"Somente o ouro e a prata... todo objeto que suporta o fogo, fareis passar pelo fogo, e ficará puro; mas também deverá ser purificado com a água da purificação."
Rambam explica que "utensílios de uso" refere-se especificamente aos utilizados para comer, feitos de metal, vidro, ou barro revestido de chumbo — todos exigem imersão, mesmo quando novos. "Escaldar" (hagalá) refere-se à purificação da absorção de sabor proibido de utensílios de gentios: fervê-los em água fervente com grande intensidade, cercando panelas grandes com barro ou massa para que a água transborde sobre toda a borda. Utensílios que costumam ser incandescidos ao fogo, como espetos e grelhas usados para assar diretamente, exigem esse tratamento mais intenso. A faca é afiada — bastando cravá-la dez vezes em terreno duro se não tiver reentrâncias, e usada em seguida para alimentos frios; para alimentos quentes, é necessário amolá-la em pedra de amolar. Rambam distingue, porém, que essas medidas resolvem apenas a questão do sabor absorvido (issur veheter); para a questão da impureza ritual, é sempre necessária a imersão em água de mikvê.
Bartenura precisa que os utensílios em questão são os de refeição, especificamente de metal ou de barro revestido de chumbo (o vidro sendo equiparado ao metal para este fim). "Aquele cujo costume é imergir" refere-se a utensílios cujo uso é apenas com líquidos frios, bastando a imersão para purificá-lo sem outro reparo. "Escaldar" aplica-se a panelas e caldeirões de metal usados com água fervente — mergulha-se em água muito quente após raspar a ferrugem, e depois imerge-se em mikvê válido para imersão de mulher. Sobre "afiar" a faca, explica que basta cravá-la dez vezes em terreno duro, se não houver reentrâncias, para usá-la com alimentos frios; ou afiá-la em pedra de amolar, para poder usá-la mesmo com alimentos quentes. Se houver reentrâncias, porém, é necessário torná-la incandescente ao fogo.
Rashi confirma que "aquele cujo costume é imergir" refere-se a utensílios que não precisam de nenhum outro reparo além da imersão, por seu uso ser apenas com frio. Sobre "escaldar", explica que se aplica a panelas e caldeirões de metal usados com líquidos fervendo, e que a Guemará esclarece que, mesmo após a fervura, ainda é necessária a imersão em mikvê. Fecha a explicação do espeto e da grelha, usados para assar diretamente ao fogo, exigindo incandescência plena — até que faíscas saltem deles. A Guemará, na página seguinte, funda no versículo de Números sobre os utensílios de guerra capturados dos midianitas a base bíblica de todo este processo: assim como o sabor proibido é absorvido pelo calor, também deve ser expelido pelo calor — "assim como absorve, assim expele" — regra central de toda a purificação de utensílios de não-judeus, e nota que a mesma regra vale para uma panela usada no mesmo dia por um gentio, cujo sabor absorvido ainda está pleno, ao contrário de uma panela usada no dia anterior, cujo sabor já se deteriorou com o passar da noite. Com esta explicação final, encerra-se o comentário de Rashi sobre toda a Massechet Avodá Zará.
Com esta décima segunda mishná do Perek Hei, encerra-se o Perek "הַשּׂוֹכֵר" (HaSocher, "Quem Contrata") — e com ele, toda a Massechet Avodá Zará. A fórmula tradicional de encerramento, "hadran alach" ("voltaremos a ti"), expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado mesmo depois de concluído, seguida da declaração "vessalika lah massechet Avodá Zará", "e assim se encerra o tratado Avodá Zará".
Ao longo de seus cinco perakim e cinquenta mishnayot, Avodá Zará percorreu todo o universo das relações comerciais e sociais entre judeus e gentios à luz da proibição da idolatria: os limites do comércio nos dias de festa pagã e a lista de itens vedados à venda por poderem servir ao culto idólatra (Perek Alef); as leis de hospedagem, cura e uso de objetos de gentios, e a anulação de um ídolo por seu próprio adorador (Perek Bet); a anulação das imagens e templos idólatras, e as leis sobre montanhas, fontes e árvores consagradas a cultos pagãos (Perek Guimel); os casos de vinho tocado por um gentio e as diversas formas de anulação da idolatria, incluindo o precedente de Beit Shean (Perek Dalet); e, neste último capítulo, as leis mais minuciosas do vinho de libação (yayin nesech) — o salário do trabalhador contratado, o sabor transmitido em misturas de alimentos, o tempo de vigilância presumida sobre um barril deixado com um gentio, a regra da anulação em qualquer proporção para o vinho e para os onze itens equiparados a ele, e as leis de purificação de utensílios adquiridos de não-judeus, com que se fecha o tratado.
Com a conclusão de Massechet Avodá Zará, completa-se o oitavo tratado da Seder Nezikin — depois de Bava Kamma, Bava Metzia, Bava Batra, Sanhedrin, Makot, Shevuot e Eduyot —, a quarta das seis Ordens da Mishná. O estudo da Mishná prossegue agora para o próximo tratado da Ordem Nezikin, Massechet Avot.