפַּטִּישׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Vav, a mishná traz dois casos finais da categoria-mãe do fogo: a centelha que salta do martelo do ferreiro, e o camelo carregado de linho cujo pelo se incendeia na loja do vendeiro — com a disputa de Rabi Yehudá sobre a isenção do lampião de Chanucá deixado do lado de fora.

Centelha que saiu debaixo do martelo e causou dano — está obrigado.Quando uma faísca de fogo salta do martelo de um ferreiro durante seu trabalho e causa dano ao incendiar algo alheio, o ferreiro é responsabilizado, pois essa centelha é consequência previsível e direta de sua atividade.

Camelo que estava carregado de linho e passava pela via pública, e seu linho entrou dentro de uma loja, e pegou fogo pelo lampião do vendeiro, e incendiou o edifício — o dono do camelo está obrigado.Se um camelo carregado de linho, ao passar pela via pública, teve sua carga adentrando o espaço de uma loja, onde o linho pegou fogo no lampião ali normalmente aceso, e o incêndio resultante consumiu o próprio edifício, é o dono do camelo quem responde pelo dano, pois foi ele quem, ao conduzir a carga para dentro do espaço da loja, criou a condição para o incêndio.

Se o vendeiro deixou seu lampião do lado de fora — o vendeiro está obrigado.Se, porém, foi o próprio vendeiro quem colocou seu lampião fora dos limites normais de sua loja, invadindo o espaço da via pública por onde passava o camelo, é ele quem se torna responsável pelo incêndio resultante, pois foi sua própria negligência que criou o risco.

Rabi Yehudá diz: no caso de um lampião de Chanucá — está isento.Rabi Yehudá isenta o vendeiro nesse caso específico, quando o lampião deixado do lado de fora era um lampião de Chanucá, pois é precisamente um preceito religioso acender esse lampião do lado de fora de casa, para tornar público o milagre — e por isso essa colocação não constitui negligência.

גֵּץ שֶׁיָּצָא מִתַּחַת הַפַּטִּישׁ וְהִזִּיק, חַיָּב. גָּמָל שֶׁהָיָה טָעוּן פִּשְׁתָּן וְעָבַר בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, וְנִכְנַס פִּשְׁתָּנוֹ לְתוֹךְ הַחֲנוּת, וְדָלְקוּ בְּנֵרוֹ שֶׁל חֶנְוָנִי וְהִדְלִיק אֶת הַבִּירָה, בַּעַל הַגָּמָל חַיָּב. הִנִּיחַ חֶנְוָנִי נֵרוֹ מִבַּחוּץ, הַחֶנְוָנִי חַיָּב. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, בְּנֵר חֲנֻכָּה פָּטוּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam confirma que a halachá não segue Rabi Yehudá; Bartenura precisa os dois termos técnicos da mishná — a centelha e a razão específica da posição de Rabi Yehudá.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Kamma 6:6
גֵּץ שֶׁיָּצָא מִתַּחַת הַפַּטִּישׁ וְהִזִּיק חַיָּב כוֹ': וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

Rambam observa que o conteúdo desta mishná final é claro por si mesmo, e conclui apenas que a halachá não segue Rabi Yehudá — ou seja, mesmo tratando-se de um lampião de Chanucá, o vendeiro que o deixou do lado de fora, causando o incêndio, permanece responsável pelo dano.

Bartenura · Bava Kamma 6:6
גֵּץ. נִיצוֹץ שֶׁל אֵשׁ: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר בְּנֵר חֲנֻכָּה פָּטוּר. כֵּיוָן דִּבְמִצְוָה קָא עָסֵיק. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

Bartenura esclarece que "guetz" significa uma centelha de fogo. E, quanto à posição de Rabi Yehudá, explica que ele isenta o vendeiro no caso do lampião de Chanucá precisamente porque este estava ocupado no cumprimento de um preceito religioso ao colocá-lo do lado de fora — mas a halachá não segue Rabi Yehudá, e o vendeiro permanece responsável mesmo nesse caso.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 62b), encerrando o Perek Vav, sobre a centelha do ferreiro e a altura própria do lampião de Chanucá.

Rashi · · רש״י
Bava Kamma 62b, s.v. גץ
גֵּץ - אִישְׁטִינְצִיל

Rashi traduz o termo "guetz" para o francês antigo, confirmando que se trata de uma centelha ou faísca que salta do metal batido pelo martelo do ferreiro.

Rashi · · רש״י
Bava Kamma 62b, s.v. גמ' למעלה מעשרים אמה
גְּמָ' לְמַעְלָה מֵעֶשְׂרִים אַמָּה - לֹא חֲזוּ לָהּ אֱינָשֵׁי וְלֹא מְפַרְסֵם נִיסָּא, וְאָנוּ לְפַרְסוּמֵי נִיסָּא בָּעֵינַן

Explicando a razão pela qual o lampião de Chanucá deve ser colocado abaixo de vinte covados de altura, a Guemará ensina que, acima dessa altura, as pessoas que passam não o veem, e por isso ele não cumpriria seu propósito de tornar público o milagre — e é precisamente essa publicidade que constitui o objetivo do preceito.

Rashi · · רש״י
Bava Kamma 22a, s.v. בירה; בנר חנוכה פטור
בִּירָה - בַּיִת גָּדוֹל: בְּנֵר חֲנֻכָּה פָּטוּר - שֶׁמִּצְוָה לְהַנִּיחָהּ בִּרְשׁוּת הָרַבִּים לְפַרְסוּמֵי נִיסָּא

Em outra passagem da Guemará que discute o mesmo caso, Rashi explica que "birá" significa uma casa grande — o edifício mencionado na mishná — e confirma que, segundo Rabi Yehudá, o lampião de Chanucá gera isenção porque é precisamente um preceito religioso colocá-lo no domínio público, com o propósito de tornar público o milagre.