Quatro são as categorias-mãe de dano: o Boi, e o Poço, e o Maabê, e o Fogo. O Boi não é como o Maabê, e o Maabê não é como o Boi. E nem este nem aquele — que têm neles espírito de vida — são como o Fogo, que não tem nele espírito de vida. E nem este nem aquele — cujo modo é ir e causar dano — são como o Poço, cujo modo não é ir e causar dano. O ponto comum entre eles é que seu modo é causar dano, e sua guarda está sobre ti. E, quando causar dano, o causador do dano é obrigado a pagar o pagamento do dano com a melhor da terra. — A mishná abre o tratado listando as quatro categorias fundamentais em que se enquadra todo dano causado pelos bens de uma pessoa: o Boi (representando aqui o dano pela pata do animal, em seu andar), o Poço (o obstáculo deixado em lugar público), o Maabê (segundo a Guemará, ou o dente do animal que come o que não é seu, ou — por uma segunda opinião — o próprio homem que causa dano), e o Fogo (a chama que se alastra e destrói). A mishná explica então por que a Torá precisou mencionar cada uma separadamente, em vez de deixar que uma se aprendesse das outras por analogia (kal vachomer): o Boi tem um traço que falta ao Maabê — seu dano é comum —, e o Maabê tem um traço que falta ao Boi — há proveito para quem causa o dano ao comer. Nem o Boi nem o Maabê são como o Fogo, pois ambos envolvem seres com espírito de vida, ao passo que o Fogo não; e nem o Boi, nem o Maabê, nem o Fogo são como o Poço, pois todos os três "andam" e causam dano ao se deslocar, ao passo que o Poço permanece parado e é o próprio prejudicado quem se desloca até ele. Apesar dessas diferenças, a mishná extrai o traço comum a todas as quatro categorias — o "ponto comum" (tzad hashavé): o costume de causar dano, cuja guarda recai sobre o responsável — e fixa a partir dele o princípio geral da responsabilidade civil: todo aquele cujos bens costumam causar dano deve guardá-los, e, se causarem dano, deve pagar o valor integral com a melhor de suas terras.
Cada uma das quatro categorias-mãe de dano é ancorada em seu próprio versículo de Shemot, na parashá de Mishpatim — a base bíblica de toda a responsabilidade civil talmúdica.
A quarta categoria, o Boi (representando aqui o dano pela pata do animal em seu andar), é derivada do mesmo versículo do Maabê — "e soltar seu animal" (וְשִׁלַּח אֶת בְּעִירֹה) — que a Guemará identifica com o dano causado pelo próprio deslocamento do animal, distinto do dano causado por sua alimentação. As quatro categorias, todas ancoradas em Shemot 21-22, na parashá de Mishpatim, formam juntas a base bíblica completa da responsabilidade civil (nezikin) desenvolvida ao longo de todo o tratado.
Rambam explica por que cada uma das quatro categorias precisou ser mencionada separadamente na Torá, e por que a categoria do Chifre (keren) — o dano intencional do animal — não é contada entre as quatro.
Rambam esclarece que estas quatro categorias-mãe são, todas elas, danos que resultam dos bens de uma pessoa. "Boi" refere-se à pata do boi — o dano causado por sua pisada e quebra no caminhar; "Maabê" refere-se ao dente — o dano causado por sua alimentação, chamado assim porque a raiz da palavra evoca a ação de desenterrar e buscar o que comer. Explica que a Torá precisou mencionar cada categoria separadamente porque cada uma tem um traço próprio que a distingue das demais — dente e pata são isentos no domínio público, o poço isenta utensílios, o fogo isenta o oculto — e que o Chifre (keren, o dano intencional por chifrada) não foi contado entre as quatro categorias-mãe precisamente porque, ao contrário delas, ele se divide entre inocente (tam) e avisado (mu'ad), como a própria Escritura estabelece.
Bartenura explica que estas quatro categorias são chamadas "mães" (avot) precisamente porque cada uma delas tem "descendentes" (toladot) — casos derivados que compartilham sua regra, ainda que não estejam explicitamente escritos na Torá. Identifica o Boi com a pata (o dano pela pisada em seu andar, apoiado em "e soltar seu animal"); o Poço com quem abre um poço em via pública; o Maabê com o dente (o dano pela alimentação, apoiado em "e pastar em campo alheio"); e o Fogo com a chama que se alastra e destrói. Explica ainda que a categoria do Chifre não é contada entre as avot precisamente porque este tratado, neste primeiro estágio, trata apenas dos danos que já são "avisados desde o início" — ou seja, que pagam o dano completo desde a primeira ocorrência —, ao passo que o Chifre começa "inocente" e só se torna "avisado" após reincidência.
Abrindo o tratado, o perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 2a).
Rashi observa, já na primeira linha, que estas quatro categorias são chamadas "mães" (avot) precisamente porque estão escritas explicitamente no próprio versículo da Torá — enquanto a Guemará se encarrega de explicar, mais adiante, quais são os casos derivados ("descendentes", toladot) de cada uma. Explica que a mishná lista o Boi e o Poço na mesma ordem em que aparecem na parashá — a primeira seção da Torá trata do boi, a segunda do poço. Sobre o termo "Maabê", Rashi remete à discussão da Guemará, que o identifica com o dente. E identifica "Habaêr" diretamente com o versículo "quando sair fogo" (Shemot 22:5).