Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Alef · Mishná 3 de 9

As festividades dos gentios

וְאֵלּוּ אֵידֵיהֶן שֶׁל גּוֹיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná enumera as festividades específicas dos gentios segundo Rabi Meir — Calendas, Saturnália, Cratesis, aniversários e mortes de reis — e traz o critério alternativo dos Sábios (cremação pública), além de eventos privados restritos a um único dia e uma única pessoa: a tosquia da trança, o retorno do mar, a saída da prisão, e o banquete de casamento do filho de um gentio.

E estas são as festividades dos gentios: Calendas, Saturnália, e Cratesis, e o dia de aniversário de coroação dos reis, e o dia do nascimento, e o dia da morte — palavras de Rabi Meir. E os Sábios dizem: toda morte que tem cremação nela, há nela idolatria; e a que não tem cremação, não há nela idolatria. O dia da tosquia de sua barba e de sua trança, o dia em que subiu do mar, e o dia em que saiu da prisão, e o gentio que fez um banquete para seu filho — não é proibido, senão aquele dia e aquele homem somente. — Depois de estabelecer o princípio geral nas duas primeiras mishnayot, o tratado passa a especificar quais são, concretamente, "as festividades dos gentios" mencionadas ali. Rabi Meir oferece uma lista fechada de datas fixas do calendário romano da Antiguidade: Calenda (o ano-novo romano, ligado ao solstício de inverno), Saturnália (festividade em honra a Saturno, também próxima ao solstício), Cratesis (associada à ascensão ao poder de Roma) e os dias comemorativos ligados à pessoa dos reis — o dia de sua coroação, de seu nascimento e de sua morte. Os Sábios não aceitam essa lista fechada por nome, mas propõem em seu lugar um critério funcional para identificar quando o aniversário de morte de um governante constitui, de fato, uma festividade idólatra: a presença de cremação pública de seus pertences, um costume funerário associado a honras divinizadas ao morto. Onde há esse rito de cremação, há idolatria associada à data, e ela se repete anualmente; onde não há, a data carece dessa dimensão de culto. A mishná então acrescenta uma categoria distinta de ocasiões festivas: eventos privados e pontuais, que não se repetem no calendário anual e não pertencem a uma comunidade inteira, mas apenas a um indivíduo específico — o dia em que alguém corta sua barba e sua trança de cabelo (um rito de passagem pagão), o dia em que retorna a salvo de uma viagem marítima, o dia em que é libertado da prisão, ou o banquete de casamento oferecido por um gentio para seu filho. Nesses casos, a mishná restringe severamente o alcance da proibição: ela vale apenas para aquele dia específico e para aquele indivíduo específico que celebra o evento — não se estende aos três dias anteriores, como nas festividades calendáricas coletivas, nem a outros membros da comunidade que não estejam diretamente envolvidos na celebração pessoal.

וְאֵלּוּ אֵידֵיהֶן שֶׁל גּוֹיִם, קָלֶנְדָּא, וְסַטַרְנוּרָא, וּקְרָטֵסִים, וְיוֹם גְּנוּסְיָא שֶׁל מְלָכִים, וְיוֹם הַלֵּידָה, וְיוֹם הַמִּיתָה, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, כָּל מִיתָה שֶׁיֶּשׁ בָּהּ שְׂרֵפָה, יֶשׁ בָּהּ עֲבוֹדָה זָרָה, וְשֶׁאֵין בָּהּ שְׂרֵפָה, אֵין בָּהּ עֲבוֹדָה זָרָה. יוֹם תִּגְלַחַת זְקָנוֹ וּבְלוֹרִיתוֹ, יוֹם שֶׁעָלָה בוֹ מִן הַיָּם, וְיוֹם שֶׁיָּצָא בּוֹ מִבֵּית הָאֲסוּרִים, וְגוֹי שֶׁעָשָׂה מִשְׁתֶּה לִבְנוֹ, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא אוֹתוֹ הַיּוֹם וְאוֹתוֹ הָאִישׁ בִּלְבָד:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 1:3
וְאֵלּוּ אֵידֵיהֶן שֶׁל עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים וְכוּ׳: אֵלּוּ הַזְּמַנִּים הַנִּזְכָּרִים הָיוּ מְפֻרְסָמִים בְּאוֹתוֹ הַזְּמַן אֵצֶל הָעוֹבְדֵי כּוֹכָבִים וְהַנִּלְוִים אֲלֵיהֶם, וְכֵן כָּל מוֹעֵד אֻמָּה בְּכָל מְקוֹמוֹת הָעוֹלָם כְּשֶׁהֵן עוֹבְדִין עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים חַיָּב לִנְהֹג בָּהֶן כְּמוֹ שֶׁזָּכַר. מִיתָה שֶׁיֵּשׁ בָּהּ שְׂרֵפָה — שֶׁהָיָה בָהּ קְטֹרֶת אוֹ שְׂרֵפַת בִּגְדֵי הַמֵּת וְכֵלִים. וּגְנוּסְיָא שֶׁל מְלָכִים — הוּא יוֹם שֶׁמִּתְקַבְּצִין בּוֹ לְהָקִים מֶלֶךְ, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר. בְּלוֹרִית — הוּא שֵׂעָר הַמַּנִּיחִין בָּאֶמְצַע וּמְגַלְּחִין מַה שֶּׁסְּבִיבוֹתָיו מִכָּל הַצְּדָדִין, וְתִסְפֹּרֶת כָּזֶה אָסוּר לָנוּ מִן הַתּוֹרָה כְּדֵי שֶׁלֹּא נִתְדַּמֶּה לָהֶם, אֲבָל אֵין חַיָּב עָלָיו מַלְקוֹת אֶלָּא אִם שִׁחֵת הַפֵּאוֹת.

Rambam explica que as datas mencionadas eram amplamente conhecidas naquela época entre os idólatras e seus seguidores, e que o mesmo princípio se aplica a qualquer festividade nacional em qualquer lugar do mundo onde se pratique idolatria — deve-se proceder com ela como descrito na mishná. "Morte que tem cremação" refere-se aos casos em que se queimava incenso em honra ao morto, ou se queimavam suas vestes e utensílios pessoais. "Genúsia dos reis" é o dia em que se reúnem para coroar um rei; a halachá não segue Rabi Meir nesse ponto. Quanto à "trança" (blorit), trata-se de um estilo de corte de cabelo em que se deixa uma mecha no centro da cabeça e se rapa tudo ao redor — um corte de cabelo desse tipo é proibido para nós pela própria Torá, para que não nos assemelhemos a eles [nas práticas idólatras], embora não se receba açoites por essa transgressão a menos que se destrua também as pontas laterais da cabeça (as "peot"), como explicado no tratado de Makot.

Bartenura · Avodá Zará 1:3
קָלֶנְדָּא. שְׁמֹנָה יָמִים אַחַר תְּקוּפַת טֵבֵת. סְטַרְנוּרָא. שְׁמֹנָה יָמִים קֹדֶם הַתְּקוּפָה... הוּא קְבָעָם לַשָּׁמַיִם, וְהֵם קְבָעוּם לַעֲבוֹדָה זָרָה. קְרָטֵסִים. יוֹם תְּפִיסַת בּוֹ מַלְכוּת, וּקְבָעוּם יוֹם אֵיד. גְּנֻסְיָא. יוֹם שֶׁמַּעֲמִידִין בּוֹ מֶלֶךְ. יוֹם הַלֵּידָה. יוֹם שֶׁנּוֹלַד בּוֹ הַמֶּלֶךְ. שְׂרֵפָה. שֶׁשָּׂרְפוּ עָלָיו כְּלֵי תַשְׁמִישׁוֹ כְּדֶרֶךְ שֶׁשּׂוֹרְפִין עַל הַמְּלָכִים. אֲבָל יוֹם תִּגְלַחַת זְקָנוֹ. שֶׁאֵינוֹ זְמַן הַקָּבוּעַ לָרַבִּים אֶלָּא כָּל אֶחָד כְּשֶׁמְּגַלֵּחַ עוֹשֶׂה יוֹם אֵיד. וּבְלוֹרִיתוֹ. שֶׁמַּנִּיחַ בְּלוֹרִית מֵאֲחוֹרָיו כָּל הַשָּׁנָה כֻּלָּהּ וְאֵינוֹ מְגַלְּחָהּ אֶלָּא מִשָּׁנָה לְשָׁנָה.

Bartenura detalha o calendário romano por trás de cada termo: "Calenda" era celebrada oito dias depois do solstício de inverno; "Saturnália" oito dias antes do solstício — e traz a lenda popular segundo a qual Adão, o primeiro homem, ao ver os dias encurtarem, temeu que o mundo estivesse retornando ao caos por causa de seu próprio pecado, e por isso jejuou e orou durante oito dias; quando percebeu que os dias voltavam a alongar-se após o solstício, compreendeu tratar-se do curso natural do mundo e instituiu oito dias de celebração — "ele os fixou para o Céu, e eles os fixaram para a idolatria". "Cratesis" é o dia em que se tomou o poder [de Roma sobre o mundo], fixado como dia de festividade; "Genúsia" é o dia em que se coroa um rei; "dia do nascimento" é o dia em que o rei nasceu. "Cremação" refere-se ao costume de queimar os utensílios pessoais do morto, à maneira como se fazia pelos reis. Já "o dia da tosquia de sua barba" não é uma data fixa para o público, mas cada indivíduo, quando corta o cabelo, faz daquele seu próprio dia de festa pessoal; e "sua trança" refere-se ao costume de deixar crescer uma mecha na nuca durante todo o ano, cortando-a apenas uma vez por ano, e o dia em que a corta torna-se seu dia de festa particular.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 8b (sobre o banquete de casamento do filho do gentio)
כָּל תְּלָתִין יוֹמִין — דְּבָתַר הִלּוּלָא. בֵּין אָמַר — עוֹבֵד כּוֹכָבִים זֶה לְיִשְׂרָאֵל מֵחֲמַת הִלּוּלָא אֲנִי עוֹשֶׂה סְעוּדָּה זוֹ. וּבֵין לֹא אָמַר לוֹ — מִסְּתָמָא לְהִלּוּלָא מְכַוֵּן וְאָסוּר, דְּכָל יְמֵי הִלּוּלָא מַקְרִיב לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים.

A Guemará discute o alcance temporal exato da proibição ligada ao banquete de casamento do filho de um gentio, mencionado no final da mishná. Rashi explica que a proibição se estende por todos os trinta dias que se seguem à celebração nupcial (hilulá) — não apenas ao dia do próprio banquete —, e que isso vale tanto se o gentio declarar explicitamente ao judeu "faço este banquete por causa do casamento de meu filho" quanto se não o disser: presume-se, de todo modo, que sua intenção é celebrar as núpcias, e por isso a transação permanece proibida durante todo esse período, já que, segundo Rashi, ao longo de todos os dias da celebração nupcial o gentio continua oferecendo sacrifícios à sua idolatria em agradecimento pelo casamento do filho.