Aquele que divide seus bens verbalmente — Rabi Eliezer diz: tanto o saudável quanto o gravemente enfermo, bens que têm garantia se adquirem por dinheiro, por documento e por posse, e os que não têm garantia só se adquirem por tração. — Rabi Eliezer sustenta que a palavra falada sozinha nunca basta para transferir propriedade — nem para o saudável nem para o moribundo —, sendo sempre necessário um dos atos formais de aquisição reconhecidos pela lei.
Disseram-lhe: houve um caso com a mãe dos filhos de Rochel, que estava doente e disse: "Deem meu broche à minha filha" — e ele valia doze manés — e ela morreu, e confirmaram suas palavras. — Os sábios trazem um precedente em que a simples palavra de uma moribunda, sem qualquer ato de aquisição, foi validada pelos sábios como doação eficaz.
Disse-lhes: que os filhos de Rochel sejam enterrados por sua mãe. — Rabi Eliezer rejeita o precedente com uma expressão de desdém, explicando — segundo a Guemará — que aqueles filhos eram ímprobos e o caso foi decidido excepcionalmente, como penalidade contra eles, e não como norma geral.
E os sábios dizem: em Shabat, suas palavras permanecem válidas, porque ele não pode escrever; mas não em dia comum. — Os sábios explicam que a palavra sozinha do moribundo basta para efetuar a doação apenas em Shabat, quando ele fisicamente não pode redigir um documento — mas em dia de semana, quando poderia escrever, exige-se o ato formal de aquisição.
Rabi Yehoshua diz: em Shabat disseram — tanto mais em dia comum. — Rabi Yehoshua discorda dessa distinção e argumenta por inferência a fortiori (kal vachômer): se já em Shabat, quando não se pode redigir documento, a palavra do moribundo é suficiente, com mais razão ainda deveria bastar em dia comum, quando ele poderia escrever mas optou por falar.
De modo semelhante: adquire-se em benefício do menor, mas não se adquire em benefício do maior. — Do mesmo modo, no caso de alguém receber uma doação em nome de outra pessoa ausente: isso é válido quando o beneficiário é menor — que não pode agir por si —, mas não quando é maior, capaz de aceitar por conta própria.
Rabi Yehoshua diz: quanto ao menor, disseram — tanto mais quanto ao maior. — Novamente por kal vachômer: se já em benefício do menor, que não tem capacidade jurídica própria, é possível adquirir por ele através de outrem, com mais razão deveria ser possível em benefício do maior, que tem plena capacidade de aceitar.
Rambam registra a decisão final, que não segue nem Rabi Eliezer nem a distinção entre Shabat e dia comum: as palavras do moribundo têm o mesmo peso de um documento escrito e entregue, sem necessidade de nenhum ato formal de aquisição, seja em Shabat ou em dia de semana. E, quanto à segunda disputa, a halachá segue Rabi Yehoshua: também se adquire em benefício do maior.
Bartenura explica a raiz da posição isolada de Rabi Eliezer: para ele, mesmo a declaração de quem já se sabe à beira da morte não tem o peso de um documento formalmente entregue — exige-se sempre um ato de aquisição, exatamente como na doação de uma pessoa saudável. E ele confirma que a halachá não segue Rabi Eliezer.
O Rashbam identifica a família do precedente pelo nome do pai, Rochel, e explica por que ele não serviria de prova a favor dos sábios: se a doação da mãe tivesse sido uma doação parcial sem reserva, seria possível argumentar que até Rabi Eliezer concordaria, no caso de quem já fala “por causa da morte”, que não se exige ato de aquisição. Rabi Eliezer rejeita o precedente com dureza — os filhos de Rochel eram homens ímprobos, e os sábios validaram a doação de sua mãe apenas como penalidade excepcional contra eles, não como regra geral. Sobre o Shabat, o Rashbam explica a lógica da concessão: como no dia sagrado não se pode legalmente redigir documento nem efetuar certos atos de aquisição, os sábios permitiram que a palavra sozinha bastasse, para que a impossibilidade prática não angustiasse o moribundo. Por fim, explica o paralelo com o menor: como a criança não tem capacidade jurídica própria para adquirir o que lhe é dado, os sábios permitiram que outra pessoa adquirisse em seu nome — o que não é necessário para o maior, plenamente capaz de aceitar por si mesmo.