Havia duas testemunhas testemunhando sobre ele que ele a comeu três anos, e descobriram-se conspiradoras — pagam-lhe tudo. — Se duas testemunhas afirmam em juízo que viram alguém usufruir os frutos de um campo durante três anos seguidos — testemunho que estabeleceria a chazaká em favor do possuidor contra o verdadeiro dono — e depois se descobre, por meio do processo de hazamá (a impugnação de testemunhas por outras que provam que os primeiros não poderiam ter presenciado o fato), que essas testemunhas mentiram, elas devem pagar ao verdadeiro dono o valor integral do campo que, por sua falsa testemunha, quase lhe fizeram perder — aplicando a lei da Torá de "fareis a ele como planejou fazer a seu irmão".
Duas no primeiro, e duas no segundo, e duas no terceiro, dividem entre si. — Se, em vez de duas testemunhas cobrindo os três anos inteiros, havia três pares diferentes de testemunhas — um par testemunhando sobre o primeiro ano, outro sobre o segundo, e um terceiro sobre o terceiro ano — e todos os três pares são descobertos como conspiradores, o pagamento do valor do campo é dividido em partes iguais entre os três pares, já que cada par é responsável apenas pelo terço da posse que atestou.
Três irmãos, e um se junta com eles, eis que estes são três testemunhos, e eles são um testemunho para a conspiração. — Se três irmãos testemunham cada um sobre um ano diferente, e uma quarta pessoa — não parente — se junta a cada um deles sucessivamente como segunda testemunha daquele ano, formam-se três testemunhos tecnicamente válidos e distintos (já que irmãos não podem testemunhar juntos sobre o mesmo fato, mas aqui cada irmão testemunha sobre um ano diferente, junto de uma pessoa não aparentada) — e por isso o testemunho é aceito para estabelecer a chazaká. Mas, para efeito de serem declarados conspiradores caso se prove que mentiram, os três testemunhos são tratados como um único testemunho: só se tornam responsáveis pela conspiração se todos os três forem desmentidos juntos, e nesse caso dividem o pagamento entre si.
Rambam ilustra com nomes concretos como um mesmo indivíduo pode compor três testemunhos distintos com três irmãos diferentes; Bartenura confirma a mecânica da divisão do pagamento.
Rambam explica com um exemplo numérico como se dá a divisão do pagamento entre os pares de testemunhas conspiradoras — já que são três pares (seis pessoas), cada um paga um sexto do valor do campo. E ilustra o caso dos três irmãos com nomes concretos: uma mesma pessoa, Moshé, pode testemunhar junto de Reuven sobre o primeiro ano, depois junto de Shimon sobre o segundo, e por fim junto de Levi sobre o terceiro — de modo que Moshé participa de todos os três testemunhos, mas cada um deles é tecnicamente independente, pois testemunha sobre um ano diferente junto de um irmão diferente.
Bartenura confirma a divisão em três partes iguais e explica por que os três testemunhos dos irmãos são válidos apesar de irmãos serem, em regra, desqualificados para testemunhar juntos sobre o mesmo fato: como cada irmão testemunha sobre um ano diferente da posse — e não sobre o mesmo evento —, tecnicamente não há dois parentes testemunhando juntos sobre a mesma coisa, e por isso o testemunho é válido. Mas, para efeito de conspiração, os três continuam sendo tratados como um único conjunto: só se tornam conspiradores puníveis se os três testemunhos forem desmentidos em conjunto.
O perush de Rashbam sobre a Guemará em Bava Batra 56a–56b, que explica o mecanismo da hazamá e a base bíblica da pena aplicada às testemunhas conspiradoras.
Rashbam explica o mecanismo processual da hazamá: as testemunhas conspiradoras são desmentidas não por contradizerem o fato em si, mas por outras duas testemunhas que afirmam que os próprios conspiradores estavam, no momento em que juraram ter visto a posse, em outro lugar completamente diferente, junto delas — provando que fisicamente não poderiam ter testemunhado o que disseram. Nesse caso, aplica-se a pena da Torá de "como ele planejou" (Devarim 19:19): as testemunhas pagam exatamente o que tentaram fazer o dono perder, e não o resultado que de fato ocorreria (já que a chazaká contestada nunca chegou a se consumar). Rashbam confirma ainda o princípio geral de que testemunhas conspiradoras só são punidas quando todo o seu testemunho conjunto é desmentido — daí a regra de que os três pares, ou os três irmãos, só respondem pela hazamá se todos forem desmentidos juntos.