Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Alef · Mishná 2 de 9

Antes e depois das festividades

לִפְנֵי אֵידֵיהֶן אָסוּר, לְאַחַר אֵידֵיהֶן מֻתָּר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuação imediata da primeira mishná: Rabi Yishmael amplia a proibição de negociar com gentios também aos três dias posteriores à festividade, enquanto os Sábios restringem a proibição apenas ao período anterior a ela — halachá decidida a favor dos Sábios.

Rabi Yishmael diz: três dias antes delas e três dias depois delas é proibido. E os Sábios dizem: antes das festividades deles é proibido; depois das festividades deles é permitido.Esta breve mishná registra uma disputa direta sobre o alcance temporal da proibição estabelecida na mishná anterior. Rabi Yishmael propõe uma simetria: assim como nos três dias antes da festividade há risco de que o benefício concedido ao gentio se converta em gratidão futura à idolatria, também nos três dias depois da festividade haveria um risco análogo — talvez porque a alegria residual da celebração ainda o levaria a atribuir a seus deuses qualquer benefício recente. Os Sábios, cuja opinião prevalece como halachá, rejeitam essa extensão: a lógica da proibição, para eles, está centrada exclusivamente na antecipação — o gentio que recebe um benefício antes da festividade tem diante de si a ocasião iminente para expressar gratidão ao seu culto; passada a festividade, esse vínculo psicológico entre o benefício recebido e o agradecimento futuro se dissolve, e a transação comercial volta a ser inteiramente permitida. A disputa, embora breve, é significativa por delimitar com precisão o raciocínio por trás de toda a primeira mishná: não se trata de uma repulsa geral ao comércio com gentios, mas de uma cautela pontual, ligada estritamente à proximidade temporal com o ato de culto.

רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר, שְׁלֹשָׁה יָמִים לִפְנֵיהֶם וּשְׁלֹשָׁה יָמִים לְאַחֲרֵיהֶם אָסוּר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לִפְנֵי אֵידֵיהֶן אָסוּר, לְאַחַר אֵידֵיהֶן מֻתָּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 1:2
רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר וְכוּ׳: פְּסַק הַהֲלָכָה — בַּגּוֹלָה אֵין אָסוּר אֶלָּא יוֹם אֵידֵיהֶן בִּלְבָד, וְכָל מַה שֶּׁלּוֹקְחִין וּמוֹכְרִין עִמָּהֶם בְּיוֹם אֵידֵיהֶן אָסוּר, כְּלוֹמַר שֶׁאָסוּר לֵהָנוֹת מִמֶּנּוּ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יִשְׁמָעֵאל.

Rambam decide a halachá de forma prática: fora da Terra de Israel, na diáspora, a proibição vigora apenas no próprio dia da festividade, e não nos três dias anteriores ou posteriores — e tudo o que se compra e vende com eles nesse dia específico é proibido, isto é, é proibido tirar proveito dessa transação. E a halachá não segue Rabi Yishmael.

Bartenura · Avodá Zará 1:2
לְאַחַר אֵידֵיהֶן מֻתָּר. וְכֵן הֲלָכָה. וּבַגּוֹלָה, שֶׁאֵין אָנוּ יְכוֹלִים לְהַעֲמִיד עַצְמֵנוּ מִלִּשָּׂא וְלִתֵּן עִמָּהֶם, שֶׁעִקַּר פַּרְנָסָתֵנוּ מֵהֶם, וְעוֹד מִשּׁוּם יִרְאָה, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא יוֹם אֵידָם בִּלְבָד. וְהָאִדְנָא נָהוּג עָלְמָא הֶתֵּר אֲפִלּוּ בְכָל יוֹם אֵידָם, מִשּׁוּם דְּקִים לְהוּ לְרַבָּנָן בְּגַוַּיְהוּ דְּלָא אָזְלֵי וּמוֹדוּ.

Bartenura confirma que a halachá segue os Sábios — depois das festividades é permitido. E, na diáspora, onde não podemos nos abster de negociar com os gentios, já que nosso sustento depende principalmente deles, e também por razões de segurança diante do poder que exercem sobre nós, a proibição não se aplica senão ao próprio dia de sua festividade. Bartenura acrescenta uma observação histórica sobre seu próprio tempo: em sua época, tornou-se costume generalizado permitir o comércio mesmo nesse dia, porque os sábios de então já reconheciam que os comerciantes gentios ao seu redor não tinham mais o costume de "ir e agradecer" formalmente ao seu culto por ocasião de uma transação comercial.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Nota sobre a Guemará desta mishná
Talmud Bavli, Avodá Zará 7b–8a

A Guemará imediatamente após esta mishná (Avodá Zará 7b–8a) dedica-se quase inteiramente a um extenso excurso sobre o momento correto de recitar as bênçãos de louvor no início da Amidá, e não desenvolve um comentário amoraico prolongado sobre a disputa entre Rabi Yishmael e os Sábios em si — a mishná seguinte (1:3), que já abre o daf 8a, retoma o fio condutor do tratado. Por essa razão, o comentário de Rashi disponível para este trecho específico concentra-se nesse excurso lateral sobre a oração, e não em glosas diretamente ligadas ao conteúdo desta mishná. Optou-se por não incluir aqui, portanto, uma citação de Rashi desconectada do tema — o comentário retido nesta página baseia-se em Rambam e Bartenura, que tratam diretamente da disputa e de sua resolução prática.