Ainda que tenham dito: os obrigados a valores fixos, penhoram-nos — dão-lhe alimento para trinta dias, e vestimenta para doze meses, e uma cama armada, e suas sandálias, e seus filactérios — a ele, mas não à sua mulher e a seus filhos. Se era artesão, dão-lhe dois instrumentos de ofício de cada tipo; se era carpinteiro, dão-lhe duas enxós e duas serras. Rabi Eliezer diz: se era lavrador, dão-lhe sua junta de bois; se era condutor de jumentos, dão-lhe seu jumento.
— Depois de tratar da consagração voluntária de bens, a mishná retoma o tema com que se encerrou o Perek Hei: a penhora daqueles que devem valores fixos (erech) ao Templo. Ainda que o tribunal tenha autoridade para penhorar os bens de tal devedor, essa autoridade não é ilimitada: o texto estabelece uma lista de itens de subsistência básica que o tesoureiro deve deixar com ele, de modo que o devedor não seja reduzido à indigência completa. Deixam-lhe comida suficiente para trinta dias, roupas para um ano inteiro, uma cama já preparada com roupa de cama, suas sandálias e seus filactérios — mas apenas para ele mesmo, não para sua mulher e seus filhos, cujos pertences pessoais não gozam dessa proteção quando é ele, e não eles, quem deve ao Templo. A mishná estende a mesma lógica de subsistência mínima aos instrumentos de trabalho: se o devedor for um artesão, deixam-lhe dois exemplares de cada ferramenta de seu ofício, para que continue podendo trabalhar e sustentar-se; o exemplo dado é o do carpinteiro, a quem se deixam duas enxós e duas serras. Rabi Eliezer acrescenta duas categorias de trabalhadores rurais: ao lavrador se deixa sua junta de bois de arar, e ao condutor de jumentos, seu próprio animal de carga — ambos considerados, para efeito desta lei, como instrumentos de ofício e não como mero patrimônio penhorável.
Rambam funda toda esta lei diretamente no versículo “e se ele for pobre demais para a avaliação” (Vayikrá 27:8): estima-se sua condição financeira, e se ele for realmente pobre, a ponto de possuir apenas o equivalente ao seu próprio sustento pessoal, deve-se deixar isso com ele, tirando-o do montante devido ao Templo. Sobre a palavra “ma’atsad” (enxó), esclarece que seu sentido é conhecido; e “megherah” corresponde à palavra bíblica “massor” (serra). E conclui que a halachá não segue Rabi Eliezer, pois a junta de bois e o jumento são considerados patrimônio propriamente dito, e não meras ferramentas de ofício.
Bartenura explica que “penhoram-nos” significa que o tesoureiro entra na casa do devedor e toma seus bens contra sua vontade. Sobre “alimento, vestimenta, cama, sandálias e filactérios”: em relação a todos eles, deixam-lhe dinheiro para adquiri-los caso não os tenha, pois está escrito “e se ele for pobre demais para a avaliação”, e os Sábios expõem o versículo assim: “e se ele for pobre demais” — providencia-se para que ele mesmo permaneça, tendo existência e sustento; “para a avaliação” — do dinheiro da própria avaliação. Isso implica que ele tem existência e sustento a partir do dinheiro da avaliação, mas não sua mulher, nem seus filhos. Sobre “de cada tipo”: refere-se a qualquer ofício que exija quatro ou cinco ferramentas. Explica ainda os termos técnicos: as enxós são as ferramentas com que se alisa a superfície da tábua; a serra é como uma faca longa cheia de dentes; e “sua junta” é a junta de bois, consideradas ferramentas de seu ofício — mas a halachá não segue Rabi Eliezer, pois a junta de bois e o jumento são propriamente patrimônio, e não se consideram ferramentas de ofício.
Rashi confirma que a penhora significa que o tesoureiro entra nas casas dos devedores e toma seus bens contra a vontade deles; e que, quanto ao alimento, à vestimenta, à cama e aos filactérios, deixa-se-lhes em todos os casos dinheiro suficiente para adquiri-los, caso não os tenham. Explica “de cada tipo” como referência a um ofício que exige quatro ou cinco ferramentas diferentes; identifica as enxós (ma’atzadin) pelo termo estrangeiro correspondente, como instrumento que alisa a madeira; e a serra (megherah) como uma espécie de faca comprida cheia de dentes, que corta rapidamente, semelhante à ferramenta usada por fabricantes de pentes. Por fim, esclarece que “sua junta” é a junta de bois, considerada instrumento do seu ofício.