O moribundo que escreveu todos os seus bens para outros e reservou para si um pedaço de terra, por menor que seja — sua doação permanece válida. — Se, ao doar todos os seus bens em vida, o doente grave (shechiv mera) reservou para si mesmo qualquer porção de terra, isso mostra que ele contava com sua recuperação e ainda assim quis dar tudo o mais; por isso, mesmo que se recupere, a doação continua válida.
Não reservou para si um pedaço de terra, por menor que seja, sua doação não permanece válida. — Se não reservou nada para si, entende-se que a doação foi feita apenas por temor da morte iminente; se ele se recupera, presume-se que não teve a intenção de se desfazer de tudo caso vivesse, e a doação é cancelada.
Não escreveu nele "moribundo" — ele diz: eu era moribundo; e eles dizem: ele estava saudável — é preciso trazer prova de que era moribundo, palavras de Rabi Meir. — Se o documento de doação não registrou explicitamente que o doador estava à beira da morte, e depois ele se recupera e quer anular a doação alegando que estava gravemente enfermo, enquanto os beneficiários alegam que estava saudável, Rabi Meir sustenta que cabe a ele — que quer anular — trazer prova de que estava de fato à beira da morte.
E os sábios dizem: quem reclama de seu companheiro, sobre ele recai o ônus da prova. — Os sábios discordam: aplicam a regra geral de que o ônus da prova recai sobre quem busca extrair algo da posse de outro — e como os bens já estão na posse dos beneficiários da doação, é o doador quem deve provar que estava moribundo.
Rambam explica a lógica por trás da regra do sinal: reservar terra para si mesmo revela que o doador contava em se recuperar — por isso a doação vale de qualquer forma. E ele decide expressamente que a halachá não segue Rabi Meir, mas sim a posição dos sábios: cabe aos herdeiros do doador — que buscam anular a doação já entregue — trazer prova de que ele estava saudável, não o contrário.
Bartenura acrescenta uma distinção importante: reservar bens móveis para si tem o mesmo efeito que reservar terra — a doação vale mesmo que ele se recupere. Mas há uma categoria distinta, mais severa: quem “ordena por causa da morte” (por já saber, com quase certeza, que vai morrer) sempre pode se retratar caso se recupere, tenha ou não reservado algo — e, se de fato morrer, o beneficiário adquire mesmo sem qualquer ato formal de aquisição.
O Rashbam abre notando que a mesma regra vale tanto para a doação escrita quanto para a divisão feita apenas de forma verbal — como no precedente da mãe dos filhos de Rochel, adiante na mishná 9:7, cujas palavras os sábios confirmaram sem necessidade de documento. Ele também precisa o detalhe técnico decisivo: a doação parcial (com reserva) só é válida em definitivo quando acompanhada de um ato formal de aquisição (kinyan) registrado no próprio documento — e quando não há reserva alguma, mesmo tendo havido esse ato formal, o doador pode se retratar se sobreviver, pois todo o gesto se revela como condicionado, na sua intenção, à morte que ele temia.