Perguntaram aos anciãos em Roma: se Ele não deseja a idolatria, por que não a anula? Disseram-lhes: se fosse por algo de que o mundo não precisa, Ele o anularia; mas eis que adoram o sol, a lua, as estrelas e as constelações — destruiria Ele o Seu mundo por causa dos tolos? Disseram-lhes: se assim é, que destrua o que o mundo não precisa e deixe o que o mundo precisa. Disseram-lhes: também nós fortaleceríamos as mãos dos adoradores destes, pois diriam: sabei que estes são deuses, pois eles não foram anulados.
Rambam dedica a este trecho um longo excurso filosófico. Explica que os verdadeiros filósofos não atribuem poder real às imagens e aos talismãs, ainda que a maioria das pessoas — inclusive alguns fiéis simples do próprio povo — seja seduzida a pensar que tais objetos têm eficácia real. Relata que a origem histórica dessas crenças remonta ao povo chamado tzabim (sabeus), do qual Avraham Avinu saiu, rompendo com seus erros e suas concepções corrompidas graças à sabedoria que Deus lhe concedeu no coração; esse povo atribuía poderes às estrelas e desenvolveu doutrinas de astrologia, feitiçaria e adivinhação que a Torá vetou por completo. Rambam explica ainda que a chamada "sentença dos astros" se apoiava em premissas já refutadas pela própria ciência da natureza, e que sobre essa primeira crença falsa se ergueu uma segunda — os talismãs — e sobre ambas, uma terceira: a idolatria propriamente dita, sustentada, em seus primórdios, por anciãos que exploravam a boa-fé do povo simples em proveito de seu próprio poder.
Bartenura esclarece que "também nós fortaleceríamos as mãos destes" refere-se aos que adoram o sol e a lua: se víssemos que os demais objetos de idolatria se destruíram por si mesmos e apenas estes permaneceram intactos, seríamos levados a admitir que há algo de divino neles — daí o cuidado dos sábios em não deixar margem para tal conclusão.
Rashi confirma a leitura de Bartenura: "também nós fortaleceríamos as mãos destes" refere-se aos adoradores do sol e da lua — se víssemos que os demais objetos de idolatria pereceram por si mesmos e apenas estes permaneceram, seríamos levados a concordar com seus adoradores de que há algo divino neles. Sobre a continuação da Guemará, que traz um relato paralelo envolvendo estudiosos das nações, Rashi observa apenas que "filósofos" designa os sábios dos povos do mundo, com quem os sábios de Israel dialogavam sobre estas mesmas questões.