Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Dalet · Mishná 4 de 12

Quando o ídolo se torna proibido

אֲסוּרָה מִיָּד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Estabelece o princípio fundamental sobre quando um ídolo se torna proibido — de imediato para o gentio, apenas após ser efetivamente cultuado para o israelita — e quem tem o poder de anular esse status, distinguindo o ídolo principal de seus acessórios.

O ídolo de um gentio é proibido imediatamente; mas o de um israelita não é proibido até que seja cultuado. O gentio anula o ídolo que é seu e o de seu companheiro, mas o israelita não anula o ídolo do gentio. Quem anula um ídolo, anulou os seus acessórios; anulou os seus acessórios, os acessórios ficam permitidos, mas ele permanece proibido.

עֲבוֹדָה זָרָה שֶׁל נָכְרִי, אֲסוּרָה מִיָּד. וְשֶׁל יִשְׂרָאֵל, אֵין אֲסוּרָה עַד שֶׁתֵּעָבֵד. נָכְרִי מְבַטֵּל עֲבוֹדָה זָרָה שֶׁלּוֹ וְשֶׁל חֲבֵרוֹ, וְיִשְׂרָאֵל אֵינוֹ מְבַטֵּל עֲבוֹדָה זָרָה שֶׁל נָכְרִי. הַמְבַטֵּל עֲבוֹדָה זָרָה, בִּטֵּל מְשַׁמְּשֶׁיהָ. בִּטֵּל מְשַׁמְּשֶׁיהָ, מְשַׁמְּשֶׁיהָ מֻתָּרִין וְהִיא אֲסוּרָה:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Devarim 7:25
פְּסִילֵי אֱלֹהֵיהֶם תִּשְׂרְפוּן בָּאֵשׁ, לֹא תַחְמֹד כֶּסֶף וְזָהָב עֲלֵיהֶם וְלָקַחְתָּ לָּךְ, פֶּן תִּוָּקֵשׁ בּוֹ, כִּי תוֹעֲבַת יְהוָה אֱלֹהֶיךָ הוּא:
"As imagens esculpidas de seus deuses queimareis a fogo; não cobiçarás a prata e o ouro que estão sobre elas, nem os tomarás para ti, para que não sejas enlaçado por eles, pois são abominação para o Eterno, teu Deus."
É deste versículo que Rambam e Bartenura derivam que o ídolo de um gentio se torna proibido no exato instante em que ele o esculpe — "as imagens de seus deuses" já pressupõe que, desde a fatura, tornou-se para ele um deus.
Devarim 27:15
אָרוּר הָאִישׁ אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה פֶסֶל וּמַסֵּכָה תּוֹעֲבַת יְהוָה מַעֲשֵׂה יְדֵי חָרָשׁ וְשָׂם בַּסָּתֶר, וְעָנוּ כָל הָעָם וְאָמְרוּ אָמֵן:
"Maldito o homem que fizer imagem de escultura ou de fundição, abominação ao Eterno, obra de mãos de artífice, e a colocar em segredo. E todo o povo responderá e dirá: Amém."
É deste versículo — "e a colocou em segredo" — que se deriva que o ídolo pertencente a um israelita só se proíbe quando este pratica sobre ele atos secretos de culto, já que o israelita transgressor só o cultua às escondidas, por temor do tribunal.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 4:4
עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים שֶׁל עוֹבֵד כּוֹכָבִים וְכוּ׳: אָמַר רַחֲמָנָא בַּעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים דְּעוֹבֵד כּוֹכָבִים, פְּסִילֵי אֱלֹהֵיהֶם תִּשְׂרְפוּן בָּאֵשׁ, מִשָּׁעָה שֶׁפְּסָלוֹ נַעֲשָׂה לוֹ אֱלוֹהַּ; וְאָמַר בַּעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים דְּיִשְׂרָאֵל, וְשָׂם בַּסֵּתֶר, עַד שֶׁיַּעֲשֶׂה לָהּ הַדְּבָרִים שֶׁבַּסֵּתֶר, כְּגוֹן שֶׁיְּקַטֵּר לָהּ אָז יִשְׁתַּחֲוֶה, וְזוּלַת זֶה כְּמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֵר בְּסַנְהֶדְרִין.

Rambam funda a distinção diretamente nos dois versículos: quanto ao ídolo do gentio, a Torá diz "as imagens de seus deuses queimareis a fogo" — a partir do momento em que o esculpiu, já se tornou para ele um deus. Já quanto ao ídolo pertencente a um israelita, a Torá diz "e o colocou em segredo" — só se torna proibido quando o israelita pratica sobre ele os atos próprios do culto secreto, como queimar incenso diante dele e depois prostrar-se, conforme já explicado no tratado Sanhedrin.

Bartenura · Avodá Zará 4:4
עֲבוֹדָה זָרָה שֶׁל נָכְרִי אֲסוּרָה מִיָּד. דִּכְתִיב פְּסִילֵי אֱלֹהֵיהֶם, מִשֶּׁפִּסְלוֹ נַעֲשָׂה לוֹ לֶאֱלוֹהַּ: וְשֶׁל יִשְׂרָאֵל עַד שֶׁתֵּעָבֵד. דִּכְתִיב וְשָׂם בַּסָּתֶר, עַד שֶׁיַּעֲשֶׂה לָהּ דְּבָרִים שֶׁל סֵתֶר, שֶׁהַיִּשְׂרָאֵל אֵינוֹ עוֹבֵד עֲבוֹדָה זָרָה אֶלָּא בַסֵּתֶר מִפְּנֵי שֶׁמִּתְיָרֵא מִבֵּית דִּין: נָכְרִי מְבַטֵּל עֲבוֹדָה זָרָה שֶׁלּוֹ. דִּכְתִיב פְּסִילֵי אֱלֹהֵיהֶם תִּשְׂרְפוּן בָּאֵשׁ, כְּשֶׁהֵן נוֹהֲגִין בָּהֶן מִנְהַג אֱלָהוּת, אֲבָל אִם בִּטְּלוּהָ הֲרֵי אֵלּוּ מֻתָּרִים: וְיִשְׂרָאֵל אֵינוֹ מְבַטֵּל עֲבוֹדָה זָרָה שֶׁל נָכְרִי. וַאֲפִלּוּ נָתַן לוֹ הַנָּכְרִי רְשׁוּת.

Bartenura detalha as fontes bíblicas de cada cláusula. O ídolo do gentio é proibido de imediato porque está escrito "as imagens de seus deuses" — desde que o esculpiu, já se tornou para ele um deus. Já o ídolo do israelita só se proíbe quando cultuado, pois está escrito "e o colocou em segredo": só quando pratica sobre ele atos secretos, isto é, quando efetivamente o cultua — já que o israelita transgressor só serve a um ídolo às escondidas, por temer o tribunal. O gentio pode anular o próprio ídolo porque o mesmo versículo só o define como deus "enquanto o tratam com status divino"; uma vez anulado por seu próprio adorador, torna-se permitido. Quanto ao israelita, este nunca pode anular o ídolo de um gentio, mesmo que o próprio gentio lhe conceda permissão para tal.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 51b–52b (Guemará sobre esta mishná)
מִכָּאן אָמְרוּ עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים שֶׁל עוֹבֵד כּוֹכָבִים — וּלְקַמָּן פָּרֵיךְ הָא בְּכֵלִים אוֹקֵימְתָּהּ, עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים מְנָלַן דְּעַד שֶׁתֵּעָבֵד: מַתְנִי׳ יִשְׂרָאֵל אֵינוֹ מְבַטֵּל עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים שֶׁל עוֹבֵד כּוֹכָבִים — דְּעוֹבֵד כּוֹכָבִים פּוֹסֵל אֱלוֹהוֹ יָלְפִינַן, וְלֹא יִשְׂרָאֵל, וְכׇל שֶׁכֵּן דְּיִשְׂרָאֵל אֵינוֹ מְבַטֵּל עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים דְּיִשְׂרָאֵל, דְּאֵין לָהּ בִּטּוּל עוֹלָמִית, דְּהָא וְשָׂם בַּסֵּתֶר כְּתִיב:

Rashi observa que é precisamente daqui — do versículo sobre o gentio — que os sábios derivam a regra de que somente o ídolo de gentio é proibido de imediato, notando que a Guemará adiante questionará por que, no caso dos utensílios usados no culto, exige-se que sejam efetivamente empregados na idolatria antes de se proibirem. Sobre a segunda metade da mishná, esclarece: "o israelita não anula o ídolo do gentio" porque aprendemos que apenas quem efetivamente adora um ídolo tem o poder de anulá-lo — e não o israelita; e, com mais razão ainda, o israelita jamais pode anular o ídolo de outro israelita, pois este, uma vez cultuado, não tem anulação alguma, já que a respeito dele está escrito "e o colocou em segredo".