Rambam observa que esta máxima encerra ideias das mais profundas, dignas de ser atribuídas a Rabi Akiva. Explica: “tudo está previsto” significa que todo o conhecimento de Deus abrange tudo o que existe; mas isso não implica que o homem seja compelido em seus atos — “a liberdade é dada” ensina que a escolha permanece plenamente nas mãos do homem. E quanto a “tudo é conforme a abundância da obra”, esclarece que o mérito se adquire pela repetição constante de boas ações ao longo do tempo, e não por um único ato grandioso isolado — como quem doa mil moedas de uma só vez ganha menos virtude do que quem doa uma moeda mil vezes.
Bartenura explica que “tudo está previsto” significa que tudo o que o homem faz, mesmo em segredo, é conhecido diante de Deus; que “a liberdade é dada” significa que o poder de fazer o bem ou o mal está nas mãos do próprio homem, como está escrito: “eis que pus diante de ti hoje a vida...” (Deuteronômio 30:15); e que “o mundo é julgado com bondade” refere-se ao atributo da misericórdia, ainda que a medida da recompensa varie conforme a abundância das boas ações de cada um.
Rashi confirma a leitura de que tudo o que o homem faz, mesmo em segredo, é visto e conhecido por Deus; que a liberdade de escolha entre o bem e o mal está nas mãos do próprio homem, conforme Deuteronômio 30; e que o mundo é julgado com o atributo da misericórdia.
Ver acima, em Halachot: Rambam ilustra “tudo é conforme a abundância da obra” com o exemplo da caridade — quem dá mil moedas de uma só vez adquire menos a virtude da generosidade do que quem dá a mesma soma repetidamente, em mil ocasiões, pois é a repetição que firma o traço de caráter.
Bartenura registra que, segundo a versão de texto de Rambam, a expressão final se lê “conforme a abundância da obra, mas não conforme a grandiosidade da obra” — reforçando que o que conta para o mérito é a repetição constante das boas ações, e não o tamanho de um único ato.