Em lugar onde costumavam vender gado miúdo a gentios, vende-se; em lugar onde costumavam não vender, não se vende. E em todo lugar não se vende a eles gado graúdo, bezerros e potros, inteiros ou defeituosos. Rabi Yehuda permite vender o defeituoso. E Ben Beteira permite vender o cavalo. — Esta mishná volta a tratar de venda de animais a gentios, mas por um motivo distinto do culto idólatra: aqui, a preocupação central é o Shabat. A mishná distingue entre "gado miúdo" (ovelhas, cabras) e "gado graúdo" (bois, vacas, cavalos, usados para tração e trabalho pesado). Para o gado miúdo, a regra segue simplesmente o costume estabelecido em cada localidade — onde já era costume vendê-lo aos gentios, continua-se vendendo; onde não era costume, não se vende —, refletindo provavelmente considerações econômicas práticas variáveis conforme a região. Já para o gado graúdo, a mishná estabelece uma proibição absoluta e universal, sem exceção de costume local, aplicável mesmo a animais "inteiros" (saudáveis) ou "defeituosos" (fisicamente incapazes de certos usos). O motivo, explicado detalhadamente pelos comentadores com base na Guemará, não é idolatria, mas o dever de um judeu de fazer seu animal descansar no Shabat: um animal vendido a um gentio, mesmo que a venda seja formalmente completa e legítima, corre o risco de ser identificado publicamente como "o boi de fulano, o judeu" — e, se o gentio o fizer trabalhar em Shabat, gerar-se-ia a aparência de que um judeu está violando o Shabat através de seu animal, mesmo que a propriedade já tenha sido transferida. Diante dessa proibição geral, dois sábios propõem exceções pontuais: Rabi Yehuda permite vender o animal graúdo defeituoso, por não ser capaz de realizar trabalho útil e, portanto, não gerar o mesmo risco; e Ben Beteira permite especificamente a venda do cavalo, cujo uso típico — montaria — não constitui, segundo sua análise, um "trabalho" proibido pela Torá no mesmo sentido que a lavoura ou a tração de carga.
Rambam explica que é proibido vender gado graúdo a um idólatra porque o judeu tem o dever de fazer seu próprio animal descansar no Shabat; e proibiram a venda em si como medida preventiva mais ampla, temendo que, se se permitisse a venda direta, alguém pudesse concluir erroneamente que também seria permitido emprestar ou alugar o animal — e assim o gentio faria o animal, ainda tecnicamente ligado ao seu antigo dono judeu na percepção pública, trabalhar em Shabat. Por essa razão, é permitido vendê-lo apenas por meio de um corretor intermediário (sarsur), que rompe essa associação direta entre vendedor judeu e comprador gentio, como já explicado no tratado de Pessachim.
Bartenura explica que não se vende gado graúdo porque se proibiu a venda como precaução contra o aluguel ou o empréstimo, situações em que o animal continuaria sendo tecnicamente do judeu enquanto o gentio realizaria trabalho com ele em Shabat; mas por meio de um corretor, onde não há risco de confusão com aluguel (pois um corretor não é quem aluga o animal), a venda é permitida. "Inteiros e defeituosos" — mesmo os animais defeituosos ainda servem para trabalho, pois podem ser usados para moer. Quanto a Ben Beteira, que permite vender o cavalo — mesmo o cavalo que os caçadores usam para carregar as aves que caçam com ele —, sua opinião se baseia no princípio de que "o ser vivo carrega a si mesmo", isto é, que a atividade de carregar sobre si mesmo (montar) não constitui verdadeiro "trabalho" proibido no sentido pleno da lei.
A Guemará, discutindo os limites da regra do "costume local" que abre a mishná, cita a opinião de Rabi Eliezer, que traça uma distinção entre dois tipos de proibição envolvendo animais e gentios: a proibição de deixar um animal isolado (yichud) na companhia exclusiva de um gentio — motivada pelo temor de bestialidade — é absoluta em todo lugar, e não depende do costume local; mas a venda do animal, uma vez que se torna propriedade legítima do comprador gentio, não desperta essa mesma preocupação, pois, segundo o raciocínio talmúdico, um gentio tende a cuidar de seu próprio animal depois de adquiri-lo, evitando prejudicá-lo com esse tipo de abuso. Essa distinção clarifica por que a mishná permite, dependendo do costume, a venda de gado miúdo, mesmo que o simples "isolamento" de um animal com um gentio antes da venda seja proibido de modo mais rígido.