Todos avaliam e são avaliados, fazem votos e são objeto de votos: sacerdotes, levitas e israelitas, mulheres e escravos. O tumtum e o androginos fazem votos, são objeto de votos, e avaliam, mas não são avaliados, pois só é avaliado o macho certo e a fêmea certa. O surdo-mudo, o insensato e o menor são objeto de votos e são avaliados, mas não fazem votos nem avaliam, porque não têm discernimento. O menor de um mês é objeto de voto, mas não é avaliado.
— Massechet Arachin abre com os dois institutos que lhe dão o nome e que a Torá distingue com cuidado em Vayikrá 27:1–8: o erech (“avaliação”), voto pelo qual alguém se compromete a doar ao Templo a soma fixa que a Torá estabelece para a idade e o sexo de uma pessoa — sem olhar para seu valor real de mercado —, e o damim (“valor”), voto pelo qual alguém se compromete a doar o preço de venda daquela pessoa como escravo no mercado. Cada um desses votos tem dois lados: quem o pronuncia (“avalia” ou “faz voto de valor”) e quem é o objeto dele (“é avaliado” ou “é objeto do voto de valor”), e a mishná ensina que, para sacerdotes, levitas, israelitas, mulheres e escravos, todos os quatro papéis são plenamente válidos. Já o tumtum (de sexo indefinido por órgãos encobertos) e o androginos (que tem características de ambos os sexos) podem fazer os dois tipos de voto e podem ser objeto do voto de valor — que depende apenas do preço de mercado, sem exigir sexo definido —, mas não podem ser objeto do voto de avaliação, pois a tabela de Vayikrá fixa somas diferentes para macho e para fêmea, e por isso exige um sexo certo e determinado. O surdo-mudo, o insensato e o menor podem ser objeto de ambos os votos — já que sua condição não impede que tenham valor de mercado ou idade computável na tabela —, mas não podem eles mesmos fazer nenhum voto, por lhes faltar o discernimento necessário para assumir um compromisso válido. E o menor de um mês pode ser objeto do voto de valor de mercado, mas não do voto de avaliação, porque a própria tabela bíblica só começa a contar a partir de um mês de idade.
Rambam distingue com precisão os dois institutos: o erech (avaliação) segue estritamente a tabela fixa de Vayikrá — soma determinada por idade e sexo, sem relação com o valor real da pessoa —, enquanto o nedher ou damim (voto de valor) obriga a pagar exatamente o que a pessoa valeria se fosse vendida como escravo no mercado. Explica que a menção explícita de “sacerdotes e levitas” era necessária: como eles não estão sujeitos ao resgate do primogênito humano (pidyon haben), poder-se-ia pensar, por analogia, que também não estariam sujeitos ao voto de avaliação — a mishná ensina que essa analogia é falsa, e que sacerdotes e levitas são avaliados como qualquer israelita.
Bartenura explica que “todos” inclui também o menor de treze anos e um dia que ainda não trouxe os dois pelos púbicos, mas já está próximo da maioridade — ele já pode avaliar, desde que se verifique que sabe atribuir corretamente o voto a quem o destina. Explica ainda por que a mishná precisou mencionar explicitamente os sacerdotes: como o versículo 27:8 diz “será apresentado perante o sacerdote, e o sacerdote o avaliará”, poder-se-ia concluir que é sempre o israelita que se apresenta diante do sacerdote, e nunca o próprio sacerdote diante de outro sacerdote — o que o excluiria do grupo dos avaliados. A mishná vem ensinar que não é assim: o sacerdote também é avaliado, e, por decorrência, também os levitas e israelitas foram mencionados.
Rashi define os dois pares de termos técnicos do tratado: “avaliação” (erech) é a soma fixa que a Torá determina segundo a idade de quem é avaliado, enquanto “valor” (damim) é o preço pelo qual aquela pessoa se venderia como escravo no mercado. Observa também que a mulher e o escravo, embora possam fazer e ser objeto de ambos os votos, só efetivam o pagamento mais tarde — a mulher quando se divorcia, o escravo quando é libertado —, já que antes disso seus bens pertencem, respectivamente, ao marido e ao dono.
Rashi explica por que o menor de um mês pode ser objeto do voto de valor mesmo sem ainda ter completado um mês de vida: por menor que seja, ele já tem algum valor de mercado, o que basta para o voto de damim. Já para o voto de avaliação a resposta é puramente textual: a própria parashat arachin, ao enunciar a tabela de valores, começa explicitamente “de um mês e daí em diante” — excluindo por definição qualquer criança mais nova.