Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Bet · Mishná 1 de 6

Os limites mínimo e máximo: avaliações, contagem em dúvida e sinais de lepra

אֵין בָּעֲרָכִין פָּחוּת מִסֶּלַע
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O mínimo e o máximo nas avaliações votivas, na contagem da mulher em dúvida sobre seu fluxo, e no isolamento por sinais de lepra

Não há, nas avaliações, menos que um sela, nem mais que cinquenta sela. Como assim? Se deu um sela e enriqueceu, não dá mais nada. Se deu menos que um sela e enriqueceu, dá cinquenta sela. Se havia em suas mãos cinco sela, Rabi Meir diz: não dá senão um. E os Sábios dizem: dá tudo. Não há, nas avaliações, menos que um sela, nem mais que cinquenta sela. Não há, para a que erra a contagem, abertura menor que sete dias, nem maior que dezessete. Não há, nas pragas, prazo menor que uma semana, nem maior que três semanas.

— O Perek Bet se abre com três leis independentes, unidas apenas pela mesma fórmula — “não há menos que X, nem mais que Y” — e repetidas de propósito nesta ordem pela mishná, como ensina o Talmud, para que o aluno as memorize em conjunto. A primeira lei trata de quem faz voto de dar ao Templo o valor de avaliação (erech) fixado pela Torá para uma pessoa: esse valor nunca pode ser cobrado abaixo de um sela, mesmo do mais pobre dos pobres, nem pode ultrapassar cinquenta sela, o teto fixado pela Torá para um homem de vinte a sessenta anos. Por isso, quem deve cinquenta sela mas é pobre paga conforme sua posse: se deu um sela enquanto pobre e depois enriqueceu, está quite; mas se deu menos que um sela, essa entrega não vale nada, e a dívida integral permanece sobre ele até que ele possa pagá-la por completo. No caso de alguém com exatamente cinco sela em mãos, Rabi Meir e os Sábios discordam sobre quanto se cobra dele: Rabi Meir entende que a Torá só reconhece duas medidas — o sela mínimo ou o valor total — e por isso, não tendo os cinquenta completos, paga apenas um sela; os Sábios entendem que se cobra dele tudo o que suas mãos alcançarem, seja qual for a quantia. A segunda lei muda de assunto e trata da mulher que perdeu a conta de seu ciclo e não sabe se o sangue que viu pertence aos dias de menstruação ou aos onze dias intermediários que a tornariam uma fluxo contínuo (zavá): o prazo mínimo para que ela reconte seu ciclo com segurança é de sete dias limpos, e o máximo, de dezessete, conforme quantos dias seguidos ela tiver visto sangue. A terceira lei volta a mudar de assunto: os sinais de lepra ritual (negaim) examinados pelo sacerdote exigem isolamento por, no mínimo, uma semana — para as pragas que afligem o corpo humano —, e no máximo três semanas — para as pragas que afligem as paredes de uma casa.

אֵין בָּעֲרָכִין פָּחוּת מִסֶּלַע, וְלֹא יָתֵר עַל חֲמִשִּׁים סָלַע. כֵּיצַד, נָתַן סֶלַע וְהֶעֱשִׁיר, אֵינוֹ נוֹתֵן כְּלוּם. פָּחוֹת מִסֶּלַע וְהֶעֱשִׁיר, נוֹתֵן חֲמִשִּׁים סָלַע. הָיָה בְיָדָיו חָמֵשׁ סְלָעִים, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, אֵינוֹ נוֹתֵן אֶלָּא אֶחָת. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, נוֹתֵן אֶת כֻּלָּם. אֵין בָּעֲרָכִין פָּחוּת מִסֶּלַע, וְלֹא יָתֵר עַל חֲמִשִּׁים סֶלַע. אֵין פֶּתַח בַּטּוֹעָה פָּחוֹת מִשִּׁבְעָה, וְלֹא יָתֵר עַל שִׁבְעָה עָשָׂר. אֵין בַּנְּגָעִים פָּחוּת מִשָּׁבוּעַ אֶחָד, וְלֹא יָתֵר עַל שְׁלשָׁה שָׁבוּעוֹת:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikra 27:25
וְכׇל־עֶרְכְּךָ יִהְיֶה בְּשֶׁקֶל הַקֹּדֶשׁ עֶשְׂרִים גֵּרָה יִהְיֶה הַשָּׁקֶל׃
“Toda avaliação será feita pelo peso do santuário: vinte gueras fará o sela.”
Vayikra 27:8
וְאִם־מָךְ הוּא מֵעֶרְכֶּךָ וְהֶעֱמִידוֹ לִפְנֵי הַכֹּהֵן וְהֶעֱרִיךְ אֹתוֹ הַכֹּהֵן עַל־פִּי אֲשֶׁר תַּשִּׂיג יַד הַנֹּדֵר יַעֲרִיכֶנּוּ הַכֹּהֵן׃
“Mas se ele for pobre demais para pagar essa avaliação, será apresentado diante do sacerdote, e o sacerdote fará a avaliação conforme o que as posses de quem fez o voto puderem alcançar.”
Bartenura ensina que do primeiro versículo, “toda avaliação será feita pelo peso do santuário”, deriva-se que nenhuma avaliação pode ser cobrada abaixo de um sela — nem mesmo do mais pobre dos pobres. Já o segundo versículo, sobre quem não tem posses (“mach”), ensina que, acima desse mínimo, cobra-se de cada pessoa exatamente o que ela pode pagar — e é sobre a leitura precisa desses dois versículos combinados que Rabi Meir e os Sábios discordam a respeito de quem tem cinco sela em mãos.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 2:1
אין בערכין פחות מסלע ולא יתר על נ' סלע כו': כבר ידעת מד"ת שגדול שבערכים נ' סלעים ופחות שבהן ג' סלעים... אבל אין פוסקין על שום אדם בערך פחות משקל ואפילו היה בתכלית העניות שנאמר וכל ערכך יהיה בשקל הקודש...

Rambam explica que a Torá reconhece um teto de cinquenta sela para o maior dos valores de avaliação, mas nunca permite fixar, para ninguém, uma avaliação abaixo de um sela — mesmo para o mais extremo dos pobres, como está escrito: “toda avaliação será feita pelo peso do santuário”. Por isso, quem já pagou um sela — ainda que devesse originalmente o valor máximo de cinquenta — e depois enriquece, nada mais deve; mas quem pagou menos que um sela não cumpriu coisa alguma, e a dívida inteira persiste até que suas posses alcancem o valor devido. Sobre a segunda lei da mishná, Rambam desenvolve longamente os princípios da pureza menstrual: sete dias de nidá certa a partir do início do fluxo, seguidos por onze dias em que um fluxo de três dias seguidos torna a mulher uma zavá obrigada a sacrifício; quando a mulher não sabe em que fase do ciclo se encontra, ela deve contar entre sete e dezessete dias limpos, conforme o número de dias em que viu sangue, até poder retomar com segurança a contagem regular de seu ciclo.

Bartenura · Arachin 2:1
אֵין בַּעֲרָכִין פָּחוּת מִסֶּלַע. אֲפִלּוּ עָנִי שֶׁהֶעֱרִיךְ וְאֵין יָדוֹ מַשֶּׂגֶת אֵינוֹ נִדּוֹן בְּפָחוּת מִסֶּלַע... אֵין פֶּתַח בַּטּוֹעָה פָּחוּת מִשִּׁבְעָה. אַיְדֵי דְאַיְרֵי בְאֵין בַּעֲרָכִין פָּחוּת וְלֹא יוֹתֵר, תָּנָא נַמִּי לְכָל הָנָךְ דְּאִית בְּהוּ אֵין פָּחוּת וְלֹא יוֹתֵר...

Bartenura observa logo de início que a mishná reúne estas três leis apenas porque todas compartilham a mesma estrutura de mínimo e máximo — e não porque tratem de um mesmo assunto. Sobre a mulher em dúvida, explica passo a passo como se calcula a “abertura” (petach) de dezessete dias conforme o número de dias em que ela viu sangue: se viu um único dia, ainda não sabe se está em dias de menstruação certa — caso em que contaria seis dias e aquele — ou nos onze dias de fluxo intermediário, quando bastaria guardar um dia limpo para cada dia de sangue; por isso sua incerteza só se resolve depois de dezessete dias sem nova visão de sangue. Sobre as pragas de lepra, remete à fonte no Torat Cohanim: as pragas do corpo humano se resolvem, para pureza ou impureza, dentro de uma única semana de isolamento, enquanto as pragas de uma casa exigem até três semanas, pois a Torá repete duas vezes a expressão “e virá o sacerdote”, ensinando que se concede uma terceira semana quando a mancha permanece inalterada nas duas primeiras.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 7b, sobre a Guemará desta mishná (avaliações)
מתני' אין נערכין פחות מסלע — שאפי' עני הנדור בהשג יד לא יתן פחות מסלע: ולא יותר על חמשים — דזהו גדול שבערכין הכתובין בפרשה: נתן סלע — בן עשרים שערכו חמישים והיה עני ונתן סלע לערכו דעני נידון בהשג יד והעשיר פטור: נותן חמשים — דבנתינה קמייתא לא יצא ידי ערכו ועדיין ערכו עליו:

Rashi esclarece que, mesmo o mais pobre dos pobres, obrigado a pagar conforme suas posses, não pode ser cobrado abaixo de um sela — este é o piso absoluto fixado pela Torá. E cinquenta sela é o maior valor de avaliação previsto na própria passagem da Torá, referente a um homem de vinte a sessenta anos. Quando alguém pobre pagou um sela e depois enriqueceu, está isento do restante, pois o pobre é julgado conforme o que suas posses alcançavam no momento; mas quem pagou menos que um sela ainda não cumpriu sua obrigação de avaliação, e o valor integral continua pendente sobre ele.

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 8a, sobre a Guemará desta mishná (a mulher em dúvida)
מתני' פתח — תחילת נדות. שזה דין נדה דאורייתא. ראתה היום מונה ששה והוא, ראתה שנים מונה חמשה והן... אין פתח בטועה פחות משבעה — טועה שראתה היום ואינה יודעת אם בימי נדתה עומדת אם באותן אחד עשר יום של זיבה אין חוזרת לפתח נדותה בפחות מז' נקיים: ולא יותר על י"ז — נקיים כדמפרש בגמ':

Rashi explica que “abertura” (petach) designa o início de um novo período de menstruação certa, uma lei de origem bíblica: se a mulher viu sangue apenas hoje, conta seis dias adicionais mais este; se viu dois dias, conta cinco mais aqueles; e assim por diante, sempre completando sete. Quando ela não sabe se o sangue que vê pertence aos sete dias de menstruação certa ou aos onze dias intermediários de possível fluxo contínuo, ela permanece em dúvida, e essa dúvida só se resolve depois de, no mínimo, sete dias limpos sem nova visão de sangue — e, no máximo, dezessete, conforme os cálculos detalhados na Guemará para cada quantidade de dias em que ela originalmente viu sangue.