Rabi Elazar ben Azaria ensina as dependências mútuas entre Torá e conduta, sabedoria e temor, entendimento e conhecimento, e o famoso 'sem farinha não há Torá'.
Rabi Elazar ben Azaria dizia: se não há Torá, não há boa conduta; se não há boa conduta, não há Torá. Se não há sabedoria, não há temor; se não há temor, não há sabedoria. Se não há entendimento, não há conhecimento; se não há conhecimento, não há entendimento. Se não há farinha, não há Torá; se não há Torá, não há farinha.
Ele dizia: todo aquele cuja sabedoria é maior que suas obras, a que é semelhante? A uma árvore cujos ramos são numerosos e cujas raízes são poucas; e o vento vem e a arranca e a vira de face para baixo, como está dito: “e será como um arbusto solitário no deserto, que não sente quando vem o bem; habita nos lugares abrasados do deserto, terra salgada e inabitável” (Jeremias 17:6). Mas todo aquele cujas obras são maiores que sua sabedoria, a que é semelhante? A uma árvore cujos ramos são poucos e cujas raízes são numerosas; de modo que, ainda que todos os ventos do mundo venham e soprem contra ela, não a movem de seu lugar, como está dito: “e será como uma árvore plantada junto às águas, que estende suas raízes junto à corrente; não sentirá quando vier o calor, e sua folhagem se manterá viçosa; no ano da seca não se afligirá, nem deixará de dar fruto” (ibid. 17:8).
רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר, אִם אֵין תּוֹרָה, אֵין דֶּרֶךְ אֶרֶץ. אִם אֵין דֶּרֶךְ אֶרֶץ, אֵין תּוֹרָה. אִם אֵין חָכְמָה, אֵין יִרְאָה. אִם אֵין יִרְאָה, אֵין חָכְמָה. אִם אֵין בִּינָה, אֵין דַּעַת. אִם אֵין דַּעַת, אֵין בִּינָה. אִם אֵין קֶמַח, אֵין תּוֹרָה. אִם אֵין תּוֹרָה, אֵין קֶמַח. הוּא הָיָה אוֹמֵר, כָּל שֶׁחָכְמָתוֹ מְרֻבָּה מִמַּעֲשָׂיו, לְמַה הוּא דוֹמֶה, לְאִילָן שֶׁעֲנָפָיו מְרֻבִּין וְשָׁרָשָׁיו מֻעָטִין, וְהָרוּחַ בָּאָה וְעוֹקַרְתּוֹ וְהוֹפַכְתּוֹ עַל פָּנָיו, שֶׁנֶּאֱמַר (ירמיה יז) וְהָיָה כְּעַרְעָר בָּעֲרָבָה וְלֹא יִרְאֶה כִּי יָבוֹא טוֹב וְשָׁכַן חֲרֵרִים בַּמִּדְבָּר אֶרֶץ מְלֵחָה וְלֹא תֵשֵׁב. אֲבָל כָּל שֶׁמַּעֲשָׂיו מְרֻבִּין מֵחָכְמָתוֹ, לְמַה הוּא דוֹמֶה, לְאִילָן שֶׁעֲנָפָיו מֻעָטִין וְשָׁרָשָׁיו מְרֻבִּין, שֶׁאֲפִלּוּ כָל הָרוּחוֹת שֶׁבָּעוֹלָם בָּאוֹת וְנוֹשְׁבוֹת בּוֹ אֵין מְזִיזִין אוֹתוֹ מִמְּקוֹמוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר (שם) וְהָיָה כְּעֵץ שָׁתוּל עַל מַיִם וְעַל יוּבַל יְשַׁלַּח שָׁרָשָׁיו וְלֹא יִרְאֶה כִּי יָבֹא חֹם, וְהָיָה עָלֵהוּ רַעֲנָן, וּבִשְׁנַת בַּצֹּרֶת לֹא יִדְאָג, וְלֹא יָמִישׁ מֵעֲשׂוֹת פֶּרִי:
Jeremias 17:6
וְהָיָה כְּעַרְעָר בָּעֲרָבָה וְלֹא יִרְאֶה כִּי יָבוֹא טוֹב וְשָׁכַן חֲרֵרִים בַּמִּדְבָּר אֶרֶץ מְלֵחָה וְלֹא תֵשֵׁב
“E será como um arbusto solitário no deserto... terra salgada e inabitável.” Imagem da árvore de raízes fracas: a sabedoria sem obras que a sustentem.
Jeremias 17:8
וְהָיָה כְּעֵץ שָׁתוּל עַל מַיִם וְעַל יוּבַל יְשַׁלַּח שָׁרָשָׁיו... וְלֹא יָמִישׁ מֵעֲשׂוֹת פֶּרִי
“E será como uma árvore plantada junto às águas... nem deixará de dar fruto.” Imagem da árvore de raízes profundas: as obras que sustentam e firmam a sabedoria.
Rambam · Perush HaMishná, Avot 3:17
רוצה לומר בזה שכל שנים מאלו כל אחד משניהם מועיל במציאות האחר ומשלים זולתו... כל שמעשיו. כבר פירשנו וביארנו אלה הדברים בזה הפרק מדברי רבי חנינא בן דוסא:
Rambam explica que, em cada um desses pares, cada elemento contribui para a existência do outro e o completa. Sobre dá'at (conhecimento) e biná (entendimento), traz uma análise filosófica sutil: o conhecimento adquirido depende de apreendermos as próprias formas inteligíveis, e essa apreensão é chamada entendimento — de modo que um não subsiste sem o outro. E remete o ensinamento final sobre sabedoria e obras ao que já explicara a respeito das palavras de Rabi Chanina ben Dossa (Avot 3:9).
Bartenura · Avot 3:17
אִם אֵין תּוֹרָה וְכוּ'. אֵין מַשָּׂאוֹ וּמַתָּנוֹ יָפֶה עִם הַבְּרִיּוֹת: אִם אֵין דֶּרֶךְ אֶרֶץ וְכוּ'. סוֹף שֶׁתּוֹרָתוֹ מִשְׁתַּכַּחַת מִמֶּנּוּ: אִם אֵין דַּעַת וְכוּ'. דַּעַת, הוּא שֶׁמּוֹצֵא טַעַם לַדָּבָר. וּבִינָה, הוּא שֶׁמֵּבִין דָּבָר מִתּוֹךְ דָּבָר...
Bartenura explica que, sem Torá, o comércio e o convívio do homem com as criaturas não são conduzidos com retidão; e sem boa conduta, a própria Torá acaba sendo esquecida. Distingue dá'at (conhecimento) — a capacidade de encontrar a razão de uma coisa — de biná (entendimento) — a capacidade de deduzir uma coisa de outra sem, porém, mostrar sua razão; e conclui que, sem farinha, o homem não tem como se dedicar ao estudo, e a farinha sem Torá não vale a pena possuir.
Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre Avot, Perek Guimel, Mishná 17
אם אין תורה אין דרך ארץ. כמ"ש לעיל יפה תלמוד תורה עם ד"א: דעת גדול מבינה לפי שאם שואלין לו לאדם דבר והוא אומר כן הוא ומראה ונותן טעם לדבריו הוא דעת... בינה שיודע להבין אבל אינו מראה טעם: אם אין קמח אין תורה. שאם אין לו מה יאכל היאך יעסוק בתורה:
Rashi remete ao princípio já ensinado (Avot 2:2) de que “é belo o estudo da Torá aliado ao trabalho”, e explica que dá'at é superior a biná, pois quem tem dá'at não só percebe a coisa, mas também sabe demonstrar e justificar sua percepção — como o cambista que reconhece e explica a diferença entre uma moeda boa e uma falsa — ao passo que biná apenas compreende, sem necessariamente saber justificar.
Rambam רַמְבַּ״ם
Perush HaMishná, Avot 3:17
וזה ענין אמרו לפי רוב המעשה אבל לא לפי גודל המעשה:
Ver acima, em Halachot: Rambam conclui remetendo à sua própria explicação de Avot 3:9 sobre a relação entre sabedoria e obras, e à imagem das raízes e ramos como parábola da solidez que só a prática constante confere.
Bartenura רע"ב
Avot 3:17
אִם אֵין קֶמַח אֵין תּוֹרָה. מִי שֶׁאֵין לוֹ מַה יֹּאכַל הֵיאַךְ יַעֲסֹק בַּתּוֹרָה: אִם אֵין תּוֹרָה אֵין קֶמַח. מַה יּוֹעִיל לוֹ הַקֶּמַח שֶׁבְּיָדוֹ, הוֹאִיל וְאֵין בּוֹ תּוֹרָה, נוֹחַ לוֹ שֶׁלֹּא הָיָה לוֹ קֶמַח וְהָיָה מֵת בָּרָעָב:
Ver acima, em Halachot: Bartenura conclui de modo incisivo que, para quem não tem Torá, seria melhor não ter farinha e morrer de fome do que viver sem propósito espiritual — ressaltando que sustento material e Torá se sustentam mutuamente.