Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Alef · Mishná 2 de 4

O gentio e o voto de avaliação

הַנָּכְרִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A disputa sobre o gentio: avaliado ou avaliador

O gentio — Rabi Meir diz: é avaliado, mas não avalia. Rabi Yehudá diz: avalia, mas não é avaliado. Este e aquele concordam que fazem votos e são objeto de votos.

— Depois de estabelecer, na mishná anterior, quem pode fazer e ser objeto dos dois votos, a mishná isola o caso do gentio, que a Torá exclui explicitamente do voto de avaliação ao restringir a parashat arachin aos “filhos de Israel”, mas inclui, por outro lado, ao dizer “quando qualquer pessoa fizer voto explícito” — termo amplo que a Guemará entende incluir também o gentio. Dessas duas leituras aparentemente contraditórias do mesmo versículo nasce a disputa: Rabi Meir aplica a inclusão a quem é objeto do voto (um israelita pode avaliar um gentio) e a exclusão a quem faz o voto (o próprio gentio não pode avaliar ninguém); Rabi Yehudá inverte os papéis — o gentio pode fazer o voto de avaliação sobre um israelita, mas não pode ser ele mesmo avaliado. Quanto ao voto de valor de mercado (damim), que não depende da tabela fixa de Vayikrá nem da expressão “filhos de Israel”, mas apenas do preço real de venda como escravo, ambos os tanaítas concordam que o gentio participa plenamente — tanto fazendo esse voto sobre outra pessoa quanto sendo ele mesmo seu objeto.

הַנָּכְרִי, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר נֶעֱרָךְ אֲבָל לֹא מַעֲרִיךְ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, מַעֲרִיךְ אֲבָל לֹא נֶעֱרָךְ. זֶה וָזֶה מוֹדִים, שֶׁנּוֹדְרִין וְנִדָּרִין:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikrá 27:2 — a fonte dupla da disputa
דַּבֵּר אֶל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְאָמַרְתָּ אֲלֵהֶם אִישׁ כִּי יַפְלִא נֶדֶר בְּעֶרְכְּךָ נְפָשֹׁת לַיהֹוָה׃
“Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: quando alguém [ish, ‘pessoa’] fizer voto explícito segundo tua avaliação de pessoas ao Eterno.”
O mesmo versículo contém, segundo a Guemará, duas leituras que apontam em direções opostas: a expressão “filhos de Israel” restringe o voto de avaliação a israelitas, excluindo o gentio; mas a palavra “ish” (“qualquer pessoa”), sem qualificação adicional, é entendida como uma ampliação que inclui até mesmo o gentio. É dessa tensão entre restrição e ampliação, aplicada a papéis diferentes do voto — quem o faz e quem é seu objeto — que nascem as posições opostas de Rabi Meir e Rabi Yehudá.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 1:2
העובד כוכבים ר"מ אומר נערך אבל לא מעריך כו': אמרה רחמנא בתחלת פרשת ערכין דבר אל בני ישראל איש כי יפליא ומה שאמר בני ישראל למעט עובד כוכבים ומה שאמר איש הוא רבוי אי זה איש שיהיה ואפילו עובד כוכבים... רבי מאיר אומר נערך ריבה שהרי ריבה בנערכים יתר מן המעריכין שהרי חרש שוטה וקטן נערכין ולא מעריכין ורבי יהודה אומר מעריך ריבה שהרי ריבה במעריכין יתר מן הנערכין שהרי טומטום ואנדרוגינוס מעריכין ולא נערכין והלכה כרבי יהודה:

Rambam explica o raciocínio por trás de cada posição: Rabi Meir observa que, na mishná anterior, a Torá “ampliou” mais o grupo dos que são objeto do voto de avaliação do que o grupo dos que o fazem — já que o surdo-mudo, o insensato e o menor são avaliados mas não avaliam —, e por isso aplica ao gentio a mesma lógica: ele integra o grupo ampliado (é avaliado), não o grupo restrito (não avalia). Rabi Yehudá parte do caso oposto: o tumtum e o androginos avaliam mas não são avaliados, mostrando que a Torá também ampliou o grupo dos que avaliam além do grupo dos que são avaliados — e aplica essa lógica ao gentio na direção inversa. Rambam decide a lei conforme Rabi Yehudá: o gentio avalia, mas não é avaliado.

Bartenura · Arachin 1:2
הַנָּכְרִי רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר נֶעֱרָךְ. תְּרֵי קְרָאֵי כְתִיבֵי בְּפָרָשַׁת עֲרָכִין, חַד רִבּוּי וְחַד מִעוּט. בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, מִעֵט אֶת הַנָּכְרִים. אִישׁ כִּי יַפְלִיא, רִבָּה כָל אִישׁ וַאֲפִלּוּ נָכְרִי בְּמַשְׁמַע... רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר נָכְרִי מַעֲרִיךְ וְלֹא נֶעֱרָךְ. שֶׁכֵּן מָצִינוּ טֻמְטוּם וְאַנְדְּרוֹגִינוֹס מַעֲרִיכִים וְלֹא נֶעֱרָכִים. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. הִלְכָּךְ נָכְרִי שֶׁאָמַר עֵרֶךְ יִשְׂרָאֵל פְּלוֹנִי עָלָי, חַיָּב לִתֵּן כְּפִי שָׁנָיו הָעֵרֶךְ הַקָּצוּב בַּפָּרָשָׁה. וְיִשְׂרָאֵל שֶׁאָמַר עֵרֶךְ נָכְרִי פְּלוֹנִי עָלָי, אוֹ נָכְרִי שֶׁאָמַר עֶרְכִּי עָלָי, לֹא אָמַר כְּלוּם:

Bartenura confirma que a lei segue Rabi Yehudá: o gentio que disser “a avaliação de tal israelita é sobre mim” é obrigado a pagar a soma fixa da tabela de Vayikrá conforme a idade daquele israelita; mas o israelita que disser “a avaliação de tal gentio é sobre mim”, ou o gentio que disser “minha avaliação é sobre mim”, não disseram nada — o voto de avaliação simplesmente não incide sobre a pessoa do gentio como objeto.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 5b, sobre a Guemará desta mishná
מתני' עובד כוכבים נערך — אם אמר ישראל ערכו עלי נותן ערכו כפי שנים של עובד כוכבים: אבל לא מעריך — אבל אם אמר העובד כוכבים ערכי עלי או ערך אחרים עלי לא אמר כלום: ר' יהודה אומר מעריך — אם אמר על ישראל ערכו עלי: [אבל] לא נערך — שאם אמר ערכי עלי אין לו ערך או אם אמר ישראל ערך עובד כוכבים זה עלי לא אמר כלום:

Rashi esclarece, passo a passo, os quatro enunciados da mishná: para Rabi Meir, um israelita que diz “a avaliação deste gentio é sobre mim” deve pagar conforme a idade do gentio — ele é plenamente avaliado; mas se o próprio gentio tentar fazer o voto, seja sobre si mesmo, seja sobre outra pessoa, não disse nada. Para Rabi Yehudá, o gentio pode fazer o voto de avaliação sobre um israelita, mas se disser “minha avaliação é sobre mim”, sua fala não tem efeito algum — ele não possui a categoria de “avaliado” —, e da mesma forma um israelita que tentar avaliar um gentio também não disse nada.