Milchamot Hashem · Rav Yichya Qafih · Capítulo XVIII

Voltamos à Mishná: a defesa do Dor Deah

אַל תִּטֹּשׁ תּוֹרַת אִמֶּךָ
Rav Yichya Qafih (1850–1931) · hebraico de domínio público (Wikisource) · tradução original · PT-BR

Qafih volta-se ao interlocutor com um repto — "a qual Ein Sof tu oras? de quem recebeste esta tradição?" — e, depois, faz algo raro nesta obra: conta, em primeira pessoa, como o seu círculo (o Dor Deah) devolveu a Sana'a o estudo da Mishná, do Talmud e do Rambam, contra o costume de então, de ler o Zohar à noite "sem entender".

"A qual Ein Sof tu oras?"

(41) E quanto ao teu engrandecer-te e glorificar-te a ti mesmo, e ao teu exaltares-te contra o "Senhor dos céus", a pretexto de expor, perante a multidão, que conheces o "assentar-se e o erguer-se" do Rei dos reis dos reis, o Santo bendito — e a tomar para ti o Nome, e a dizer "mas a nossa tradição" etc. —: eis que não nos informaste a qual Ein Sof tu oras (pois há vários tipos de Ein Sof), e tampouco esclareceste de quem recebeste esta tradição. E, de início, não foi sobre a tua tradição que o questionador te perguntou; e por que haverias de responder não conforme o assunto — ao contrário das palavras do Zohar e dos cabalistas? — como está dito explicitamente no Kisé Eliyahu (p.15b): “porém, o assunto da bênção a Ele, bendito seja o Seu Nome — não é a intenção dirigi-la à essência do 'Senhor único', bendito, D'us nos livre, pois Ele está elevado acima de toda bênção”. E assim escreveu o Sefer haBrit (no segundo ensaio): que o Ein Sof, na sua condição simples — aquela de que falaram os filósofos —, tal que não se lhe aplica culto nem oração, pois, nesta condição, Ele está elevado e exaltado acima de toda bênção e louvor, e nele se anula todo mandamento, toda Torá e todo culto — vê ali. E, visto que esta tua "tradição" que mencionaste é o contrário das palavras do Zohar e dos cabalistas — Mikdash Melech, Kisé Eliyahu, Matzref ha-Emuná, Yosher Levav, Mishnat Chasidim, o Rashash, Maharchu no Etz Chaim, Sefer haKavanot, Machberet haKodesh, Sefer haBrit e o AR"I no Sefer haLikutim —, se assim, "tolo e néscio" é que te chamarão! Sobre que motivo guerreias tu contra os que estudam a Torá, com mexerico, delação e língua maligna? E por que os desprezas? Será por não tartamudearem e pipilarem no livro do Zohar como tu — mas apenas se apegarem à Mishná, ao Talmud e aos posekim? Pois sobre isto é que se separaram de estudar nos livros da Cabala nova — já que ela só chegou a nós "da mão de filhos estrangeiros", como está explicado no Shem haGedolim do Chid"a, e na glosa vinda de Jerusalém em nome do Rav mencionado e em nome do Rav YShR, como se explicará adiante. E, na opinião de muitos e grandes dos nossos sábios,

מא) ועל התגדלך והתפארך בעצמך, והתרוממת על מרי שמיא לדרוש בהמון כי ידעתו שבתו וקומו של ממ"ה הקב"ה וליטול את השם ולאמר אבל קבלתנו וכו', הנה לא הודעתנו אל איזה א"ס אתה מתפלל, כי כמה מיני א"ס יש, וגם לא בארת ממי קבלת קבלה זו. ומעיקרא לא על קבלתך שאלך השואל, ולמה לך להשיב שלא כענין, היפך דברי הזהר והמקובלים כמ"ש לעיל, וכמ"ש בהדיא בכסא אליהו דף ט"ו ע"ב וז"ל: "אמנם ענין הברכה לו ית"ש אין הכוונה לעצמות אדון יחיד ב"ה חלילה חלילה, כי הוא מרומם מעל כל ברכה" ע"כ, וכ"כ ספר הברית במאמר שני כי הא"ס בבחינתו הפשוטה אשר דיברו הפילוסופים (הכופרים) שלא שייך בו שום עבודה ותפילה, על כי הוא בבחינה זאת נעלה ומרומם מכל ברכה ותהילה, ובטלה כל מצוה וכל תורה ועבודה, עי"ש ועוד יתבאר לפנינו. וכיון שקבלתך זו שהזכרת היא היפך דברי הזהר והמקובלים מקדש מלך וכסא אליהו ומצרף האמונה ויושר לבב ומשנת חסידים והרש"ב ומהרח"ו בעץ חיים וספר הכוונות ומחברת הקודש וספר הברית והאר"י בספר הליקוטים, א"כ הוי שוטה וסכל יקראו לך! על מה אתה נלחם בלומדי תורה ברכילות ומלשינות ולה"ר? ועל מה אתה מבזה אותם? העל שאינם מהגים ומצפצפים בספר הזהר כמוך? רק מחזיקים במשנה ותלמוד ופוסקים? הן על זה פירשו מללמוד בספרי הקבלה החדשה כי רק מיד בני נכר הגיעה אלינו כמבואר בספר שם הגדולים להר"ר חיד"א. ובגיליון הבא מירושלים בשם הרב הנזכר ובשם הרב יש"ר וכמו שיתבאר להלן. ולדעת רבים וגדולים מחכמינו
"Sábio sem sabedoria"

isto é minut heresia. E por isso fixamos todo o nosso estudo na Mishná, no Talmud e nos posekim — conforme a instrução de Rav Hai Gaon (trazida na responsa do Rashb"a e no Mevo haTalmud), de que não há coisa boa para Israel como o trato da Mishná e do Talmud —; isto é para nós há mais de trinta anos. E, com a soberba do vosso coração, fizestes ouvir, em grande assembleia, que nós somos minim e hereges — por não estudarmos no Zohar e nos Tikkunim. Eis que agora se esclareceu para nós, das vossas respostas, que não sabeis dos livros de Israel coisa alguma — nem dos midrashim dos Sábios, nem do Talmud, nem da própria Cabala nova! — conforme o dito de R. Yehudá ibn Tibbon, na abertura do segundo portão do livro Chovot haLevavot, em nome do Mivchar haPeninim: “quem se faz sábio sem sabedoria é como o jumento do moinho — gira e gira, e não se move do seu lugar”. E ali ainda: “não digas, sobre o que não sabes, ''eu sei'' — não vás a ser suspeito também no que sabes; e disseram os sábios: quem é néscio e pensa que sabe — a sua necedade é dobrada”. Ó pastores maus, que desviam o povo com as suas mentiras, e se têm por sábios aos seus próprios olhos! Sábios sois para fazer o mal, e para profanar o Senhor e a Sua Torá! E numa religião verdadeira, que não conhecestes, pretendeis negociar — fazendo dela um machado para cavar "cisternas rotas que não retêm as águas", conforme o dito do profeta (Michá 3:5): “assim disse o Senhor, sobre os profetas que desencaminham o meu povo, que mordem com os seus dentes e proclamam 'paz', mas, contra quem não lhes põe algo na boca, declaram guerra”. E, da tua resposta, se reconhece que não conheceste senão um só Ein Sof, que circunda toda a existência; e não soubeste que há vários tipos de Ein Sof nas palavras dos cabalistas, e que não se deve dirigir a intenção, ao orar ao Ze'ir Anpin, senão a fazer fluir do Ein Sof oculto em Keter apenas — mas o Ein Sof que está "mais e mais alto", nenhum pensamento o apreende, e não se deve dirigir a oração a ele, como se escreveu acima em nome do R. Chaim Vital (no livro Arba Me'ot Shekel Kesef) e do Sefer haBrit.

הוי מינות. ולכן קבענו כל לימודנו במשנה ותלמוד ופוסקים, כהוראת רב האי גאון המובא בתשובת הרשב"א ובמבוא התלמוד שאין טוב לישראל כעסק המשנה והתלמוד, זה לנו יותר משלושים שנה. ובזדון לבכם השמעתם בקהל רב כי אנחנו מינים וכופרים על שאין אנו לומדים בזהר ותיקונים. הן עתה נתברר לנו מתשובותיכם כי לא ידעתם מספרי ישראל מאומה, לא במדרשי רז"ל ולא בתלמוד ולא בקבלה החדשה. כמאמר ר' יהודה בן תיבון בפתיחה לשער השני מספר חובת הלבבות בשם מבחר הפנינים: "מי שמתחכם מבלי חכמה הוא כחמור הריחיים, סובב סובב ואינו זז ממקומו". עוד שם: "אל תאמר במה שלא ידעת - ידעתי, פן תחשד במה שידעת, ואמרו החכמים: מי שסכל וחשב שידע סכלותו כפולה", עכ"ל. הוי רועים רעים המטעים את העם בשקריהם, ומחשיבים עצמם לחכמים בעיניהם! חכמים אתם להרע ולחלל את השי"ת ואת תורתו! ובדת אמת אשר לא ידעתם אותה על בריה תסחרו, להיות לכם לקרדום לחפור בה בורות נשברים אשר לא יכילו המים, כמאמר הנביא (מיכה ג' ה'): "כה אמר ה' על הנביאים המתעים את עמי, הנשכים בשניהם וקראו שלום. ואשר לא יתן אל פיהם, וקדשו עליו מלחמה". ומתשובתך ניכר שלא ידעת רק אין סוף אחד המקיף את כל המציאות. ולא ידעת שיש כמה מיני אין סוף בדברי המקובלים, ושאין לכוון בהתפללו לזעיר אנפין רק להמשיך מאין סוף הגנוז בכתר בלבד. אבל האין סוף אשר הוא לעילא לעילא לית מחשבה תפיסה ביה כלל ואין לכוון תפילתו אליו, כמ"ש לעיל בשם הרח"ו בספר ארבע מאות שקל כסף וספר הברית.
Nota — "sábio sem sabedoria". O tom aqui é de polêmica pessoal, mas o ponto de fundo é sério: Qafih acusa o interlocutor de proclamar o que não domina — citando o Mivchar haPeninim (via ibn Tibbon): "quem se faz sábio sem sabedoria é como o jumento do moinho, que gira sem sair do lugar". Por baixo da invectiva está a sua convicção central — que a fé exige conhecimento real, examinado, e não a repetição de fórmulas. As caracterizações duras ("pastores maus", a aplicação de Michá 3:5) são retórica de combate; lemo-las como tais.
O critério, e o apelo ao co-religionista

(42) Desvia-te, ó leitor agradável, destas crenças imaginadas; e vê o que escreveu um dos pilares da instrução haláquica, sobre os quais se apoia a casa de Israel — a saber, Rabbenu, o Rosh, de abençoada memória, no cap. "haShochet" do tratado de Chulin (e as suas palavras foram trazidas no Mevo haTalmud): “e é razoável que toda Tossefta que não se divulgou senão depois da ordenação da Guemará não é fidedigna; pois, presumivelmente, já que os sábios de Israel quiseram fazer uma obra que subsistisse, com verdade, investigaram, esquadrinharam e revolveram para conhecer todos os livros que foram escritos sobre as palavras dos sábios, e selecionaram aqueles que são fidedignos”. E vê acima (seções 12 e 13): escreveu R. Saadia Gaon, cujas palavras concordam com as palavras do Rosh. E quanto ao que se anotou no Mevo haTalmud, na glosa, mandando ver no Rosh — a saber, que o Rambam não entenderia assim —, já assentou o R. Beit Yossef as palavras do Rambam (que decidiu conforme a Tossefta); e assim é a versão do texto no Rambam em manuscritos antigos. E resulta que também o Rambam assim entende. E, segundo isto, todos concordam que toda obra atribuída a algum Tana ou Amora, que só se divulgou depois da ordenação da Guemará, não é fidedigna — como disseram no Yerushalmi, que toda mishná que não entrou na "reunião" autorizada não é mishná. E, se assim é a tua crença — de que todas as nossas orações e cultos vão à Causa Primeira, que é o "Senhor D'us verdadeiro", a cujo princípio não há princípio, e que é Ele quem tirou os nossos pais do Egito, e cuja glória se revelou sobre eles no Monte Sinai, ao nos dar a Torá, e ao dizer "Eu sou o Senhor teu D'us ... não terás outros deuses diante de mim" —: se assim,

מב) נטה לך קורא נעים מהאמונות המדומות האלה. וראה מה שכ' אחד מעמודי הוראה אשר בית ישראל נשענים עליהם הוא רבי' הראש ז"ל במס' חולין פ' השוחט והובאו דבריו במבוא התלמוד וז"ל ומסתברא שכל תוספתא שלא נתפשטה עד אחר סידור הגמרא לאו דסמכא היא דמסתמא כיון שרצו חכמי ישראל לעשות חבור קיימא אמת. חקרו ודרשו וחיזרו לידע כל הספרים שנכתבו על דברי חכמים וביררו אותם שהם בר סמכא עכ"ל. ועיין לעיל סי' י"ב וי"ג כ' הר' סעדיה גאון שדבריו מסכימים לדברי הרא"ש. ומה שכ' המניה במבוא התלמוד בגיליון לעיין בהרא"ש דהרמב"ם לא ס"ל הכי כבר ישב הר' ב"י דברי הרמב"ם שפסק בהתוספתא ושגם מסדר הגמרא סבירא ליה כהתוספתא ושגירסת הרמב"ם בגמרא שהה כמיעוט סימנים וכבר הביאה אבי' לעיל שהה כדי שיגביה הבהמה וירביצנה וישחוט מיעוט הסימנים. וכן היא הגירסא בהרמב"ם כ"י ישנים. ונמצא שגם הרמב"ם הכי ס"ל, וכבר העיר על זה ג"כ המ"מ הנדפס מחדש. ולפי זה כולי עלמא מודו שכל חיבור המיוחס לשום תנא או אמורא שלא נתפשט רק אחר סידור הגמ' לאו דסמכא הוא. וכמו שאמרו בירושלמי שכל משנה שלא נכנסה לחבורה אינה משנה. כמו שכתבתי לעיל סי' י"ב. ואם כך היא אמונתך שכל תפלותינו ועבודותינו לסבה הראשונה שהוא ה' אלהים אמת אשר אין ראשית לראשיתו והוא שהוציא את אבותינו ממצרים וכבודו נגלה עליהם בהר סיני בתתו לנו את התורה ואמר אנכי ה' אלהיך, לא היה לך אלהים אחרים על פני וכו' א"כ
Nota — o apelo ao co-religionista. Depois do critério textual (o Rosh: obras que só se difundiram após o Talmud não têm peso de tradição firme), vem o apelo mais humano do capítulo: se tu crês — como dizes — na Causa Primeira que tirou Israel do Egito e deu a Torá no Sinai, por que então atacas os que estudam Mishná e Talmud dia e noite, chamando-os de hereges? A força está em apontar a contradição entre a fé que o interlocutor professa e a sua hostilidade contra o próprio campo racionalista. (A acusação de que o Zohar veio "da mão de um gentio" é a tese de autoria de Qafih — contestada; cf. cap. XII.)
"Não abandones a Torá da tua mãe"

por que desprezas os que são da tua própria fé, que se ocupam dia e noite na Mishná e no Talmud, e por que os chamas minim e apikorsim — e por que reforças as mãos de estranhos em prol da tua crença, que se sustenta "em filhos estrangeiros", a saber, o livro do Zohar, entregue a Israel da mão de um gentio, e atribuído ao Rashbi, o Tana, falsamente? E o bom e o aprazível para nós é apegarmo-nos à fé dos nossos antigos, na unidade do Senhor, sem "combinação" nem "associação" — para cumprir "e não abandones a Torá da tua mãe", "e não a desprezes, ainda que envelheça a tua mãe"; quero dizer, que não desprezes nem zombes da fé dos nossos antigos na unidade do Senhor, e não menosprezes os seus livros, ainda que se tenham gasto e envelhecido — não como fizeram nos tempos da Idade Média, quando os menosprezaram e os perderam, e fizeram deles "capas" para livros novos, impressos; e há quem os vendeu por preço muito baixo. E com os meus próprios olhos vi um dos filhos do nosso povo que trocou o livro Moré Nevuchim, em manuscrito, na língua árabe — que vale hoje para nós dois ou três zehuvim — por um livro de pequena quantidade e qualidade, impresso, que vale meio rial. E muitos da nossa gente venderam livros antigos, que herdaram dos seus pais, a "incircuncisos" que vieram à terra do Iêmen — como um certo Moshe ben Netanel, que se assentou na casa do meu mestre Avraham Tzalach: e este mesmo lhe vendeu, então, Nevi'im e Ketuvim com o Targum de Yonatan ben Uziel sobre os Nevi'im, e o Tafsir tradução árabe de R. Saadia Gaon sobre Yeshayahu e os Ketuvim, e também uma Mishná com o comentário do Rambam em árabe (Seder Kodashim, em escrita primorosa, com ilustrações da nossa Casa sagrada e gloriosa e dos utensílios do santuário, no tratado de Midot). E com os meus olhos a vi na sua mão — eu e o falecido meu mestre, Yichya Korach, de abençoada memória —, e não esteve em nosso poder tirá-la da sua mão. E, até agora, falta-nos o Seder Kodashim e o Seder Nashim da Mishná em manuscrito, com o comentário do Rambam. E não foram só estes que lhe venderam, pois muitos livros em manuscrito, antigos, se venderam a ele e a outros por preço baixo — pois estavam nas suas mãos "como objeto que não se deseja", e não sabiam lê-los.

למה תבזה את בעלי אמונתך העוסקים יומם ולילה במשנה ובתלמוד ותקרא להם מינים ואפיקורסים ותחזיק ידי זרים לאמונתך אשר בילדי נכרים ישפיקו הוא ספר הזהר הנמסר לישראל מיד גוי ויחסוהו לרשב"י התנא בשקר. והטוב והנאות לנו להחזיק באמונת קדמונינו ביחוד השי"ת בלי צירוף ושתוף. לקיים ואל תטוש תורת אמך, ואל תבוז כי זקנה אמך. רצוני לומר שלא תבוז ותלעיג על אמונת קדמונינו ביחוד השי"ת ולא תזלזל בספריהם אף על פי שבלו והזקינו ונתישנו. לא כאשר עשו בימי הבינים שזלזלו בהם ואיבדו אותן ועשו אותן כריכות לספרים חדשים המודפסים. ויש שמכרו אותן בזול מאד. ובעיני ראיתי אחד מבני עמנו שהחליף את ספר מורה הנבוכים כ"י בלשון ערבי השוה לנו עתה שנים ושלשה זהובים בספר קטן הכמות והאיכות מודפס שוה חצי ריאל. והרבה מהמונינו מכרו ספרים ישנים שירשו מאבותיהם לערלים שבאו לארץ התימן כמשה בן נתנאל שישב בבית מ"ו אברהם צאלח. והוא בעצמו מכר לו אז נביאים וכתובים עם תרגום יונתן בן עוזיאל על נביאים. ותר' ר' סעדיה גאון ערבי על ישעיה ועל כתובים. גם משנה עם פי' הרמב"ם בערבי ס' קדשים בכתב מפואר עם ציורי בית קדשינו ותפארתינו וכלי הקדש במסכת מדות. ובעיני ראיתיה בידו אני והמנוח מו"ר יחיא קרח זלה"ה. ואין לאל ידינו להוציאה מתחת ידו. ועד עתה חסר לנו סדר קדשים ונשים מהמשנה כ"י עם פי' הרמב"ם ז"ל. ולא אלו בלבד מכרו לו. כי הרבה ספרים כתבי יד עתיקים נמכרו לו גם לזולתו בזול. כי היו בידם ככלי אין חפץ בו ולא היו יודעים לקרות בהם
O Dor Deah em Sana'a

E nós é que fizemos esforço pela Torá dos nossos pais, para que não se esquecesse de Israel, na "cidade de louvor" — Sana'a: pois fixamos o nosso estudo na Mishná com o comentário do Rambam em árabe, e nos comentários de Rasa"g Saadia Gaon sobre a Escritura, com o Talmud e os posekim. E, antes, não se estudava, em todas as casas de assembleia, nas noites, senão no livro do Zohar — sem entender, como é notório; e se vangloriavam de que estudaram, naquela noite, tantas e tantas páginas. E o estudo da Mishná e do Talmud era "caro" raro naqueles dias — "não havia visão divulgada". E apenas de manhã estudavam um pouco de Mishná, diante do meu mestre Yossef Korach, de abençoada memória, com o comentário de R. Ovadiá de Bertinoro, na casa de assembleia dos Sharabi — e o início do nosso estudo foi ali; e, depois, também diante do seu filho, o grande rav Chaim Korach, à noite; e muitos dos esclarecidos do nosso povo vinham a estudar. E, depois, começamos a estudar o comentário do Rambam em árabe, nas noites de Shabat, a partir da meia-noite. E então se esforçou a nossa mão — o falecido meu mestre Chaim Alaksar — para copiar a Mishná com o comentário do Rambam; e outros dos esclarecidos também se esforçaram para escrevê-los e estudar neles. E a coisa se estendeu, de modo que também nalgumas casas de assembleia se emularam para fazer como o nosso feito — conforme o dito dos Sábios, "a inveja dos escribas aumenta a sabedoria"; e estudaram também a introdução do Rambam ao Seder Zera'im, e os Treze Princípios que Rabbenu escreveu no décimo capítulo de Sanhedrin, com bom discernimento, e entenderam neles, e nas palavras de R. Saadia Gaon e do Chovot haLevavot — que se colocam contra as palavras do Zohar e dos cabalistas novos.

ואנן הוא דעבדינן לתורת אבותינו שלא תשתכח מישראל בעיר תהלה צנעא, כי קבענו למודינו במשנה עם פי' הרמב"ם בערבי. ופירושי רס"ג במקרא עם תלמוד ופוסקים. ומקודם לא היו לומדים בכל בתי כנסיות בלילות כי אם בספר הזהר בלי הבין כמפורסם. והיו משתבחים בעצמם שלמדו באותה לילה כך וכך דפים. ולימוד המשנה והתלמוד היה יקר בימים ההם אין חזון נפרץ. ורק בבקר לומדים מעט משנה לפני מו"ר יוסף קרח ז"ל עם פי' ר' עובדיה בבית הכנסת שרעבי. ותחלת לימודנו היה שם, וגם אחרי כן לפני בנו הרה"ג כמו"ר חיים קרח ז"ל בלילה. ורבים ממשכילי עמנו היו באים ללמוד. ואחרי כן התחלנו ללמוד פירוש הרמב"ם בערבי בלילי שבת מחצות. ואז נשתדל ידינו המנוח מו"ר חיים אלכסאר לכתוב לו משנה בפי' הרמב"ם ז"ל. ואחרים מהמשכילים גם הם נשתדלו לכתבם וללמוד בהם. ונמשך הדבר שגם בקצת בתי כנסיות נתקנאו לעשות כמעשנו כמאמר רז"ל קנאת סופרים תרבה חכמה. ולמדו גם כן הקדמת הרמב"ם לסדר זרעים ושלש עשרה עיקרים שכ' רבינו בפרק עשירי דסנהדרין בשום שכל ויבינו בהם ובדברי ר' סעדיה גאון וחובת הלבבות שהם עומדים נגד דברי הזהר והמקובלים החדשים.
Nota — um retrato do Dor Deah por dentro. Este é um raro testemunho de primeira mão sobre a fundação das reformas de estudo do Dor Deah em Sana'a. Qafih descreve o programa: estudar a Mishná com o comentário judaico-árabe do Rambam, o Tafsir de Saadia Gaon, o Talmud, os posekim e os Treze Princípios — em lugar do costume então vigente, de ler o Zohar à noite "sem entender", contando páginas. É também um registro melancólico da perda de manuscritos antigos do Iêmen (incluindo um Moré Nevuchim em árabe e uma Mishná ilustrada do Seder Kodashim), vendidos a baixo preço a forasteiros. Lê-se como história viva de um movimento — na voz do seu próprio líder.

Sobre esta seção · עִיּוּן

O repto

O capítulo abre devolvendo ao interlocutor a sua própria postura: ele proclama-se conhecedor dos "segredos", mas não diz a qual Ein Sof ora (há vários, no sistema) nem de quem recebeu a sua "tradição" — e, ainda assim, ataca com delação os que estudam Mishná e Talmud. Para Qafih, professar sem saber é "ser sábio sem sabedoria": o jumento do moinho, que gira sem sair do lugar.

O critério e o apelo

Vem então o critério textual (o Rosh: obras que só se difundem após o Talmud não têm o peso de tradição firme) e, sobretudo, um apelo: se crês na Causa Primeira que tirou Israel do Egito, por que hostilizar os teus próprios e exaltar o Zohar? O coração do apelo é o verso "não abandones a Torá da tua mãe" — fidelidade à fé recebida dos antigos.

O Dor Deah em Sana'a

A parte mais singular é histórica: Qafih conta, em primeira pessoa, como o seu círculo devolveu a Sana'a o estudo da Mishná com o comentário judaico-árabe do Rambam, do Tafsir de Saadia, do Talmud e dos Treze Princípios — onde antes só se lia o Zohar à noite, "sem entender". É um retrato vivo, e por vezes melancólico (a venda de manuscritos antigos a baixo preço), de um movimento de reforma do estudo.

Uma leitura sóbria

As palavras de combate — "pastores maus", o Zohar "da mão de um gentio" — são posições de Qafih num conflito real, e a tradição cabalística as rejeita. Apresentamo-las como documento do debate, sem as fazer nossas. O que fica, acima da polêmica, é o seu ideal positivo: uma fé que se entende, fundada na Mishná, no Talmud, no Rambam e em Saadia.