Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Alef · Mishná 1 de 4

Todos avaliam e são avaliados — abertura de Massechet Arachin

הַכֹּל מַעֲרִיכִין וְנֶעֱרָכִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quem faz e quem é objeto do voto de avaliação e do voto de valor

Todos avaliam e são avaliados, fazem votos e são objeto de votos: sacerdotes, levitas e israelitas, mulheres e escravos. O tumtum e o androginos fazem votos, são objeto de votos, e avaliam, mas não são avaliados, pois só é avaliado o macho certo e a fêmea certa. O surdo-mudo, o insensato e o menor são objeto de votos e são avaliados, mas não fazem votos nem avaliam, porque não têm discernimento. O menor de um mês é objeto de voto, mas não é avaliado.

— Massechet Arachin abre com os dois institutos que lhe dão o nome e que a Torá distingue com cuidado em Vayikrá 27:1–8: o erech (“avaliação”), voto pelo qual alguém se compromete a doar ao Templo a soma fixa que a Torá estabelece para a idade e o sexo de uma pessoa — sem olhar para seu valor real de mercado —, e o damim (“valor”), voto pelo qual alguém se compromete a doar o preço de venda daquela pessoa como escravo no mercado. Cada um desses votos tem dois lados: quem o pronuncia (“avalia” ou “faz voto de valor”) e quem é o objeto dele (“é avaliado” ou “é objeto do voto de valor”), e a mishná ensina que, para sacerdotes, levitas, israelitas, mulheres e escravos, todos os quatro papéis são plenamente válidos. Já o tumtum (de sexo indefinido por órgãos encobertos) e o androginos (que tem características de ambos os sexos) podem fazer os dois tipos de voto e podem ser objeto do voto de valor — que depende apenas do preço de mercado, sem exigir sexo definido —, mas não podem ser objeto do voto de avaliação, pois a tabela de Vayikrá fixa somas diferentes para macho e para fêmea, e por isso exige um sexo certo e determinado. O surdo-mudo, o insensato e o menor podem ser objeto de ambos os votos — já que sua condição não impede que tenham valor de mercado ou idade computável na tabela —, mas não podem eles mesmos fazer nenhum voto, por lhes faltar o discernimento necessário para assumir um compromisso válido. E o menor de um mês pode ser objeto do voto de valor de mercado, mas não do voto de avaliação, porque a própria tabela bíblica só começa a contar a partir de um mês de idade.

הַכֹּל מַעֲרִיכִין וְנֶעֱרָכִין, נוֹדְרִים וְנִדָּרִים, כֹּהֲנִים וּלְוִיִּם וְיִשְׂרְאֵלִים, נָשִׁים וַעֲבָדִים. טֻמְטוּם וְאַנְדְּרוֹגִינוֹס, נוֹדְרִים וְנִדָּרִים וּמַעֲרִיכִין, אֲבָל לֹא נֶעֱרָכִין, שֶׁאֵינוֹ נֶעֱרָךְ אֶלָּא זָכָר וַדַּאי וּנְקֵבָה וַדָּאִית. חֵרֵשׁ, שׁוֹטֶה וְקָטָן, נִדָּרִין וְנֶעֱרָכִין, אֲבָל לֹא נוֹדְרִין וְלֹא מַעֲרִיכִין, מִפְּנֵי שֶׁאֵין בָּהֶם דָּעַת. פָּחוּת מִבֶּן חֹדֶשׁ, נִדָּר אֲבָל לֹא נֶעֱרָךְ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikrá 27:2–3
דַּבֵּר אֶל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וְאָמַרְתָּ אֲלֵהֶם אִישׁ כִּי יַפְלִא נֶדֶר בְּעֶרְכְּךָ נְפָשֹׁת לַיהֹוָה. וְהָיָה עֶרְכְּךָ הַזָּכָר מִבֶּן עֶשְׂרִים שָׁנָה וְעַד בֶּן שִׁשִּׁים שָׁנָה וְהָיָה עֶרְכְּךָ חֲמִשִּׁים שֶׁקֶל כֶּסֶף בְּשֶׁקֶל הַקֹּדֶשׁ׃
“Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: quando alguém fizer voto explícito segundo tua avaliação de pessoas ao Eterno — será tua avaliação: o macho, de vinte anos até sessenta anos, será tua avaliação cinquenta siclos de prata, pelo siclo do santuário.”
Este é o versículo de abertura da parashat arachin, de onde vem o nome do tratado. Os versículos seguintes (27:4–7) completam a tabela: trinta siclos para a fêmea adulta; vinte para o macho e dez para a fêmea entre cinco e vinte anos; cinco para o macho e três para a fêmea entre um mês e cinco anos; quinze para o macho e dez para a fêmea a partir de sessenta anos. O versículo 27:8 — “e se for pobre demais para tua avaliação, será apresentado perante o sacerdote, e o sacerdote o avaliará” — é a base textual citada por Rambam e Bartenura para a inclusão dos sacerdotes entre os que são avaliados: a Torá pressupõe que o próprio sacerdote pode estar do lado de quem é apresentado, e não apenas do lado de quem avalia.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 1:1
הכל מעריכין ונערכין נודרין ונידרים כהנים ולוים כו': פחות מבן חדש נידר אבל לא נערך כו': הערך הוא שיאמר ערכי עלי או ערך פלוני עלי כשיש לאותו פלוני ערך... והנדר הוא שיאמר דמי עלי או דמי פלוני עלי הרי זה נוטל מה ששוה אותו הנידר כאילו הוא עבד נמכר בשוק... ואמרו כהנים לוים כדי שלא תחשוב שאינן חייבין בערכין הואיל ואינן חייבין בפדיון הבן...

Rambam distingue com precisão os dois institutos: o erech (avaliação) segue estritamente a tabela fixa de Vayikrá — soma determinada por idade e sexo, sem relação com o valor real da pessoa —, enquanto o nedher ou damim (voto de valor) obriga a pagar exatamente o que a pessoa valeria se fosse vendida como escravo no mercado. Explica que a menção explícita de “sacerdotes e levitas” era necessária: como eles não estão sujeitos ao resgate do primogênito humano (pidyon haben), poder-se-ia pensar, por analogia, que também não estariam sujeitos ao voto de avaliação — a mishná ensina que essa analogia é falsa, e que sacerdotes e levitas são avaliados como qualquer israelita.

Bartenura · Arachin 1:1
הַכֹּל מַעֲרִיכִין. הַכֹּל לַאֲתוֹיֵי בֶּן שְׁלֹשׁ עֶשְׂרֵה שָׁנָה וְיוֹם אֶחָד וְלֹא הֵבִיא שְׁתֵּי שְׂעָרוֹת, שֶׁהוּא מַעֲרִיךְ. וְהוּא מֻפְלָא הַסָּמוּךְ לְאִישׁ... כֹּהֲנִים וּלְוִיִּם. כֹּהֲנִים אִצְטְרִיכָא לֵיהּ לְאַשְׁמְעִינַן דְּנֶעֱרָכִין, דְּסָלְקָא דַעְתָּךְ אֲמֵינָא הוֹאִיל וּכְתִיב וְהֶעֱמִידוֹ לִפְנֵי הַכֹּהֵן וְהֶעֱרִיךְ אוֹתוֹ הַכֹּהֵן, יִשְׂרָאֵל לִפְנֵי כֹהֵן וְלֹא כֹהֵן לִפְנֵי כֹהֵן... קָמַשְׁמַע לָן דְּכֹהֲנִים אִיתַנְהוּ בְתוֹרַת עֲרָכִין...

Bartenura explica que “todos” inclui também o menor de treze anos e um dia que ainda não trouxe os dois pelos púbicos, mas já está próximo da maioridade — ele já pode avaliar, desde que se verifique que sabe atribuir corretamente o voto a quem o destina. Explica ainda por que a mishná precisou mencionar explicitamente os sacerdotes: como o versículo 27:8 diz “será apresentado perante o sacerdote, e o sacerdote o avaliará”, poder-se-ia concluir que é sempre o israelita que se apresenta diante do sacerdote, e nunca o próprio sacerdote diante de outro sacerdote — o que o excluiria do grupo dos avaliados. A mishná vem ensinar que não é assim: o sacerdote também é avaliado, e, por decorrência, também os levitas e israelitas foram mencionados.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 2a, sobre o início da Guemará desta mishná
מתני' הכל מעריכין — ערך כתוב בפרשה. (נדר דמי עלי ושמים אותו כעבד הנמכר בשוק): מעריכין — אם אמר על אחד ערך פלוני עלי נותן ערך אותו פלוני כפי שניו שהערך ניתן לפי השנים הכתוב בפ' ערכין ואחר שנות הנערכים הולכים: נערכים — אם אמר ערכי עלי או אם אמר אחר עליו ערך פלוני עלי: נודרין — דמי פלוני עלי: נידרין — דמי עלי או אם אמר אחר עליו דמי פלוני עלי: נשים ועבדים — ומשלמין לאחר זמן כשנתגרשה האשה או נשתחרר העבד:

Rashi define os dois pares de termos técnicos do tratado: “avaliação” (erech) é a soma fixa que a Torá determina segundo a idade de quem é avaliado, enquanto “valor” (damim) é o preço pelo qual aquela pessoa se venderia como escravo no mercado. Observa também que a mulher e o escravo, embora possam fazer e ser objeto de ambos os votos, só efetivam o pagamento mais tarde — a mulher quando se divorcia, o escravo quando é libertado —, já que antes disso seus bens pertencem, respectivamente, ao marido e ao dono.

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 5a, sobre o fechamento da mishná (o menor de um mês)
מתני' פחות מבן חדש נידר — אם אמר אחר דמיו עלי שהרי דמים כל דהו יש לו: אבל לא נערך — שלא נאמר בפרשה אלא מבן חודש ומעלה:

Rashi explica por que o menor de um mês pode ser objeto do voto de valor mesmo sem ainda ter completado um mês de vida: por menor que seja, ele já tem algum valor de mercado, o que basta para o voto de damim. Já para o voto de avaliação a resposta é puramente textual: a própria parashat arachin, ao enunciar a tabela de valores, começa explicitamente “de um mês e daí em diante” — excluindo por definição qualquer criança mais nova.