Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Hei · Mishná 4 de 12

O vinho deixado na carroça, no navio ou na loja do gentio

הַמַּנִּיחַ יֵינוֹ בְקָרוֹן אוֹ בִסְפִינָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quarta mishná do Perek Hei: aplica o princípio de vigilância da mishná anterior a três cenários distintos — carroça ou navio, e loja — repetindo a mesma dupla opinião (tanna kama e Rabban Shimon ben Gamliel) para cada um deles.
Quem deixa seu vinho na carroça ou no navio e vai por um atalho, entra na cidade e se banha — é permitido. Se lhe avisou que se afastaria, o tempo é o suficiente para que ele abra um furo, o tape e ele seque. Rabban Shimon ben Gamliel diz: o suficiente para que abra, vede novamente e seque. Quem deixa um gentio na loja, ainda que ele saia e entre, é permitido. E se lhe avisou que se afastaria, o tempo é o suficiente para que abra um furo, o tape e ele seque. Rabban Shimon ben Gamliel diz: o suficiente para que abra, vede novamente e seque.
הַמַּנִּיחַ יֵינוֹ בְקָרוֹן אוֹ בִסְפִינָה וְהָלַךְ לוֹ בְקַפַּנְדַּרְיָא, נִכְנַס לַמְּדִינָה וְרָחַץ, מֻתָּר. אִם הוֹדִיעוֹ שֶׁהוּא מַפְלִיג, כְּדֵי שֶׁיִּשְׁתֹּם וְיִסְתֹּם וְיִגֹּב. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, כְּדֵי שֶׁיִּפְתַּח וְיָגוּף וְתִגֹּב. הַמַּנִּיחַ נָכְרִי בַחֲנוּת, אַף עַל פִּי שֶׁהוּא יוֹצֵא וְנִכְנָס, מֻתָּר. וְאִם הוֹדִיעוֹ שֶׁהוּא מַפְלִיג, כְּדֵי שֶׁיִּשְׁתֹּם וְיִסְתֹּם וְיִגֹּב. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, כְּדֵי שֶׁיִּפְתַּח וְיָגוּף וְתִגֹּב:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 5:4
הַמַּנִּיחַ יֵינוֹ בְקָרוֹן וְכוּ׳: קַפַּנְדַּרְיָא הוּא שֶׁיִּכָּנֵס מִשַּׁעַר זֶה וְיֵצֵא מִן הַשַּׁעַר שֶׁכְּנֶגְדּוֹ... וְהִשְׁמִיעָנוּ מַחְלוֹקְתָּם בְּג׳ הֲלָכוֹת בְּשִׁעוּר זְמַן הַהַפְלָגָה, לְפִי שֶׁאֶפְשָׁר בְּכָל אַחַת מֵהֶן קֻלָּא וְחֻמְרָא... וְלָכֵן הוֹדִיעֲךָ שֶׁשִּׁעוּר הַזְּמַן אֶחָד לְדַעַת חֲכָמִים בַּכֹּל, וּלְדַעַת רַשְׁבַּ״ג גַּם כֵּן, וְהַהֲלָכָה כְּרַשְׁבַּ״ג בַּכֹּל.

Rambam explica que kapendarya é um atalho — entrar por um portão e sair pelo portão oposto, para cuidar de assuntos rapidamente. Observa que a mishná repete a mesma controvérsia três vezes (carroça/navio, e a loja) porque, em cada cenário, poderia se imaginar uma razão para ser mais rigoroso ou mais leniente — por exemplo, no navio, uma vez afastado, poder-se-ia pensar que o gentio libaria o vinho sem medo, enquanto na loja, mesmo que se afaste, teme que os donos regressem a qualquer momento. Rambam conclui que, apesar dessas diferenças possíveis, o critério de tempo é o mesmo em todos os casos, tanto para os sábios quanto para Rabban Shimon ben Gamliel — e a halachá segue este último em todos eles.

Bartenura · Avodá Zará 5:4
הַמַּנִּיחַ יֵינוֹ בְקָרוֹן אוֹ בִסְפִינָה. עִם הַנָּכְרִי: בְּקַפַּנְדַּרְיָא. בְּדֶרֶךְ קְצָרָה, שֶׁנִּכְנָס בְּשַׁעַר זֶה וְיוֹצֵא מִשַּׁעַר שֶׁכְּנֶגְדּוֹ: וְרָחַץ. בַּמֶּרְחָץ: מֻתָּר. דְּכֵיוָן דְּנָכְרִי לֹא יָדַע דְּשָׁהֵי, מִרְתַּת וְלֹא נָגַע... וּבְכֻלְּהוּ הֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל.

Bartenura explica que "deixa seu vinho na carroça ou no navio" refere-se a deixá-lo com o gentio; "kapendarya" é um caminho curto, entrando por um portão e saindo pelo oposto; "e se banha" no banho público. É permitido porque, como o gentio não sabe que o israelita se demorou, ele teme e não toca no vinho. A mishná repete a mesma controvérsia entre os sábios e Rabban Shimon ben Gamliel em três casos distintos, precisamente porque cada um poderia sugerir um raciocínio diferente caso apenas um deles fosse ensinado — e em todos eles a halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 69a–69b (Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִי׳ הַמַּנִּיחַ יֵינוֹ בְּקָרוֹן אוֹ בִּסְפִינָה - עִם הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים: וְהָלַךְ - יִשְׂרָאֵל בְּקַפַּנְדַּרְיָא דֶּרֶךְ קְצָרָה: וְנִכְנַס לַמְּדִינָה וְרָחַץ - בַּמֶּרְחָץ מֻתָּר, כֵּיוָן דְּעוֹבֵד כּוֹכָבִים לֹא יָדַע דְּשָׁהֵי, מִרְתַּת וְלֹא נָגַע... הַמַּנִּיחַ נׇכְרִי בַּחֲנוּתוֹ כוּ׳. הַמַּנִּיחַ יֵינוֹ בְּקָרוֹן אוֹ בִּסְפִינָה כוּ׳. וּצְרִיכָא, דְּאִי תְּנָא נׇכְרִי... אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: מַחְלוֹקֶת בְּשֶׁל סִיד, אֲבָל בְּשֶׁל טִיט — דִּבְרֵי הַכֹּל כְּדֵי שֶׁיִּפְתַּח וְיִגּוֹף וְיִגּוֹב:

Rashi explica os três termos técnicos: "carroça ou navio" refere-se ao vinho deixado junto com o gentio; "foi por atalho" é um caminho mais curto; "entrou na cidade e se banhou" — no banho público — é permitido porque o gentio, não sabendo do tempo decorrido, teme tocar no vinho. Rashi justifica ainda por que a mishná precisou repetir a mesma controvérsia três vezes: se ensinasse apenas o caso do gentio simples, poder-se-ia pensar que ele agiria livremente por estar afastado, e se ensinasse apenas o caso da carroça e do navio, poder-se-ia pensar que na loja, sendo o local fixo, o gentio temeria mais o retorno repentino do dono. Sobre o tempo de suspeita, Rav Yochanan esclarece em nome de Rabah bar bar Chana que a controvérsia entre os sábios e Rabban Shimon ben Gamliel só existe quando a tampa é de cal — pois sendo branca, não se distingue facilmente um furo novo; mas quando é de barro, todos concordam que basta o tempo de abrir, refazer a tampa e ela secar, pois ali qualquer adulteração seria perceptível.