O capítulo final de Keter Malchut é o Vidui — a confissão. Depois de percorrer os céus, os elementos e a alma, o poeta volta-se inteiramente para dentro: implora misericórdia, admite não ter mérito próprio algum, e fecha o poema inteiro com uma grande doxologia e o versículo de Tehilim que também encerra a Amidá.
1 Meu D'us, se meu pecado é grande demais para ser suportado, que farás por Teu grande Nome?
2 E se eu não esperar em Tua misericórdia, quem terá compaixão de mim, além de Ti?
3 Por isso, se me matares, em Ti esperarei; e se buscares meu pecado, fugirei de Ti para Ti,
4 e me cobrirei de Tua ira sob Tua sombra, e à orla de Tua misericórdia me apegarei, até que Te compadeças de mim,
5 e não Te soltarei senão quando me tiveres abençoado.
6 Lembra-Te, pois, que como barro me fizeste, e com estas provações me experimentaste.
7 Por isso não me julgues segundo meus atos, e não me faças comer o fruto de minhas obras.
8 E sê longânimo comigo, e não apresses meu dia, até que eu prepare o mantimento para voltar ao meu lugar.
9 E não Te firmes contra mim para apressar-Te a expulsar-me da terra, com os restos de minhas culpas atados aos meus ombros.
10 E quando ergueres na balança os meus pecados, põe Tu, no outro prato, as minhas aflições;
11 e ao lembrares minha maldade e minha rebeldia, lembra minha pobreza e meu vaguear, e põe estas coisas em face daquelas.
12 E lembra-Te, meu D'us, de que já faz tanto tempo que me enrolaste rumo à terra do errante, e no forno do exílio me provaste,
13 e da abundância de minha maldade me refinaste; e sei que para o meu bem me experimentaste, e com fidelidade me afligiste,
14 e para me fazeres bem no meu porvir me trouxeste à prova das aflições.
15 Por isso, meu D'us, que se comovam sobre mim as Tuas misericórdias, e não consumas sobre mim o Teu furor.
16 E não me retribuas segundo os meus feitos, e dize ao anjo destruidor: basta!
17 E que mérito, que vantagem tenho eu, para que busques o meu pecado
18 e ponhas sobre mim vigilância, e me caces como a um antílope na rede?
19 Não é certo que a maior parte dos meus dias já passou e já não é? E os que restam se consumirão em seu pecado?
20 E se hoje estou diante de Ti, eis-me aqui — amanhã Teus olhos me buscarão, e já não existirei.
21 E agora, por que haveria eu de morrer, para que me devore este grande fogo?
22 Meu D'us, põe os Teus olhos sobre mim para o bem, no restante dos meus poucos dias, e não persigas os sobreviventes e os que escaparam,
23 e o resto que ainda ficou do granizo das minhas confusões, que não o devore o gafanhoto das minhas culpas.
24 Pois criatura das Tuas mãos sou eu; e que Te aproveita que a larva me leve para comer o trabalho das Tuas mãos, quando comer?
25 Seja da Tua vontade, Ado-nai meu D'us, voltar a mim com misericórdia, e fazer-me voltar em teshuvá completa diante de Ti.
26 E para a minha súplica, prepara o meu coração e inclina o Teu ouvido.
27 E abre o meu coração com a Tua Torá, e planta nos meus pensamentos o Teu temor.
28 E decreta sobre mim boas decisões, e anula sobre mim as decisões más.
29 E não me tragas à provação, nem à desonra.
30 E de todos os infortúnios maus, salva-me; e até que passe a calamidade, esconde-me sob a Tua sombra.
31 E está com a minha boca e com a minha meditação, e guarda os meus caminhos, para que não peque com a minha língua.
32 E lembra-Te de mim com a lembrança e o favor de Teu povo, e na reconstrução do Teu Salão,
33 para eu ver o bem dos Teus escolhidos; e concede-me buscar o Teu Santuário — desolado e destruído —
34 e apaziguar as suas pedras e o seu pó, e os torrões das suas ruínas; e que Tu reconstruas as suas desolações.
35 Meu D'us, sei que os que suplicam diante de Ti são amparados pelas boas obras que praticaram antes,
36 ou pelos seus atos de justiça que elevaram; mas eu não tenho em mim nem justiça, nem retidão,
37 nem bondade, nem integridade, nem súplica, nem qualidade boa, nem serviço, nem teshuvá.
38 Por isso não escondas de mim a Tua face, e não me lances para longe de diante de Ti.
39 E quando, no seu tempo, me fizeres sair deste mundo, à vida do Olam HaBá traze-me em paz,
40 e com os piedosos, com honra me farás sentar, e com os contados na eternidade, contarás o meu quinhão entre os vivos.
41 E para que eu seja iluminado pela luz da Tua face, torna-me digno; e de novo me farás viver,
42 e das profundezas da terra de novo me farás subir.
43 E direi: eu Te agradeço, Ado-nai, pois embora Te tenhas irado contra mim, a Tua ira se afastará e Tu me consolarás.
44 E a Ti, Ado-nai, pertence a bondade, por todo o bem que me concedeste,
45 e que até o dia da minha morte me concederás; e no Teu temor puro, ó D'us único, fortalece-me,
46 e na Tua Torá perfeita, dá-me força.
47 E por tudo isto, estou obrigado a agradecer, a louvar, a enaltecer, a glorificar e a exaltar, a bendizer e a santificar e a proclamar Uno o Teu Nome grande, poderoso e temível.
48 Pela boca dos retos serás bendito; e pela língua dos piedosos serás santificado;
49 e em meio aos santos serás louvado; e pela assembleia dos erelim serás glorificado e enaltecido.
50 Serás louvado pela boca dos Teus misericordiosos; serás santificado pela boca dos Teus santos;
51 serás exaltado pela boca dos Teus anjos; serás proclamado Uno pela boca dos que Te proclamam Uno;
52 serás elevado pela boca dos que Te elevam — pois não há como Ti entre os deuses, meu Senhor, e não há como as Tuas obras.
53 E em meio aos acampamentos das chayot, dos ofanim, dos querubins e dos vigilantes santos, serás elevado e serás exaltado nos céus, do alto,
54 e serás proclamado Uno pela boca dos que Te proclamam Uno, com temor e tremor, pelo Teu povo Israel — um só povo nos céus, do alto, e na terra, embaixo: não há outro.
55 "Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração diante de Ti, Ado-nai, minha Rocha e meu Redentor."
Este capítulo final é o Vidui — a confissão — que dá a Keter Malchut a sua função litúrgica precisa na noite e no dia de Yom Kipur. O poema percorreu um longo arco: começou louvando os atributos de D'us (capítulos II a IV), atravessou a arquitetura do cosmos — os elementos, as esferas, os planetas — e desceu até a alma humana e o exame de consciência (capítulo V). Agora, no capítulo final, o poeta abandona a contemplação cósmica e volta-se inteiramente para dentro: já não fala do universo, mas de si mesmo, da sua culpa, do seu medo da morte e da sua esperança de misericórdia. É este movimento — da grandeza de D'us à pequenez do suplicante — que faz de Keter Malchut, ao mesmo tempo, um tratado filosófico e uma oração.
O verso "lembra-Te, pois, que como barro me fizeste" (v.6) ecoa diretamente Yeshayahu 64:7 — "וְאַתָּה יֹצְרֵנוּ וַאֲנַחְנוּ חֹמֶר" ("e Tu és o nosso Oleiro, e nós somos o barro") — e também a parábola da casa do oleiro em Yirmiyahu 18, onde o profeta observa o oleiro remodelar o vaso malfeito em suas mãos. A imagem funciona duplamente: é um apelo à compaixão (o barro não pode ser responsabilizado como o oleiro que o formou) e, ao mesmo tempo, um reconhecimento de que o próprio sofrimento — "o forno do exílio", "a abundância de minha maldade" que refina — tem função purificadora, como o fogo que o oleiro usa para dar firmeza ao vaso.
No terceiro segmento, a súplica pessoal por teshuvá desemboca numa súplica coletiva: o poeta pede para "buscar o Teu Santuário — desolado e destruído" e "apaziguar as suas pedras e o seu pó, e os torrões das suas ruínas" — linguagem que recorda Tehilim 102:15, "כִּי רָצוּ עֲבָדֶיךָ אֶת אֲבָנֶיהָ וְאֶת עֲפָרָהּ יְחֹנֵנוּ" ("pois Teus servos amam as suas pedras, e têm piedade do seu pó"). Ibn Gabirol escreveu no século XI, na Espanha muçulmana, quase mil anos depois da destruição do Segundo Templo — de modo que este trecho transforma a teshuvá individual do suplicante em anseio nacional e messiânico pela reconstrução de Jerusalém, situando o poema dentro da experiência concreta do exílio judaico medieval.
O fecho do capítulo (vv. 47–54) é uma grande doxologia estruturada como uma cadeia de verbos de louvor — bendito, santificado, louvado, glorificado, exaltado, proclamado Uno, elevado — repetidos e distribuídos entre diferentes classes de seres celestes: os retos, os piedosos, os santos, os erelim, os anjos, as chayot, os ofanim, os querubins, os "vigilantes santos" (eirin kadishin, termo aramaico que remete ao livro de Daniel), e por fim o próprio povo de Israel. A estrutura — uma sucessão de verbos causativos de louvor aplicados ao Nome divino — evoca deliberadamente a cadência do Kadish ("יִתְגַּדַּל וְיִתְקַדַּשׁ... יִתְבָּרַךְ וְיִשְׁתַּבַּח וְיִתְפָּאַר וְיִתְרוֹמַם..."), mas não é uma citação do Kadish: é uma composição poética original de ibn Gabirol, que constrói sua própria litania de louvor no mesmo espírito litúrgico, coroando o poema com uma afirmação final da unicidade de D'us — "um só povo nos céus, do alto, e na terra, embaixo: não há outro."
A última linha do poema, "Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração diante de Ti, Ado-nai, minha Rocha e meu Redentor," é citação direta de Tehilim 19:14 (numeração massorética; por vezes citado como 19:15) — o mesmíssimo versículo que fecha a Amidá, a oração central da liturgia judaica, recitado três vezes ao dia. Ao encerrar Keter Malchut com este versículo, ibn Gabirol enquadra todo o poema — que começou com o título e o prefácio, atravessou o cosmos inteiro e terminou nesta confissão — dentro da moldura formal da própria oração diária judaica, fazendo do poema não apenas uma composição literária, mas uma tefilá completa, do início ao fim.
Com este capítulo se fecha Keter Malchut: da invocação inicial e do louvor aos atributos de D'us (capítulos II–IV), pela arquitetura do cosmos — os quatro elementos, as esferas celestes, os planetas, o intelecto e a alma — até o exame de consciência do capítulo V e, por fim, a confissão, a súplica pelo retorno e a doxologia final deste capítulo VI. É a ars poetica clássica do piyut sefaradita: elevar-se pela contemplação da grandeza divina para depois descer, com mais humildade ainda, ao reconhecimento da própria pequenez — e é exatamente esse movimento, do cosmos ao coração contrito, que faz de Keter Malchut a peça central da liturgia penitencial de Yom Kipur até hoje.