Três regiões há para a chazaká: Judeia, e Transjordânia, e Galileia. — A mishná introduz uma segunda condição para a chazaká, além do prazo de três anos: a proximidade geográfica entre o dono original e quem passa a possuir o bem. Eretz Israel divide-se, para este efeito, em três regiões distintas — a Judeia ao sul, a Transjordânia a leste do rio Jordão, e a Galileia ao norte.
Se ele estava na Judeia e outro tomou posse na Galileia, ou na Galileia e outro tomou posse na Judeia, não é chazaká, a menos que ele esteja com ele na mesma província. — Se o dono original vivia numa dessas três regiões e o possuidor tomou posse do seu campo numa região diferente, a posse de três anos não basta para gerar chazaká — mesmo que o dono nunca tenha protestado —, porque a distância entre as regiões era tão grande que não havia caravanas regulares entre elas para levar a notícia ao dono de que outra pessoa estava usufruindo do seu campo. Sem essa notícia, seu silêncio não pode ser interpretado como consentimento. Só quando ambos — dono e possuidor — vivem na mesma região é que a chazaká de três anos se aplica normalmente.
Disse Rabi Yehudá: não disseram três anos senão para que, caso ele esteja na Espanha, e o outro tome posse por um ano, irão e o informarão em um ano, e ele virá no ano seguinte. — Rabi Yehudá discorda da divisão em três regiões e propõe uma explicação diferente para o próprio número três: os Sábios fixaram esse prazo pensando no caso mais extremo possível — um dono que viajou para um lugar tão distante quanto a Aspamya (a Hispânia, na Península Ibérica, o limite do mundo conhecido) —, calculando que, mesmo dali, levaria um ano até que alguém percebesse a posse ilegítima e fosse até lá contar-lhe, mais um ano até que a notícia chegasse até ele, e um terceiro ano até que ele conseguisse viajar de volta a Eretz Israel para reclamar seus direitos. Segundo essa lógica, se o dono estava mais perto — mesmo que em outra região dentro do próprio Eretz Israel —, a chazaká se estabeleceria de imediato, sem necessidade de esperar três anos. A halachá não segue Rabi Yehudá em nenhum ponto desta mishná, mantendo-se a divisão em três regiões do Tana Kama.
Rambam esclarece que a regra pressupõe uma época de instabilidade nas estradas; Bartenura confirma a rejeição da posição de Rabi Yehudá.
Rambam esclarece que a condição de "estar com ele na mesma província" pressupõe uma época de instabilidade (shaat cherum) — quando as estradas entre as regiões estavam interrompidas por causa de guerras ou perigos, tal como era comum na época em que a Mishná foi redigida. Explica ainda que, para Rabi Yehudá, mesmo em época de instabilidade a chazaká se estabelece em três anos — ele apenas discorda quanto à necessidade de dividir Eretz Israel em regiões —, e que se o dono estivesse na mesma província que o possuidor, a chazaká se estabeleceria de imediato, sem esperar prazo algum. Mas a halachá não segue Rabi Yehudá em nenhum desses pontos.
Bartenura explica que as três regiões são tratadas como territórios separados para efeito de chazaká precisamente porque não havia caravanas regulares de viajantes entre elas, de modo que uma notícia de posse ilegítima numa região dificilmente chegaria aos ouvidos do dono na outra. Já dentro da mesma região — mesmo entre cidades diferentes —, as caravanas eram frequentes o suficiente para que o dono devesse saber da posse e protestar; se não protestou, foi ele quem perdeu seus direitos por negligência. E confirma que a halachá segue apenas o Tana Kama, rejeitando a posição de Rabi Yehudá.
A partir desta mishná, o perush da Guemará é o de Rashbam, neto de Rashi, que continua o comentário sobre Bava Batra a partir de onde Rashi o interrompeu, no daf 29a.
Como o comentário de Rashi sobre Bava Batra termina no daf 29a, no fim do perek anterior, a explicação clássica a partir daqui é a de seu neto, Rashbam, que retoma exatamente onde Rashi parou. Aqui, Rashbam esclarece que "três regiões" refere-se a divisões dentro da própria Eretz Israel, e explica o raciocínio da Guemará: por padrão, o texto da mishná pressupõe uma "época de instabilidade" entre Judeia e Galileia, quando as caravanas de viajantes entre essas regiões eram raras — e por isso o protesto do dono, mesmo feito publicamente na presença de duas testemunhas, não chegaria a tempo aos ouvidos do possuidor distante. Já dentro da mesma região, mesmo entre cidades diferentes, as caravanas eram frequentes o suficiente para que a notícia se espalhasse; se o dono não protestou, foi porque negligenciou seus próprios direitos.
A Guemará investiga a lógica interna da posição anônima da mishná (o Tana Kama): se um protesto feito na ausência do possuidor já vale como protesto válido — porque, como diz o ditado aramaico, "seu amigo tem um amigo, e o amigo do seu amigo tem um amigo", de modo que a notícia sempre acaba circulando —, por que então a chazaká não se estabeleceria mesmo entre Judeia e Galileia? A resposta de Rabi Aba bar Memel em nome de Rav é que a mishná pressupõe especificamente uma "época de instabilidade", quando guerras ou perigos nas estradas interrompiam o fluxo normal de caravanas entre as regiões distantes, impedindo que o protesto do dono chegasse a tempo ao possuidor.