Um boi que cornou quatro ou cinco bois, um depois do outro, pagará ao último deles. — Trata-se de um boi tam, que paga o dano apenas do valor do seu próprio corpo. A mishná trata do caso em que o boi corna vários bois antes que o primeiro lesado consiga levá-lo a julgamento; a Guemará explica que se refere a quando o primeiro lesado já havia tomado posse do boi causador do dano para cobrar sua dívida, tornando-se seu guardião remunerado — e, enquanto sob sua guarda, o boi escapou e cornou outros. Como a guarda era responsabilidade do primeiro lesado, é o último lesado que recebe primeiro, do valor do próprio boi.
E se houver sobra nele, devolverá ao anterior a ele. E se houver sobra nele, devolverá ao anterior ao anterior a ele. E o último, por ser o último, sai ganhando — palavras de Rabi Meir. — Depois de pago o último lesado, o que sobrar do valor do boi vai para o penúltimo lesado, e o que ainda sobrar depois disso vai para o antepenúltimo. Segundo Rabi Meir, quem chega por último na ordem dos danos tem vantagem, pois recebe integralmente antes que o valor do boi se esgote — os lesados anteriores correm o risco de ficar sem receber nada.
Rabi Shimon diz: um boi que vale duzentos que cornou um boi que vale duzentos, e a carcaça nada vale, este toma um mane e aquele toma um mane. — Rabi Shimon discorda do princípio de Rabi Meir: para ele, o primeiro lesado já se torna sócio no valor do boi causador do dano desde o primeiro dano, na proporção de metade (já que o boi tam paga metade do dano, do próprio corpo). Assim, no primeiro caso, com o boi causador valendo duzentos zuz e nada restando da carcaça do morto, o lesado toma cem zuz (um mane) — metade do valor do boi — e o dono do boi fica com o outro mane, agora como sócio no boi remanescente.
Voltou e cornou outro boi que vale duzentos, o último toma um mane, e o anterior a ele, este toma cinquenta zuz e aquele toma cinquenta zuz. — Quando o mesmo boi corna uma segunda vítima, o novo lesado toma metade de tudo o que resta do boi — ou seja, um mane inteiro, já que o boi ainda vale duzentos como um todo entre dono e primeiro lesado. Isso consome a parte que pertencia ao primeiro lesado e ao dono original: cada um perde cinquenta zuz de sua parte anterior, e o que resta a cada um deles é cinquenta zuz.
Voltou e cornou outro boi que vale duzentos, o último toma um mane, e o anterior a ele, cinquenta zuz, e os dois primeiros, um dinar de ouro. — Numa terceira goração, o mais recente lesado novamente toma a metade de tudo — um mane; o penúltimo lesado (a segunda vítima) toma cinquenta zuz de sua parcela anterior; e o que resta, dividido entre o primeiro lesado e o dono original, é apenas um dinar de ouro (vinte e cinco zuz) para cada um — mostrando como o valor se dilui a cada nova goração, sempre preservando a proporção de sócios no boi remanescente.
Rambam esclarece o cálculo e confirma que a halachá segue Rabi Shimon; Bartenura detalha passo a passo a divisão dos valores em cada goração sucessiva.
Rambam nota que a mishná trata do boi tam, que paga sempre do valor do próprio corpo — daí toda a complexidade da divisão entre lesados sucessivos. Ele explica ainda uma situação adicional discutida na Guemará: quando o primeiro lesado já havia tomado o boi para cobrar sua dívida e se tornara seu guardião remunerado, e o boi escapou e causou dano a outro; nesse caso o último lesado cobra meio dano completo (não apenas a metade do que sobrar), e o que sobrar volta ao lesado anterior. Rambam conclui que a halachá segue Rabi Shimon, e que, tratando-se de um boi já advertido (muad), nenhuma dessas complicações se aplica, pois ele paga o dano completo dos bens livres do dono.
Bartenura explica que, para Rabi Shimon, o dono do boi e cada lesado sucessivo tornam-se sócios no valor do boi causador do dano, já que este paga do próprio corpo: a cada nova goração, o lesado mais recente toma metade de tudo o que o boi ainda vale, e os sócios anteriores dividem entre si a redução proporcionalmente à parte que já detinham. Assim, na terceira goração, o primeiro lesado e o dono original — que antes tinham um quarto cada um do valor total — pagam apenas um quarto do dano ao terceiro lesado, resultando em um dinar de ouro (vinte e cinco zuz) para cada um.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 36a), no início do Perek Dalet, sobre a divisão do valor do boi entre os lesados sucessivos.
Rashi explica o caso incomum descrito pela mishná: um boi que corna, deixa de cornar, torna a cornar, e assim sucessivamente diante de diferentes observadores — sem que se complete, entre uma goração e outra, o processo de advertência formal em tribunal (que exigiria três gorações seguidas com testemunhas). Por isso, apesar de cornar várias vezes, o boi permanece tam durante toda a sequência, pagando cada vez do valor do próprio corpo, o que gera a complexa divisão tratada na mishná.