Se a vendeu ao primeiro por cem, e o primeiro a vendeu ao segundo por duzentos, ele só calcula com o primeiro, pois foi dito: “ao homem a quem a vendeu”. Se a vendeu ao primeiro por duzentos, e o primeiro a vendeu ao segundo por cem, ele só calcula com o último, pois foi dito ali: “ao homem” — “ao homem que está em seu meio”. Não venderá longe para resgatar perto, nem ruim para resgatar bom. Não tomará emprestado para resgatar, nem resgatará pela metade. Mas com relação ao consagrado, é permitido em todos estes. Isto é uma estringência sobre o comum em relação ao consagrado.
— A mishná trata agora do cálculo do resgate quando o campo passou por mais de um comprador antes que o dono original viesse resgatá-lo. Se o dono vendeu por cem dinares e o primeiro comprador revendeu por duzentos ao segundo, o dono calcula seu resgate apenas com base no preço original de cem, pois o versículo fala em devolver “ao homem a quem a vendeu” — ou seja, ao primeiro comprador, com quem foi feito o negócio original. Mas se o dono vendeu por duzentos e o primeiro comprador revendeu por apenas cem ao segundo, o cálculo se faz com base no preço menor de cem, pois o mesmo termo “ao homem” é lido também como referência a quem está atualmente na posse do campo — o comprador presente. Em ambos os casos a lei favorece o valor menor, poupando o dono do pagamento maior. A mishná passa então a quatro restrições que impedem o dono de manipular sua própria situação financeira às custas do comprador: ele não pode vender um campo distante para juntar dinheiro e resgatar um campo próximo; não pode vender um campo de qualidade inferior para resgatar um de qualidade superior; não pode tomar dinheiro emprestado apenas para viabilizar o resgate; e não pode resgatar apenas metade do campo, deixando a outra metade em posse do comprador. Todas essas restrições, porém, aplicam-se apenas ao campo vendido por um dono comum; quando se trata de resgatar um campo consagrado ao Templo, todas essas quatro formas são permitidas — sinal de que, nesse ponto, a lei é mais rigorosa com o particular do que com o consagrado.
Rambam explica que a lei sempre dá ao dono do campo o cálculo mais favorável, pagando o valor mais baixo entre as sucessivas vendas. Sobre as restrições de vender longe, vender ruim, tomar emprestado ou resgatar pela metade, ensina que todas derivam da exigência de que o dinheiro do resgate venha de recursos que “se encontrem” — isto é, que surjam de modo novo, não disponíveis no momento em que o campo foi vendido; por isso não se aceita que o dono venda um campo distante que já possuía, ou troque um campo inferior por um superior, apenas para viabilizar o resgate.
Bartenura confirma que o cálculo com o primeiro comprador desconta, ano a ano, o valor correspondente à colheita já consumida, restando ao dono pagar apenas a diferença. Sobre as restrições, esclarece que a proibição de resgatar pela metade significa que o dono ou resgata o campo inteiro de uma vez, ou não resgata nada — não pode devolver o campo em partes. E, em contraste, sobre o campo consagrado ao Templo, esclarece que quem o consagrou pode vender outro campo seu, ou tomar dinheiro emprestado, especificamente para viabilizar seu resgate; e se não tiver recursos para resgatar tudo de uma vez, pode resgatar metade agora e o restante quando puder.
Rashi confirma o mecanismo: o dono calcula quanto corresponde a cada ano a partir do preço original de cem, e é esse valor, ano a ano, que o comprador desconta do resgate. Sobre a segunda leitura — “ao homem que está em seu meio” — nota que a Guemará pergunta de onde se sabe que se deve interpretar a expressão sempre para o lado mais leniente, e não para o mais rigoroso; a resposta está fora do escopo direto da mishná, mas a conclusão prática é clara: o dono sempre paga o valor menor. Sobre a proibição de vender campo distante, esclarece que se trata de um campo que o dono já possuía, guardado como reserva, para então usar o dinheiro na compra de um resgate mais próximo — o que a lei não permite. E sobre o consagrado, confirma que quem consagrou seu campo pode vender outro para juntar dinheiro, tomar empréstimo, e resgatar em duas etapas, primeiro metade e depois o restante, quando lhe for possível.