Como é o boi que causa dano no domínio do prejudicado? Se chifrou, empurrou, mordeu, deitou-se, deu coices, no domínio público, paga metade do dano. No domínio do prejudicado, Rabi Tarfon diz: dano completo; e os Sábios dizem: metade do dano. Disse-lhes Rabi Tarfon: se no lugar em que se foi leniente quanto ao dente e quanto à pata no domínio público — que estão isentos —, foi-se rigoroso quanto a eles no domínio do prejudicado, para pagar o dano completo, no lugar em que se foi rigoroso quanto ao chifre no domínio público, para pagar metade do dano, não é justo que sejamos rigorosos quanto a ele no domínio do prejudicado, para pagar o dano completo? Disseram-lhe: basta que o que provém do raciocínio seja como aquilo de que se raciocinou — assim como no domínio público metade do dano, também no domínio do prejudicado metade do dano. Disse-lhes: eu não julgo chifre a partir de chifre; eu julgo chifre a partir de pata. E se no lugar em que se foi leniente quanto ao dente e quanto à pata, no domínio público, foi-se rigoroso quanto ao chifre, no lugar em que se foi rigoroso quanto ao dente e quanto à pata, no domínio do prejudicado, não é justo que sejamos rigorosos quanto ao chifre? Disseram-lhe: basta que o que provém do raciocínio seja como aquilo de que se raciocinou — assim como no domínio público metade do dano, também no domínio do prejudicado metade do dano. — A mishná lista os cinco atos "descendentes" do chifre (chifrar, empurrar, morder, deitar-se, dar coices) e estabelece que, no domínio público, pagam metade do dano — como qualquer chifre inocente. A dúvida surge quanto ao domínio do prejudicado: Rabi Tarfon propõe elevar o pagamento a dano completo, por meio de um raciocínio a fortiori a partir do dente e da pata, que são leniente no domínio público (isentos) e rigorosos no domínio do prejudicado (dano completo) — então o chifre, já rigoroso no domínio público (metade), deveria ser ainda mais rigoroso no domínio do prejudicado (dano completo). Os Sábios rejeitam esse raciocínio com o princípio "dayo": uma inferência lógica não pode gerar uma conclusão mais rigorosa que sua premissa original — e como a premissa (chifre no domínio público) já é de metade do dano, a conclusão não pode ultrapassar essa medida, permanecendo em metade também no domínio do prejudicado. Rabi Tarfon tenta uma segunda via, comparando não chifre com chifre, mas chifre com pata: no domínio público o dente e a pata são leniente (isentos) e o chifre é rigoroso (metade); logo, no domínio do prejudicado, onde dente e pata são rigorosos (dano completo), o chifre deveria ser ainda mais rigoroso (dano completo). Novamente os Sábios aplicam o princípio "dayo", limitando a conclusão à mesma medida da premissa — metade do dano — e a halachá permanece assim: chifre no domínio do prejudicado paga apenas metade do dano, como no domínio público.
Rambam explica o princípio lógico do "dayo" e por que ele não anula toda inferência a fortiori de Rabi Tarfon em outros contextos; fixa a halachá segundo os Sábios.
Rambam explica o princípio hermenêutico do "dayo": quando se deriva uma lei nova por meio de um raciocínio a fortiori (kal vachomer), a conclusão derivada não pode ser mais severa que a premissa da qual foi derivada — deve ser igual a ela. Rambam esclarece ainda que a disputa entre Rabi Tarfon e os Sábios não é sobre o princípio do "dayo" em geral (que Rabi Tarfon aceita em outros contextos, como no caso de Miriam), mas sobre sua aplicação quando a lei já era conhecida por outra via antes do raciocínio a fortiori — caso em que os Sábios ainda aplicam o "dayo" para limitar a conclusão, e Rabi Tarfon entende que o princípio não se aplica. E fixa a halachá segundo os Sábios: o chifre no domínio do prejudicado paga apenas metade do dano.
Bartenura confirma que chifrar, empurrar, morder, deitar-se e dar coices são todos "descendentes" da categoria do chifre. Explica o princípio "dayo" aplicado ao primeiro argumento de Rabi Tarfon: já que ele deriva a regra do chifre no domínio do prejudicado a partir do próprio chifre no domínio público, a conclusão deve ser igual à premissa — metade do dano, e não mais que isso. E, sobre a réplica de Rabi Tarfon, explica que ele então muda a base do raciocínio: já não deriva chifre a partir de chifre, mas chifre a partir da pata — tentando assim escapar da limitação do "dayo" ao trazer uma premissa externa à própria categoria do chifre.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 24b-25a), explicando a estrutura do raciocínio a fortiori de Rabi Tarfon e a resposta dos Sábios com o princípio "dayo".
Rashi confirma que chifrar, empurrar e os demais atos listados são todos "descendentes" da categoria do chifre. Explica o argumento inicial de Rabi Tarfon como uma inferência do chifre no domínio do prejudicado a partir do próprio chifre no domínio público — e a resposta dos Sábios, de que basta que a conclusão seja igual à premissa, sem ultrapassá-la. E, sobre a réplica de Rabi Tarfon, esclarece que ele passa a derivar não mais chifre de chifre, mas chifre a partir da pata: no lugar em que se foi rigoroso quanto ao dente e à pata, não seria justo sermos rigorosos também quanto ao chifre?