Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Alef · Mishná 1 de 9

Nos três dias antes das festividades

לִפְנֵי אֵידֵיהֶן שֶׁל גּוֹיִם שְׁלֹשָׁה יָמִים אָסוּר לָשֵׂאת וְלָתֵת עִמָּהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná de abertura do tratado e do Perek Alef: define o período de três dias antes das festividades idólatras dos gentios em que é proibido negociar, emprestar, tomar emprestado, pagar ou cobrar dívidas deles — e a disputa entre Rabi Yehuda e os Sábios sobre a cobrança de dívidas nesse período.

Nos três dias que precedem as festividades dos gentios, é proibido negociar com eles, emprestar-lhes ou tomar emprestado deles, dar-lhes dinheiro emprestado ou tomar dinheiro emprestado deles, pagar-lhes dívidas ou cobrar deles o pagamento de dívidas. Rabi Yehuda diz: cobra-se deles, pois isso lhe causa angústia. Disseram-lhe: ainda que agora lhe cause angústia, depois de um tempo ele se alegra.Massechet Avodá Zará, o oitavo tratado de Seder Nezikin, abre tratando não da idolatria em si, mas das relações comerciais e sociais cotidianas entre judeus e gentios no mundo greco-romano da Antiguidade — um tema de enorme alcance prático para uma minoria que vivia em constante contato econômico com seus vizinhos. A primeira mishná estabelece o princípio geral: nos três dias que antecedem uma festividade idólatra, toda transação com um gentio que participe dela é proibida, porque qualquer benefício que ele obtenha nesse período — um bom negócio, um empréstimo concedido, uma dívida quitada — tende a deixá-lo satisfeito e, por gratidão, a atribuir esse bem-estar ao seu culto, oferecendo-lhe louvor no dia da festividade. A proibição, portanto, não recai sobre a idolatria alheia em si, mas sobre o papel involuntário que um judeu poderia desempenhar ao fornecer, mesmo indiretamente, uma ocasião de ação de graças a ela. A lista de transações proibidas é ampla — comprar e vender, emprestar e tomar emprestado, tanto de objetos quanto de dinheiro, pagar dívidas e cobrá-las — cobrindo praticamente toda a vida econômica comum entre vizinhos. A única exceção discutida é a cobrança de uma dívida: Rabi Yehuda argumenta que, ao contrário de receber um benefício, ser cobrado é desagradável, e por isso não geraria motivo de gratidão idólatra. Os Sábios discordam com um argumento perspicaz sobre a psicologia humana: mesmo que o momento da cobrança seja penoso, o alívio de estar livre da dívida produz, pouco depois, uma sensação de bem-estar que também pode ser atribuída ao culto do dia festivo — e por isso a proibição se mantém mesmo nesse caso.

לִפְנֵי אֵידֵיהֶן שֶׁל גּוֹיִם שְׁלֹשָׁה יָמִים, אָסוּר לָשֵׂאת וְלָתֵת עִמָּהֶן, לְהַשְׁאִילָן וְלִשְׁאוֹל מֵהֶן, לְהַלְוֹתָן וְלִלְוֹת מֵהֶן, לְפָרְעָן וּלְפָּרַע מֵהֶן. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, נִפְרָעִין מֵהֶן מִפְּנֵי שֶׁהוּא מֵצֵר לוֹ. אָמְרוּ לוֹ, אַף עַל פִּי שֶׁמֵּצֵר הוּא עַכְשָׁיו, שָׂמֵחַ הוּא לְאַחַר זְמָן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 1:1
שָׁלֹשׁ יָמִים לִפְנֵי אֵידֵיהֶן שֶׁל עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים וְכוּ׳: אֵידֵיהֶם — הֶבְלֵיהֶם, כִּנּוּי לְמוֹעֲדֵיהֶם, וְאָסוּר לְקָרְאָם מוֹעֲדִים לְפִי שֶׁהֵם הֶבֶל עַל הָאֱמֶת. וְאֵלֶּה שְׁלֹשָׁה יָמִים מִלְּבַד יוֹם הָאֵיד עַצְמוֹ, וַאֲסַרְנוּ שֶׁיִּשְׁאַל מֵהֶם אוֹ יִלְוֶה מֵהֶם לְפִי שֶׁהֵם מְשַׁבְּחִים לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים שֶׁלָּהֶם עַל זֶה, וְיִהְיֶה הוּא סִבָּה לְשֶׁבַח לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים. וְאִם הוּא מַלְוֶה עַל פֶּה, מֻתָּר לְקַבֵּל מֵהֶם, לְפִי שֶׁהוּא מַצִּיל מִיָּדָם. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rambam explica que "seus dias festivos" (eideihen) é, no hebraico, uma designação depreciativa para suas celebrações — chamadas literalmente de "suas vaidades" — e que é proibido chamá-las de "festividades" no sentido pleno da palavra, por serem vaidade em face da verdade. Esses três dias contam-se além do próprio dia da festividade. E proibimos que se peça deles ou se tome emprestado deles nesse período porque, ao fazê-lo, eles louvarão sua idolatria por essa boa sorte, e o judeu se tornaria, involuntariamente, causa desse louvor. Mas se for um empréstimo verbal (sem documento escrito), é permitido receber o pagamento deles nesses dias, pois isso equivale a resgatar o próprio dinheiro de suas mãos, e não a lhes fazer um favor. E a halachá não segue a opinião de Rabi Yehuda.

Bartenura · Avodá Zará 1:1
לִפְנֵי אֵידֵיהֶן שֶׁל גּוֹיִם. שֵׁם כִּנּוּי לִגְנַאי לְחַגֵּיהֶם וּלְמוֹעֲדֵיהֶם. לָשֵׂאת וְלָתֵת. לִמְכֹּר וְלִקְנוֹת, מִשּׁוּם דְּאָזְלֵי וּמוֹדוּ לַעֲבוֹדָה זָרָה בְּיוֹם אֵידָם. לְהַשְׁאִילָן. בְּהֵמָה וְכֵלִים, מִידֵי דְּהַדְרָא בְעֵינָא. לְהַלְוֹתָם. מָעוֹת, דְּלֹא הַדְרֵי בְעֵין, דְּמִלְוָה לְהוֹצָאָה נִתְּנָה. לְפָרְעָן. כְּשֶׁהֵן נִפְרָעִים אָזְלוּ וּמוֹדוּ לַעֲבוֹדָה זָרָה בְּיוֹם אֵידָם. מִפְּנֵי שֶׁהוּא מֵצֵר. עַל מְעוֹתָיו שֶׁאֵינָם חוֹזְרִים לוֹ, וְלֹא אָזֵיל וּמוֹדֶה. שָׂמֵחַ הוּא לְאַחַר זְמָן. לְמָחָר בְּיוֹם אֵידוֹ, וְאָזֵיל וּמוֹדֶה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. וְדַוְקָא בְמִלְוָה בִשְׁטָר אָסוּר לְהִפָּרַע מֵהֶם, אֲבָל בְּמִלְוָה עַל פֶּה שָׁרֵי, מִפְּנֵי שֶׁהוּא כְמַצִּיל מִיָּדָם.

Bartenura explica que "diante das festividades dos gentios" é uma designação depreciativa para suas festas e seus dias marcados. "Negociar" significa vender e comprar, pois, ao fazê-lo, eles vão e agradecem à idolatria no dia de sua festividade. "Emprestar-lhes" refere-se a animais e utensílios — coisas que retornam intactas ao dono. "Dar-lhes dinheiro emprestado" refere-se a moedas, que não retornam intactas, pois um empréstimo em dinheiro é dado para ser gasto. "Pagar-lhes" — quando são pagos, eles vão e agradecem à idolatria no dia de sua festividade. "Porque isso lhe causa angústia" — pela perda do seu dinheiro, que não lhe retorna, e por isso ele não vai agradecer. "Ele se alegra depois de um tempo" — no dia seguinte, no dia de sua festividade, e então vai e agradece. E a halachá não segue Rabi Yehuda. E especificamente num empréstimo com documento escrito é proibido cobrar deles; mas num empréstimo verbal é permitido, porque equivale a resgatar o próprio dinheiro das mãos deles.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 2a (sobre a abertura do tratado)
לִפְנֵי אֵידֵיהֶן שֶׁל עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים ג׳ יָמִים אָסוּר לָשֵׂאת וְלָתֵת עִמָּהֶן. וְכֻלְּהוּ מִשּׁוּם דְּאָזִיל וּמוֹדֶה לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים בְּיוֹם אֵידוֹ. שְׁאֵלָה בְּמִידֵי דְהָדַר בְּעֵין, כְּגוֹן בְּהֵמָה וְכֵלִים, דִּכְתִיב (שמות כב) כִּי יִשְׁאַל אִישׁ מֵעִם רֵעֵהוּ וְגוֹ׳. מִלְוָה בְּמִידֵי דְלָא הָדַר בְּעֵין, כְּגוֹן מָעוֹת, דִּכְתִיב (שם) אִם כֶּסֶף תַּלְוֶה אֶת עַמִּי, דְּמִלְוָה לְהוֹצָאָה נִתְּנָה וּמְשַׁלֵּם לוֹ מָעוֹת אֲחֵרוֹת. שָׂמֵחַ הוּא לְאַחַר זְמָן — לְמָחָר.

Rashi abre seu comentário ao tratado explicando que toda a lista de transações proibidas na mishná se deve a um único princípio: o gentio, tendo obtido algum benefício do judeu, "vai e agradece" à sua idolatria no dia de sua festividade. Rashi distingue tecnicamente "emprestar" (she'elá) de "dar dinheiro emprestado" (halva'á): a primeira aplica-se a coisas que retornam fisicamente intactas ao dono, como um animal ou um utensílio — citando o versículo "quando um homem pedir emprestado ao seu próximo" (Êxodo 22:13); a segunda aplica-se a coisas que não retornam da mesma forma, como dinheiro — citando "se emprestares dinheiro ao meu povo" (Êxodo 22:24) — pois um empréstimo em dinheiro é dado para ser gasto, e o devedor paga de volta com outras moedas, não as mesmas. Sobre "ele se alegra depois de um tempo", Rashi esclarece objetivamente: no dia seguinte.