Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Alef · Mishná 7 de 9

Animais perigosos e construções de execução

אֵין מוֹכְרִין לָהֶם דּוּבִּים וַאֲרָיוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná proíbe vender aos gentios animais que representem perigo público (ursos, leões) e proíbe colaborar na construção de estruturas romanas usadas para execuções e espetáculos violentos, permitindo apenas construções neutras como estrados comuns e casas de banho — exceto a parte destinada à idolatria.

Não se vende a eles ursos e leões, e qualquer coisa que possa causar dano ao público. Não se constrói com eles basílica, patíbulo, arena, ou tribuna; mas constrói-se com eles pequenos estrados e casas de banho. Chegando à abóbada onde colocam a idolatria, é proibido construir.Esta mishná desloca a preocupação de idolatria propriamente dita para um princípio de responsabilidade social mais amplo: a proibição de fornecer aos gentios meios de causar dano à vida humana. A primeira cláusula proíbe a venda de animais selvagens perigosos — ursos e leões são citados como exemplos representativos de uma categoria mais ampla, "qualquer coisa que possa causar dano ao público" — presumivelmente porque tais animais eram usados, no contexto do mundo romano, em espetáculos violentos ou como instrumentos de execução e intimidação. A segunda cláusula estende esse princípio à construção civil: é proibido a um judeu ajudar a construir estruturas romanas especificamente associadas à administração de execuções e espetáculos violentos — a basílica (usada como tribunal, de onde condenados eram por vezes lançados para a morte), o patíbulo (local de execuções judiciais), a arena (onde ocorriam espetáculos com animais ferozes e combates fatais) e a tribuna (uma plataforma elevada usada, segundo os comentadores, para empurrar pessoas para a morte). A mishná, no entanto, não proíbe toda construção realizada em parceria com gentios: estrados comuns (usados para fins neutros e cotidianos) e casas de banho são explicitamente permitidos, refletindo que a proibição não é genérica contra colaboração econômica ou construtiva, mas específica contra estruturas ligadas à violência letal ou ao culto. A mishná traça essa linha com precisão até no caso das casas de banho: mesmo essa construção permitida encontra um limite quando se chega à parte do edifício — a abóbada ou nicho — onde os gentios costumavam instalar uma imagem de culto idólatra; construir essa seção específica é proibido, ainda que o restante do prédio seja permitido.

אֵין מוֹכְרִין לָהֶם דֻּבִּים וַאֲרָיוֹת, וְכָל דָּבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ נֶזֶק לָרַבִּים. אֵין בּוֹנִין עִמָּהֶם בָּסִילְקִי, גַּרְדּוֹם, אִצְטָדִיָּא, וּבִימָה. אֲבָל בּוֹנִין עִמָּהֶם בִּימוֹסְיָאוֹת וּבֵית מֶרְחֲצָאוֹת. הִגִּיעוּ לְכִפָּה שֶׁמַּעֲמִידִין בָּהּ עֲבוֹדָה זָרָה, אָסוּר לִבְנוֹת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 1:7
אֵין מוֹכְרִין לָהֶם דֻּבִּים וְכוּ׳: כָּל דָּבָר שֶׁיֵּשׁ בּוֹ נֶזֶק לָרַבִּים כְּגוֹן כְּלֵי מִלְחָמָה כֻּלָּן, וּכְלֵי יִסּוּרִים כְּגוֹן שַׁלְשְׁלָאוֹת וְכַבְלֵי בַרְזֶל וְצִינוֹקִין, וּכְמוֹ כֵן אֵין מְתַקְּנִין לָהֶם כְּלֵי מִלְחָמָה וְאֵין מְלַטְּשִׁין לָהֶם הַחֲרָבוֹת וְהָרְמָחִים וְכַיּוֹצֵא בָּהֶם, שֶׁלֹּא לַעֲזֹר הַמַּשְׁחִיתִין בָּאָרֶץ לְהַשְׁחִית. בָּסִילְקִי, וְגַרְדִּינִין, וְאִצְטַדְיָא, וּבִימָה — כֻּלָּן תָּאֳרֵי כִסְאוֹת וְאִצְטַבָּאוֹת שֶׁעוֹשִׂין לִכְבוֹד עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וּבִשְׁבִילָהּ.

Rambam amplia o alcance da mishná: qualquer coisa que possa causar dano ao público inclui todo tipo de arma de guerra e instrumentos de tortura, como correntes, grilhões de ferro e algemas de pescoço — e, do mesmo modo, é proibido consertar armas para eles, afiar espadas e lanças e itens semelhantes, para que um judeu não auxilie destruidores da terra em seus atos de destruição. Já a basílica, o patíbulo, a arena e a tribuna são todos, segundo sua descrição, tipos de estrados e assentos elevados construídos em honra da idolatria e para seu propósito.

Bartenura · Avodá Zará 1:7
כָּל דָּבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ נֵזֶק לָרַבִּים. כְּגוֹן כְּלֵי מִלְחָמָה, חֲרָבוֹת וּרְמָחִים. בָּסִילְקִי. טִירָה גְבוֹהָה, וְשָׁם יוֹשְׁבִים לָדוּן בְּנֵי אָדָם וּמַפִּילִין אוֹתָם מִשָּׁם וּמֵתִים. גַּרְדּוֹם. בִּנְיָן אֶחָד, וְהוּא עָשׂוּי לָדוּן דִּינֵי נְפָשׁוֹת. אִצְטַדְיָא. מְקוֹם שְׂחוֹק שֶׁמְּבִיאִים שָׁם שׁוֹר נַגָּח וְהוֹרֵג אֶת הָאָדָם. בִּימָה. כְּעֵין מִגְדָּל קָצָר וְגָבוֹהַּ, עָשׂוּי כְּדֵי לִדְחֹף הָאָדָם מִשָּׁם וְהוּא מֵת. כִּפָּה. דֶּרֶךְ עוֹבְדֵי עֲבוֹדָה זָרָה לְהַעֲמִיד עֲבוֹדָה זָרָה בְּבֵית מֶרְחֲצָאוֹתֵיהֶם.

Bartenura descreve fisicamente cada estrutura mencionada: a basílica é uma torre elevada onde se sentam para julgar pessoas, empurrando-as dali para a morte; o patíbulo é um edifício construído especificamente para julgamentos capitais; a arena é um local de espetáculos onde se trazia um touro violento que matava pessoas; a tribuna é uma espécie de torre baixa e elevada, construída para empurrar uma pessoa dali até a morte. E a "abóbada" refere-se ao costume dos idólatras de instalar sua imagem de culto justamente nas dependências das casas de banho, o que explica por que essa seção específica do prédio, mesmo dentro de uma construção geralmente permitida, permanece proibida.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 16a–16b
אִי אֶפְשָׁר — בְּלֹא אֵיבָה. וְאַלִּיבָּא דְרַבִּי יְהוּדָה — דְּשָׁרֵי דְּכַוָּתֵיהּ בִּבְהֵמָה גַסָּה, אֲבָל לְרַבָּנָן אָסוּר, וּלְרַבִּי יְהוּדָה נַמִּי אֲרִי שָׁלֵם אָסוּר, וְחַיָּה גַסָּה כִּבְהֵמָה גַסָּה כְּרַב.

A Guemará questiona por que a mishná proíbe totalmente a venda de ursos e leões, quando, em teoria, poder-se-ia aplicar o mesmo raciocínio de Rabi Yehuda sobre animais defeituosos (visto na mishná anterior) também a esses animais selvagens. Rashi explica a resposta da Guemará: "não é possível" evitar completamente a venda a gentios "sem gerar inimizade" — reconhecendo uma tensão prática entre o rigor halachico e a necessidade de manter relações vivíveis com a população não-judaica ao redor. Rashi esclarece ainda que a permissão de vender um animal selvagem defeituoso, por analogia com o gado graúdo defeituoso, aplicaria apenas segundo a opinião de Rabi Yehuda; para os demais Sábios, mesmo animais selvagens defeituosos permanecem proibidos, e um leão fisicamente completo é proibido mesmo para Rabi Yehuda — pois um animal selvagem grande (chayá gasá) é equiparado, para efeitos desta lei, ao gado graúdo.