Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XLI

O D’us de “ânimo longo” trocado pelo de “ânimo curto” — e os dois princípios no Zohar

האֵל אֶרֶך אַפַיִם הֻמַּר בִּקְצַר אַפַיִם — וְשְׁנֵי הָעִקָּרִים בַּזוֹהַר
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

O Sod Yesharim falhou: os cinco partzufim SÃO a divindade — e Ze’ir Anpin é o “neto-do-neto” do Deus verdadeiro que tem “sem corpo, sem membros, sem esposa”. Jeremias já havia advertido: as nações não trocam seus deuses — mas Israel trocou o D’us de “ânimo longo” (erech appayim) pelo “deus de ânimo curto” (katzar appayim) da Cabalá. Este capítulo traz a conclusão da obra: o Zohar reuniu em si o dualismo dos dois princípios (“bem” = Ze’ir+Nukva; “mal” = Sitra Achra com seus próprios dez sefirot) — e essa fé estrangeira é, para Qafih, a própria causa do prolongamento do exílio.

§103 — O Sod Yesharim falhou: os partzufim SÃO a divindade — e Ze’ir Anpin é o “neto” do Deus verdadeiro

(103) E o que aqueles autores do Sod Yesharim não disseram é que quem crê que o Eterno, exaltado seja, seja um corpo e matéria etc. é apenas um ta’eh, erro ingênuo — referindo-se somente a quem acredita e pensa em sua mente que o Santo, bendito seja, que é a Causa Primeira, é um corpo e tem uma forma. Mas eis o perigo real — a doença que não tem cura —: que eles atribuem a adoração a causas criadas, temporais — que são os “deuses sagrados”, os cinco partzufim; e que é proibido servir à Causa Primeira diretamente — só servir ao de “ânimo curto” (Ze’ir Anpin) e sua consorte, e inclui-los com os outros partzufim acima deles. Mas quem serve à Causa Primeira em Sua aspecção simples (que não tem forma corporal) é um equivocado, e sua oração não é oração — pois a adoração só pertence à “configuração reta” que é apreendida em imagem corporal. Mas os círcu­los (iggulim) e o Ein Sof que os envolve — não têm qualquer divindade. E o núcleo da divindade são os partzufim do reto (yosher) — e eles são seres criados.

E as dez pronunciações (ma’amarot) pelas quais o mundo foi criado foram divididas entre eles: “Bereshit” a primeira pronunciação foi atribuído a Atik e Arikh com Abba e Ima — como foi explicado acima em §24, que segundo a primeira interpretação “com o poder de Abba, Arikh estendeu a Elohim, que é Ima”; e segundo a segunda interpretação “com o poder de Abba criou a Elohim, que é Biná, com a divindade depois dela, chamada de ‘céus e terra’ — que são Ze’ir Anpin e sua Nukva, a quem dizem que devemos servir”. E as outras oito pronunciações foram atribuídas a Abba sozinho! E a décima pronunciação — “Façamos o ser humano” — foi atribuída a Ima. Mas Ze’ir e Nukva — a quem devemos servir segundo as palavras deles — não participaram da Criação em nenhuma pronunciação das dez! Como verá o estudioso no Zohar e seus comentaristas. E já te expliquei acima em §25 como os Sábios distanciaram o pensamento de considerar céus e terra como divinos.

Mas eis que a promessa do autor do Sefer haBerit, de que não deveríamos temer a corporealização de D’us — não nos ajudou a escapar da crença em uma multidão de deuses que se auxiliam mutuamente, porque cada um é incapaz por si só e precisa do poder de outro. E ele também nos aconselha a servir ao sagrado “de ânimo curto” (Ze’ir Anpin), e o chama de “Deus Grande” — mas ele é o neto-do-neto-do-neto do Deus Supremo que disse: “Eu sou o Primeiro e Eu sou o Último, e além de Mim não há Deus — Eu sou o Primeiro porque não tenho pai; Eu sou o Último porque não tenho filho; e além de Mim não há Deus porque não tenho irmão.” E sobre esse Deus Supremo diz o Zohar (Behar p. 109): “Tu não tens corpo, não tens membros, não tens esposa — Tu és Um sem mudança.” (E o Rav Az leElohim, cap. 25, escreveu sobre o dito dos Sábios a respeito do versículo “há um e não há segundo, tampouco filho nem irmão — mas irmã ele tem” etc. — veja ali.) E o sumário das palavras deles é: todos os assuntos que apontam para a unidade absoluta nas Escrituras e nas palavras dos Sábios — foram ditos apenas sobre o Deus Supremo, a quem não servimos e a quem não clamamos. Pois Ele não responderá, Deus o livre — como diz o profeta em sua reprimenda a Israel: “Acaso é tão curta a minha mão que não pode resgatar, e se não há poder em Mim”...”

קג) ולא אמרו הנז' שהמאמין שהוא ית' גוף וגויא וכו' אינו אלא במי שהוא מאמין וחושב בדעתו שהשי"ת שהוא הסבא הראשונה הוא גוף ובעל תמונה, ברם דא עקא וחולי שיש בו סכנה ואין לו רפואה כי הוא מיחס העבודה לסבות נבראות מחודשות, הם האלהים הקדושים שהם החמשה פרצופים, ןשאין לעבוד לסבה הראשונה רק לפרצוף קצר האפים (זעיר ונוקביה) ולכלול עמו גם שאר פרצופים שלמעלה ממנו, אבל העובד לסבה הראשונה בבחינתו הפשוטה (שאין לו דמות הגוף) טועה הוא ואין תפלתו תפלה, כי לא תאות העבודה רק לחלק היושר המושג (בציור הגוף). אבל העגולים עם האין סוף המקיף, אין להם שום אלהות כלל, וכל עיקר האלהות הם פרצופי היושר, והם הברואים, ועשרה מאמרות שבהם נברא העולם נתחלקו ביניהם, בראשית שהוא מאמר ראשון נתיחס לעתיק ואריך עם אבא ואימא, כמו שנתבאר לעיל סי' כ"ד דלפי' קמא בכח אבא אריך את אלהים שהיא אימא, ולפירוש בתרא בכה אבא ברא אלהים שהיא בינה את האלוהות שאחריה המכונים בשם שמים וארץ, שהם קצר אפים וזוגתו (זעיר אנפין ונוקביה) אשר העבודה שייכא בהם דווקא. ושאר הח' מאמרות נתיחסו לאבא לבדו! ומאמר עשירי שהוא נעשה אדם, נתיחס לאימא. אבל זעיר ונוקביה אשר אותם ונעבוד לפי דבריהם לא נשתתפו במעשה בראשית בשום מאמר מעשרה מאמרות כאשר יראה המעיין בספר הזהר ומפרשיו. וכבר ביארתי לך לעיל סי' כ"ה איך הרחיקו רז"ל מלחשוב כי שמים וארץ אלוהות הן. והנה הבטחתו של הרב ספר הברית שלא נירא מהגשם, לא הועילה להצילנו מאמונת המון אלוהות רבים הנעזרים זה נזה, כי לא יכול לעשות והוא נצרך לכח אחר, וגם מיעץ אותנו לעבוד את קצר אפים (זעיר אנפין) הקדוש, והוא קורא אותו אלהא רברבא, והוא בן בן בן בנו של האלהים העליון שאמר אני ראשון ואני אחרון ומבלעדי אין אלהים. אני ראשון שאין לי אב, ואני אחרון שאין לי בן. ומבלעדי אין אלהים שאין לי אח, ושעל זה האלהים העליון אמרו בזהר (בחר דף ק"ט) ואנת לית לך גופא. ולית לך איברים ולית לך נוקבא אלא חד בלא שינוי וכו' כמבואר שם ב' רב פעלים (והרב עז לאלהים פרק כ"ה כתב על מאמר רז"ל על פסוק יש אחד ואין שני גם בן ואח אין לו, אבל אחות יש לו כו' ע"ש) וכללות דבריהם כי כל העניינים המורים על האחדות הגמורה בכתובים ובדברי רז"ל לא נאמרו רק על האלהים העליון אשר לא נעבוד אותו ולא נקרא אליו. כי לא יענה ח"ו. כמאמר הנביא מוכיח לישראל הקצור קצרה ידי מפדות ואם אין בי כח הציל וכו'. וכביכול לפי דבריהם הוא משתבח בעצמו בלבד ואינו עושה למבקש ממנו כלום. אבל עיקר העבודה והתפלה היא לקצר אפים. שהוא בגוף ואיברים ובעל אשה הוא. והוא אשר יענה לכל קוראיו ברצון אביו ואמו אשר גידלו אותו ורוממוהו ואעטרו ליה בתרין עטרין עד אשר לו נתכנו עלילות! אבל לעתיקא קדישא לא נתכנו עלילות, והזעיר אנפין הוא אשר נקרא בשם הוי'ה ובשם הקב"ה. ואליו תכון עבודתינו ותפלותינו לפי דבריהם אבל האלוה העליון שהוא יחיד בלי גוף ואיברים ואין לו אשה, לא נקרא אליו ולא נתפלל, והעובד אותו ומתפלל אליו אין תפלתו תפלה ולא יענה אותו. ואדרבא ענוש יענש.
Nota — “Os partzufim são a divindade”: o que a Cabalá realmente afirma. Qafih identifica uma contradição interna no Sod Yesharim: se as Sefirot são luzes criadas (como o Sod Yesharim diz), não faz sentido servir a elas — e nesse ponto ele concorda com o rambam. Mas ele vai além: a Cabalá luriânica torna Ze’ir Anpin o objeto de toda oração, e o Deus verdadeiro (Ein Sof) como inacessível. A resposta cabalídstica a essa crítica seria: os partzufim não são entidades separadas do Infinito — são aspectos de Sua auto-revelação. O Ari (Etz Chaim, Sha’ar haKlalim 1) ensina que todo o sistema dos partzufim é uma descrição de como o Infinito se relaciona com o finito — não uma hierarquia de divindades. O versículo do Zohar que Qafih cita (Behar 109: “tu não tens corpo, membros ou esposa”) é dito no próprio Zohar sobre o Ein Sof — e os cabalistas o usam exatamente para distinguir o Infinito dos partzufim. A questão é se essa distinção é teólogicamente coerente com o monoteíssmo estrito. Esta é a questão mais profunda do Milchamot Hashem.
§104 — Jeremias: as nações não trocam seus deuses — mas Israel trocou o Deus de ‘ânimo longo’

(104) E é isso que o profeta Jeremias clama com toda a garganta, sem parar — como trombeta que levanta a voz em nome do Senhor, dizendo: “Que erro encontraram vossos pais em Mim para que se afastassem de Mim? Pois atravessaram para as ilhas dos Kittim e viram, e a Kedar enviaram e contemplaram muito: acaso aconteceu tal coisa? Acaso trocou uma nação seus deuses — e eles não são deuses? Mas Meu povo trocou Minha glória pelo que não aproveita!” (Yirmiyahu 2:5, 11). Como aprendemos no primeiro capítulo de Ta’anit: “pois duas maldades fez Meu povo: a Mim abandonaram, a fonte de águas vivas, para escavar cisternas próprias, cisternas rachadas” — “pois atravessaram para as ilhas dos Kittim etc.” O taná ensinou: os Kittim adoram o fogo, e os Kedaritas adoram a água — e mesmo sabendo que a água apaga o fogo, não trocaram seus deuses! Mas Meu povo trocou Minha glória pelo que não aproveita!

E agora: os novos cabalistas trocaram o Deus grande, poderoso e temível — compassivo e gracioso, de “ânimo longo” (erech appayim) e grande em bondade, como Ele fez conhecer Seus caminhos a Moisés, Seu servo, e Seus feitos aos filhos de Israel — pelo deus de “ânimo curto” (katzar appayim), sobre quem o profeta Habacuc (como explicado na Idra, trazido acima §45) descreve Atik Yomin rezando e pedindo: “Senhor, Tua obra — que é Ze’ir Anpin — vivifica-a!” E sobre ele sobre Ze’ir Anpin disse o Rei Salomão: “O de ‘ânimo curto’ comete loucura!” (Mishlei 14:17). Ai de tal vergonha, e ai de tal vexame — “jazemos em nossa vergonha, e nossa humilhação nos cobre” (Yirmiyahu 3:25). Pois opiniões estranhas dos idólatras se misturaram à fé de nossa Santa e pura Torá. Ai!

E esta crença dos novos cabalistas é ela própria a fé dos antigos filósofos que eram idólatras, mencionados pelos Sábios no tractado Menachot — e já a mencionei acima em §59: que as nações de “Kargana” ao leste e “Tzor” ao oeste não conhecem Israel nem nosso Pai nos céus, e O chamavam de “Deus dos deuses” — que o Deus Supremo deu o poder e o domínio àqueles deuses sob ele, como explicou ali o Maharsha. E os cabalistas disseram que o poder e o domínio foram dados a Atik Yomin e Arikh Anpin e Abba e Ima, e eles por sua vez deram esse poder a Ze’ir Anpin e sua Nukva para supervisionar o mundo inferior.

E os leviano­s que absorveram em seus corações essas crenças falsas e acreditaram nelas começaram a buscar supôrtes frágeis na Torá, para tirar os versícu­los de seu sentido verdadeiro — dizendo que “Bereshit” é um nome de um deus, e que há duas autoridades, uma criou a outra: “Bereshit criou o Elohim, que são os céus e a terra — Ze’ir e Nukva, que são chamados Elohim.” E que esse deus Ze’ir Anpin se elogia e diz: “O Senhor me disse: tu és Meu filho” — que Ze’ir Anpin se vanglória de que o domínio sobre todas as criaturas procede dele (Zohar Balak p. 191). E interpretações vazias e inconsistentes como essas se espalharam pela mão do rei dos idólatras, entre os sábios-em-seus-próprios-olhos que seguem suas opiniões sem ouvir a voz dos Sábios de nossa geração — que distanciaram tais opiniões e escreveram para o Rei Ptolomeu: “Deus criou o princípio” em vez de “no princípio criou Deus”. E também disseram no capítulo Ein Dorshin: “Perguntou R. Yishmael a R. Akiva quando estavam caminhando pelo caminho” etc. — como foi trazido acima em §24.

קד) הוא שהנביא ירמיה קורא בגרון בלי חשך כשופר מרים קולו בשם ה' לאמר מה מצאו אבותיכם בי עול כי רחקו מעלי כי עברו איי כתיים וראו וקדר שלחו והתבוננו מאד הן היתה כזאת, החמיר גוי אלהיו והמה לא אלהים. ועמי המיר כבודו בלא יועיל. כדגרסינן בפרק קמא דתענית כי שתים רעות עשה עמי אותי עזבו מקור מיים חיים לחצוב להם בורות, בורות נשברים. כי עברו איי כתיים וכו' תנא כתים עובדים לאש וקדרים עובדים למים. ואע"פ שיודעין שהמים מכבין את האש לא הימירו אלהיהם. ועמי המיר כבודו בלא יועיל. הן עתה הימירו המקובלים החדשים את האל הגדול הגבור והנורא אל רחום וחנון ארך אפים וכו' כאשר הודיע דרכיו למשה עבדו ולבני ישראל עלילותיו, באלוה קצר אפים אשר לפי דבריהם אמר עליו הנביא חבקוק מבקש מעתיק לאמר ה' פעלך שהוא זעיר אנפין בקרב שנים חייהו כדאיתא באידרא והובא לעיל סי' מ"ה. ועליו אמר שלמה המלך ע"ה קצר אפים יעשה אולת! אוי לאותה בושה, ואוי לאותה כלמה, נשכבה בבשתינו, ותכסינו כלמתינו. כי נתערבו דעות זרות של עובדי אלילים באמונת תורתינו הקדושה והטהורה. אוי! והדעת הלזו של מקובלים החדשים היא בעצמה אמונת הפילסופים הקדמונים עובדי ע"ז שהזכירו רז"ל במסכת מנחות וכבר הזכרתיה לעיל סי' נ"ט שהגוים מקרגתני כלפי מזרח ומצור כלפי מערב אין מכירין את ישראל ולא את אבינו שבשמים וקרו ליה אלהא דאלהיא! שהאלהים העליון נתן הכח והממשלה לאותן אלוהות שתחתיו כמו שפירש שם מהרש"א ז"ל. והמקובלים אמרו שניתן הכח והממשלה, לעתיק יומין ואריך אנפין ואבא ואימא, והם ג"כ נתנו הכח הנזכר לקצר אפים וזוגתו (זעיר ונוקביה) להשגיח בעולם התחתון. וקלי הדעת אשר קננו בלבם הדעות הכוזבות האלה והאמינו בהם התחילו לבקש להם סמוכות רעועות מן התורה ולהוציא הכתובים ממשמען האמתי לומר כי בראשית שם הוא. ושתי רשויות הן. אחד ברא את השני. בראשית ברא את האלהים שהוא השמים והארץ. זעיר ונוקביה שהם אלהים. ושהאלוה הזה משתבח בעצמו ואומר ה' אמר אלי בני אתה. שהזעיר אנפין משבח את עצמו שהשלטון מלפניו על כל הברואים (זהר בלק דף קצ"א ע"כ). ונתפשטו דרשות של הבל ורעות רוח כאלה על ידי מלך עובדי ע"ז בין האנשים החכמים בעיניהם ההולכים אחר דעתם שלא כדעת חז"ל שהרחיקו דעות אלו וכתבו לתלמי המלך אלהים ברא את בראשית, ועוד אמרו בפרק אין דורשין. שאל רבי ישמעאל את רבי עקיבה כשהיו מהלכין בדרך וכו' כדלעיל סי' כ"ה. כל זה הוצרכו רז"ל להרחיק הדעות הזרות האלה שלא יתערבו בישראל לומר שמים וארץ אלוהות הם.
Nota — Erech appayim vs. katzar appayim: o argumento de Jeremias. O uso de Yirmiyahu 2 por Qafih é teólogicamente penetrante: a acusação bíblica de que Israel trocou o Deus vivo pelos que “não aproveitam” recebe aqui uma nova aplicação. A identificação de Ze’ir Anpin com o “deus de ânimo curto” é baseada em passagens do Zohar e da Idra Rabbá onde Atik Yomin (o Ancião) reza por Ze’ir — e o versículo de Habacuc 3:2 (“Senhor, Tua obra, vivifica-a”) é interpretado cabalísticamente como a reza de Atik por Ze’ir. Os cabalistas responderiam: Ze’ir Anpin é o rosto do Deus de misericórdia voltado ao mundo — o próprio YHVH das Treze Qualidades de Misericórdia (Shemot 34:6-7), que inclui o erech appayim. A tradução de “Bereshit” para o Rei Ptolomeu (“Deus criou o princípio”) é um dado talmúdico real (Meguilá 9a) — mostra a sensibilidade dos Sábios sobre a leitura das “duas autoridades”. O argumento de Qafih é que a Cabalá reviveu exatamente a leitura que os Sábios quiseram evitar.
§105 — Conclusão: o Zohar reuniu os dois princípios — e essa fé prolonga o exílio

(105) E todas essas crenças corrompidas mencionadas — junto com a crença dos que dizem que há duas divindades, uma que produz o bem e outra que produz o mal — foram reunidas nas mãos do instigador, o compositor do Zohar, e ele as chamou de “segredos da Torá.” O que produz o bem em seu sistema: Ze’ir e Nukva com os partzufim acima deles. O que produz o mal: o “lado esquerdo” e sua Nukva, com os partzufim deles. E ao complexo do mal deu o nome de “Homem de Perversidade” (Adam Belial), e os colocou “atrás” das configurações sagradas. E os chama de “Outro Lado” (Sitra Achra), “Lado da Casca” (Sitra deKelipah), “outro deus com dez sefirot.” E deu ao produtor do mal primazia de poder desde a “quebra dos vasos” — como é sabido —, e sustentou suas palavras nas palavras dos Sábios que disseram em Bereshit Rabá que o Santo, bendito seja, “construía mundos e os destruía.” E recobriu essas crenças estrangeiras com neblinas de pureza e nuvens de piedade vã, e confirmou e estabeleceu a existência de “outro deus” que produz o mal — em contradição com as palavras dos Sábios. E atribuiu todas essas crenças corrompidas ao Taná santo Rashbi e a seu filho e seus companheiros, cuja retidão e inteireza e grande sabedoria conhecemos.

E nossos sábios mais tardios foram arrastados após ele de olhos fechados, e pensaram que eram palavras de tradição autêntica. E a partir do início do sexto milênio, após terem sido revelados pela mão do rei dos reis dos gentios idólatras, as crenças corrompidas se multiplicaram e se difundiram. E com as vaidades humanas, em cordas de mentira, foram arrastados muitos sábios de Israel sem notar de onde saíram essas coisas. E foram atrás deles. E desprezaram a tradição de seus pais recebida por Moisés nosso Mestre, que ficou no Monte Sinai quarenta dias e quarenta noites — não comendo pão e não bebendo água, como testemunha nossa Santa Torá. E profanaram a Mishná e o Talmude santo. E os chamaram de “palhada da Torá” e “casca” (kelipá), e “palha que foi dita sobre eles: palha e feno são isentos do dízimo etc.” (Taharot haQodesh p. 41b; Zohar Bereshit), e “servente que destituiu sua senhora” — e os jogaram para trás!

E aguardavam a redenção por meio do seu estudo do Zohar — sem saber que é essa mesma fé estúpida que causa o prolongamento do nosso exílio e nossa subjugação entre as nações. Como disse o profeta Ezequiel em nome do Santo, bendito seja, falando por meio de Coaé e Amram no Egito: “E eu disse a eles: cada homem lance longe as abominações dos seus olhos, e não se contaminem com os ídolos do Egito — e não ouviram” etc. E como expuseram os Sábios no final do último capítulo de Pesachim sobre o versículo “bizer amim kravot yachfatzu” “Ele dispersou os povos que desejam batalhas”, Tehilim 68:31 — quem causou a Israel que se dispersasse entre as nações? Os que desejavam aproximidade delas e foram arrastados atrás de suas crenças corrompidas — como foi dito ao Rei Josafá, rei de Judá (2 Divrei haYamim 20): “Ao te juntares com Acazias, o Senhor rompeu os teus feitos!” Pois o povo de Israel deve habitar isolado, e entre as nações não ser contado — e não se misturar em sua fé pura, e não se contaminar com crenças falsas e forjadas. Pois a fé da Torá e seus pensamentos retos nos guardarão — se nos inclinarmos a ela com olhos abertos e raciocínio reto, no caminho que os Sábios receberam, na Mishná e no Talmude Bavli e Yerushalmi e nos Midrashim dos Sábios de abençoada memória.

קה) והדעות הנפסדות הנזכרים עם דעת השונים האומרים שני אלוהות יש אחד פועל הטוב ואחד פועל הרע. אסף בחפניו המסית מחבר הזהר ויקרא להן סתרי תורה. ופועל הטוב אצלו זעיר ונוקביה עם הפרצופים שלמעלה ממנו. ופועל הרע שמאל ונוקביה עם הפרצופים שלהם. וקרא לו שם אדם בליעל. ושפ מקומם אחורי פרצופים דקדושה. וקורא להם שם סטרא אחרא, סטרא דקליפה, אל אחר בעל עשר ספירות, ונתן לפועל ברע דין קדימה על פועל הטוב בהיותו משבירת הכלים כידוע, ותלה דבריו בדברי חז"ל שאמרו בבראשית רבה שהיה הקב"ה בונה עולמות ומחריבן, וחיפה דעות זרות אלו בערפלי טוהר וענני חסידות של הבל, וקיים ואימת מציאות אל אחד פועל הרע, היפך דברי רז"ל. יוחס את כל הדעות הנפסדות להתנא הקדוש רשב"י ובנו וחביריו אשר ידענו צדקתם ושלימותם וחכמתם הרבה. ורבותינו האחרונים נמשכו אחריו בעצימת עינים וחשבו אותן שהן דברי קבלה אמתית, ומתחלת אלף השישי אחר שנתגלו על ידי מלך ממלכי הגוים עכו"ם פרו וישרצו הדעות הנפסדות. ובהבלי אדם בעבותות שקר נמשכו אחריהן הרבה מחכמי ישראל מבלי שים לב מאין יצאו הדברים. וינהו אחריהם. וימאסו במשנת אבותיהם אשר קיבל משה רבינו ע"ה, ועמד בהר סיני ארבעים יום וארבעים לילה להם לא אכל ומים לא שתה כעדות תורתינו הקדושה, ויחללו את המשנה ואת התלמוד הקדוש. ויקראו להם תבנא דאוריתא וקליפה, ומוץ דילה דאתאמר בהון מוץ ותבן פטורים מן המעשר וכו' (טהרת הקדש דף מ"א ב' זהר בראשית) ושפחה כי תירש גברתה, וישליכום אחרי גום! ויצפו לגאולה על ידי עסקם בזהר, ולא ידעו כי היא בעצמה האמונה התפילה הלזו היא הגורמת אריכות גלותינו ושעבודינו בין הגוים כמו שאמר הנביא יחזקאל בשם השי"ת ואומר להם (פי' במצרים על ידי קהת ועמרם) איש שקוצי עיניו השליכו ובגלולי מצאים אל תטמאו ולא שמעו וכו' וכמו שדרשו רז"ל בסוף פרק ערבי פסחים על בזר עמים קרבות יחפצו, מי גרם להם לישראל שיתפזרו בין אוה"ע קריבות שהיו חפצים בהם, שדרשו אותו מלשון נקבה והתחברות להם בדיעותיהם הנפסדות, והוא על דרך מאמר הכתוב ביהושפט מלך יהודה (ד"ה ב' כ) בהתחברך עם אחזיהו פרץ ה' את מעשיך! כי עם ישראל לבדד ישכון, ובגוים לא יתחשב ויתערב באמונתו הטהורה, ולא יתגאל באמונות כוזבות מזוייפות, לפי שאמונת התורה ודעותיה הישרים תנצרנו אם משכיל בה בעינים פקוחות ושכל ישר על דרך שקבלו רז"ל במשנה ובתלמוד בבלי וירושלמי ומדרשי רז"ל הקדמונים.
Nota — a conclusão: o Zohar e o exílio. A tese final de Qafih — de que o estudo do Zohar causa o prolongamento do exílio — é a afirmação mais polêmica de toda a obra. é uma tese que inverte a afirmação cabalídstica canônica: o Ari, o Ramchal, o Vilna Gaon viam o Zohar como o livro da redenção por excelência. O Ya’avetz (Mitpachat Sefarim), que criticou parte do Zohar como edições tardias, não chegou a essa conclusão. A interpretação de Qafih do versículo de Pesachim (“eles foram arrastados atrás das crenças das nações”) como referência à Cabalá é incomum — o contexto talmúdico original fala de assimilação às culturas estrangeiras, não a movimentos espirituais internos. Já a descrição do Sitra Achra como “outro deus com dez sefirot” é ténica e historicamente precisa como descrição do sistema zohárico — mas os cabalistas diferenciam: o Sitra Achra não é uma divindade rival independente, é a ausência ou máscara do bem divino. A conclusão de Qafih — que a fé pura da Mishná e do Talmude protegerá Israel — é a mensagem central do Dor Deah, e um chamado à identidade racional judaica.

Sobre este capítulo · עִיּוּן

O argumento do “neto de D’us” e a divindade criada

O argumento mais penetrante de §103 é que o próprio Zohar (Behar 109) afirma que o Deus verdadeiro não tem “corpo, membros nem esposa” — e que sobre esse Deus verdadeiro ninguém pode rezar, porque Ze’ir Anpin (filho-do-filho-do-filho dele) é quem responde às preces. Qafih usa o Zohar contra ele mesmo: o próprio texto zohárico diz que o Ein Sof verdadeiro é absolutamente transcendente e que Ze’ir Anpin é um ser relacional. Os cabalistas responderiam que “transcendente” não significa “separado”: o Ein Sof é a base de toda existência, e Ze’ir Anpin é o modo como o Infinito é experienciado na relação — como uma mão que toca é parte do mesmo ser que pensa. A questão é se essa distância pode ser mantida conceitualmente sem escorregar para o poliíssmo.

Jeremias e a troca do Deus de “ânimo longo”

A análise de §104 mostra Qafih como exegeta ténico: os Kittim adoram fogo, os Kedaritas adoram água, e mesmo sabendo que água apaga fogo não trocaram seus deuses — mas Israel é acusado de ter feito o inverso. O erech appayim (“ânimo longo”) é um dos Treze Atributos de Misericórdia de Shemot 34 — o núcleo da revelação sinaitica sobre o caráter de D’us. Os cabalistas diriam que Ze’ir Anpin É o portador desses atributos no mundo — que os Treze Atributos são a descrição de Ze’ir Anpin em modo relacional. O slogan “erech/katzar appayim” de Qafih é uma simplificação retórica, mas ilustra bem o problema: quando o sistema cabalídstico representa Ze’ir como “de ânimo curto” em comparação a Arikh (“de ânimo longo”), isso cria uma escala de divindades com qualidades diferentes — que para Qafih contraria o monoteísmo estrito.

Os dois princípios, o Sitra Achra e a acusação de dualismo

A acusação de §105 de que o Zohar defende um dualismo (bem = Ze’ir+Nukva; mal = Sitra Achra com dez sefirot próprios) é teôlogicamente séria e foi debatida dentro da própria tradição cabalídstica. O Ramchal (Derech Hashem II:2) defendeu que o Sitra Achra não tem existência positiva própria — é a ausência de luz divina, como a sombra não tem existência própria. O Ari também não o vê como um deus rival independente. Mas o sistema de tohu (caos), “quebra dos vasos” e as contra-forças (kelipot) com sua própria estrutura sefirótica levou crticos como Qafih a vê-lo como dualismo funcional. A citação do Zohar chamando o Sitra Achra de “outro deus” com dez sefirot é textualmente precisa — e é um dos pontos mais delicados da teologia zohárica.

A conclusão: exílio e fé pura

A solução proposta por Qafih — retornar à fé racional da Mishná, do Talmude e dos Midrashim dos Sábios — é a mensagem central do Dor Deah. A visão iemenita que ele representa valoriza a via do Rasag, do Rambam e do Chovot haLevavot como o caminho autêntico da Torá — uma fé que une a razão e o coração sem a mediaçã das estruturas sefiróticas. Para Qafih, é essa fé limpa e racional que constitui a originalidade e a força de Israel entre as nações. A maioria de Israel discorda da conclusão sobre o Zohar — mas o chamado à integridade teôlogica e à claríadeza sobre o que se adora reverbera além dos limites do Dor Deah.