Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Dalet · Mishná 8 de 12

Comprar do gentio um lagar já pisado

גַּת בְּעוּטָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Retoma o tema do vinho de gentios: trata da compra de um lagar já pisado por um gentio, estabelecendo o momento preciso em que o mosto passa a ter o status de vinho proibido para consumo e benefício.

Compra-se do gentio um lagar já pisado, ainda que ele tome com a mão e ponha no monte. E não se torna vinho de libação até que desça ao poço. Desceu ao poço, o que está no poço é proibido, e o resto é permitido.

לוֹקְחִין גַּת בְּעוּטָה מִן הַגּוֹי אַף עַל פִּי שֶׁהוּא נוֹטֵל בְּיָדוֹ וְנוֹתֵן לַתַּפּוּחַ. וְאֵינוֹ נַעֲשֶׂה יֵין נֶסֶךְ, עַד שֶׁיֵּרֵד לַבּוֹר. יָרַד לַבּוֹר, מַה שֶּׁבַּבּוֹר אָסוּר, וְהַשְּׁאָר מֻתָּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 4:8
לוֹקְחִין גַּת בְּעוּטָה וְכוּ׳: כְּשֶׁיִּהְיֶה מַרְזֵב הַגַּת סָתוּם עַד שֶׁלֹּא יִהְיֶה נִגָּר מִמֶּנּוּ כְּלוּם, אֶלָּא שֶׁנִּדְרָכִים הָעֲנָבִים קְצָתָם עִם קְצָתָם, אֵינוֹ מִתְנַסֵּךְ לְדַעַת מִשְׁנָה רִאשׁוֹנָה. וְתַפּוּחַ שֵׁם פְּסֹלֶת הָעֲנָבִים שֶׁעוֹשִׂין צִבּוּר בְּאֶמְצַע הַגַּת. וְאָמְרָם מִכָּאן הַשְּׁאָר מֻתָּר הוּא מִשְׁנָה רִאשׁוֹנָה שֶׁהִיא מַתֶּרֶת שֶׁיִּדְרֹךְ הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים, וְאֵינָהּ הֲלָכָה.

Rambam esclarece que, quando o cano de escoamento do lagar está tapado, de modo que nada escorre dele e as uvas apenas se pisam umas contra as outras, o mosto ainda não se torna vinho de libação, segundo a "primeira mishná" — uma formulação anterior à versão final da lei. "Tapúach" designa o monte de resíduos de uvas amontoado no centro do lagar. Precisa ainda que a conclusão de que "o resto é permitido" reflete essa mesma primeira formulação, que permitia que o próprio gentio pisasse as uvas — mas essa não é a halachá definitiva.

Bartenura · Avodá Zará 4:8
גַּת בְּעוּטָה. שֶׁבְּעָטָהּ וּדְרָכָהּ נָכְרִי: אַף עַל פִּי שֶׁהוּא נוֹטֵל בְּיָדוֹ. עֲנָבִים מִתּוֹךְ הַיַּיִן: וְנוֹתֵן לַתַּפּוּחַ. מְקוֹם אֲסִיפַת הָעֲנָבִים הֶעָשׂוּי כְּמִין גַּל קָרוּי תַּפּוּחַ, וְסָבַר תַּנָּא דִידָן דְּאֵינוֹ נַעֲשֶׂה יֵין נֶסֶךְ עַד שֶׁיֵּרֵד לַבּוֹר. וְזוֹ מִשְׁנָה רִאשׁוֹנָה הִיא, וְאֵין הֲלָכָה, אֶלָּא כֵיוָן שֶׁהִתְחִיל הַיַּיִן לְהִמָּשֵׁךְ, נַעֲשֶׂה יֵין נֶסֶךְ: מַה שֶּׁבַּבּוֹר אָסוּר. אִם יִגַּע בּוֹ נָכְרִי אַחֲרֵי כֵן.

Bartenura explica que "lagar pisado" é aquele que o próprio gentio calcou com os pés. "Ainda que ele tome com a mão" refere-se a uvas retiradas de dentro do próprio suco, e "as ponha no monte" — o local de acúmulo das uvas, em forma de pilha, chamado "tapúach". Precisa que nosso tanaíta entendia que o mosto só se torna vinho de libação quando desce ao poço — mas essa é a "primeira mishná", e não é a halachá definitiva; a halachá é que, assim que o vinho começa a escorrer, já se torna vinho de libação. "O que está no poço é proibido" — caso o gentio volte a tocá-lo depois.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 55a (Guemará sobre esta mishná)
מַתְנִי׳ גַּת בְּעוּטָה — שֶׁבְּעָטָהּ וּדְרָכָהּ עוֹבֵד כּוֹכָבִים: שֶׁהוּא נוֹטֵל — עֲנָבִים מִתּוֹךְ יַיִן בַּעֲדָשִׁים שֶׁל גַּת, שֶׁקּוֹרִין מַיִי״שׁ: וְנוֹתֵן לַתַּפּוּחַ — אֲסִיפַת גַּל הָעֲנָבִים שֶׁתַּחַת הַקּוֹרָה קְרֵי תַּפּוּחַ. וְקָסָבַר תַּנָּא דִידָן לֹא הָוֵי יֵין נֶסֶךְ עַד שֶׁיֵּרֵד לַבּוֹר: מַה שֶּׁבַּבּוֹר אָסוּר — אִם נָגַע בּוֹ עוֹבֵד כּוֹכָבִים אַחֲרֵי כֵן, בּוֹר הָיוּ עוֹשִׂין לִפְנֵי הַגַּת וְהַכְּלִי נָתוּן שָׁם לְקַבֵּל הַיַּיִן:

Rashi explica que "lagar pisado" é aquele que o próprio gentio calcou com os pés; "que ele toma com a mão" refere-se às uvas retiradas de dentro do suco através das peneiras do lagar, chamadas "maiech" em língua estrangeira; e "as põe no monte" refere-se ao amontoado de uvas sob a viga do lagar, chamado "tapúach". Confirma que nosso tanaíta entendia que o mosto só se torna vinho de libação quando desce ao poço; e explica que "o que está no poço é proibido" caso o gentio volte a tocá-lo depois — pois se costumava construir um poço à frente do lagar, com um recipiente ali colocado para recolher o vinho já escorrido.