Kad HaKemach · Introdução do Autor

Introdução

הַקְדָּמַת הַמְּחַבֵּר
Rabeinu Bachya ben Asher (c. 1255–1340) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

Nas suas próprias palavras, Rabeinu Bachya explica por que escreveu esta obra, por que a chamou "A Jarra de Farinha" e por que organizou seus sessenta capítulos segundo a ordem do alfabeto hebraico.

Título

1 Introdução do Gaon, o autor, Rabeinu Bachya, de abençoada memória.

הַקְדָּמַת הַגָּאוֹן הַמְחַבֵּר רַבֵּנוּ בְּחַיֵּי זַ"ל
Um livro para uma geração cansada

2 Este é um livro para a geração que o busca — para os de força já gasta, cansados pelo exílio e pelas tribulações, que nele encontrarão descanso. Pois, por causa das agruras, os pensamentos se confundem, os corações se obstruem e os que compreendem se tornam poucos, estando os homens como que presos em armadilhas para capturar-lhes os pés, com o mundo pesando sobre eles. Seus corações se acham em aperto — o impulso os aperta e o intelecto se lhes aproxima — para que possam contemplar e subir a escada.

De longe, avistam-se elevações sobre os montes do Talmud, precioso mais que ouro e do que muitas pérolas, sobre o qual se apoiam os fundamentos da religião — na explicação dos mandamentos, das permissões e dos julgamentos. E na terra dos ribeiros de derashot e agadot encontrarão um regato de reflexões e repousos tranquilos — quão agradáveis lhes são os midrashim! Ainda que, para alguns poucos, certas passagens lhes pareçam ter dificuldades. Levantarão ramos, darão frutos velhos e também novos, pois são santidade das santidades; suas águas são águas sem fim, e a alma de todos anseia por elas.

זֶה סֵפֶר דּוֹר דּוֹרְשָׁיו, יְגִיעֵי כֹחַ דּוֹר יְעֵפֵי הַגָּלוּת וְהַצָּרוֹת יִמְצְאוּ בוֹ מָנוֹחַ, כִּי עַל אוֹדוֹת הַתְּלָאוֹת יִתְבַּלְבֵּל הָרַעְיוֹנִים, וְיִסְתְּתְמוּ הַלְּבָבוֹת וְיִתְמַעֲטוּ הַמְּבִינִים, בִּהְיוֹתָם בְּמוֹקְשִׁים לָצוּד אֶת רַגְלָם וְכָבֵד עֲלֵיהֶם עוֹלָם, כִּי יַעַמְדוּ בְּמֵצַר לִבָּם יֵצֶר וְיִקְרַב שִׂכְלָם, לְהִתְבּוֹנֵן וְלַעֲלוֹת בַּסֻּלָּם, מִגָּבוֹהַּ יֵרָאוּ מַעֲלוֹת עַל הָרֵי הַתַּלְמוּד הֶחָמוּד מִזָּהָב וְרַב פְּנִינִים, אֲשֶׁר יְסוֹדֵי הַדָּת עָלָיו נִשְׁעָנִים, בְּבֵאוּר הַמִּצְוֹת וְהֶתֵּר וְדִינִים, וּבְאֶרֶץ נַחֲלֵי דְרָשׁוֹת וְאַגָּדוֹת יִמְצְאוּ נַחַל עִיּוּנִים וּמְנוּחוֹת שַׁאֲנַנִּים, מַה נָּעֲמוּ לָהֶם הַמִּדְרָשִׁים, אַף כִּי לִיחִידִים יֵרָאוּ לָהֶם בְּקְצָתָם שֳׁרָשִׁים. יִשְׂאוּ עָנָף יַעֲשׂוּ פֵּרוֹת יְשָׁנִים גַּם חֲדָשִׁים, כִּי הֵם קֹדֶשׁ קָדָשִׁים, מֵימֵיהֶם מַיִם שֶׁאֵין לָהֶם סוֹף, נֶפֶשׁ הַכֹּל אֲלֵיהֶם תִּכְסוֹף.
O propósito e o nome — "A Jarra de Farinha"

3 Por isso, quis compor esta composição, para fazer brotar, no cajado das derashot, um broto — e chamei este livro de nome Kad HaKemach — "A Jarra de Farinha". Dela se alimentarão todos os famintos por ouvir a palavra de D'us; dela subirão, aproximando-se do altar de D'us, do santuário que está ao mais interior — alimento para os que estão presos na casa de D'us, em vinte e dois capítulos rimados, entrelaçados em alguns dos mandamentos da Torá e presos aos ramos das virtudes. E os capítulos estão repletos de pedras preciosas, buscadas pelos que as procuram, pois em número são sessenta — sessenta são as coisas necessárias ao homem para sua conduta, coisas que narram a glória de D'us e Sua santidade.

4 Ali mencionarei a fé do homem e o assunto de seu serviço e as demais de suas virtudes; ali explicarei as festividades de D'us e alguns de Seus mandamentos. E os discípulos e companheiros que desejam a proximidade de D'us — ali entenderão e terão discernimento e não tropeçarão, pois correrão; ali verão a morada do D'us antigo, e para seus lugares de repouso se recolherão; ali verão o caminho pelo qual devem andar e a obra que devem fazer. E porque será um caminho pavimentado, apressará o que pesquisa a encontrar seu desejo com facilidade.

עַל כֵּן רָצִיתִי לְחַבֵּר הַחִבּוּר הַזֶּה לְהַצְמִיחַ בְּמַטֵּה הַדְּרָשׁוֹת צֶמַח, וְהֶעֱלֵיתִי שֵׁם זֶה הַסֵּפֶר כַּד הַקֶּמַח, מִשָּׁם יִזּוֹנוּ כָּל רְעֵבִים לִשְׁמֹעַ אֶת דְּבַר הָאֵל, מִשָּׁם יַעֲלוּ יִגְּשׁוּ אֶל מִזְבַּח אֵל, הַהֵיכָל הָעוֹמֵד לִפְנִים וְלִפְנִים, מָזוֹן לִכְלוּא בֵּיהּ בְּעֶשְׂרִים וּשְׁנַיִם טוּרִים חֲרוּזִים, בִּקְצָת מִצְוֹת הַתּוֹרָה מִסְתַּבְּכִים וּבְעַנְפֵי מִדּוֹת נֶאֱחָזִים, וְהַטּוּרִים מְלֵאִים אַבְנֵי חֵפֶץ לִמְבַקְשֵׁיהֶם דְּרוּשִׁים, כִּי הֵם בְּמִסְפָּרָם שִׁשִּׁים, שִׁשִּׁים הֵמָּה הַדְּבָרִים הַצְּרִיכִים לָאָדָם לְהַנְהָגָתוֹ, דְּבָרִים מְסַפְּרִים כְּבוֹד אֵל וּקְדֻשָּׁתוֹ, שָׁם אַזְכִּיר אֱמוּנַת הָאָדָם וְעִנְיַן עֲבוֹדָתוֹ וְיֶתֶר מִדּוֹתָיו, שָׁם אֲבָאֵר מוֹעֲדֵי ה' וּקְצָת מִצְוֹתָיו, וְהַתַּלְמִידִים וְהַחֲבֵרִים אֲשֶׁר קִרְבַת אֱלֹהִים יֶחְפָּצוּן, שָׁם יָבִינוּ וְיַשְׂכִּילוּ וְלֹא יִכָּשְׁלוּ כִּי יָרוּצוּן, שָׁם יִרְאוּ מְעוֹנָה אֱלֹהֵי קֶדֶם אֶל מְעוֹנוֹתָם יִרְבָּצוּן.
A ordem alfabética

5 E como quis que a obra desta minha composição fosse organizada segundo o alef-bet, para que cada mandamento e cada virtude se encontrasse sob uma letra própria — e quando o homem se despertar e erguer a cabeça, e desejar buscar, olhará para estas rubricas que estão escritas nas páginas do livro, e elas o guiarão a subir pelo caminho elevado: aquele que se encontra para todos os que o buscam, que é procurado por todo aquele que pergunta — aquele que sobe à Casa de D'us.

וְיַעַן יִהְיֶה עַל דֶּרֶךְ סְלוּלָה, יְמַהֵר הַמְעַיֵּן לִמְצֹא חֶפְצוֹ עַל נְקַלָּה, רָצִיתִי לִהְיוֹת מְלֶאכֶת חִבּוּרִי זֶה בְּאָלֶ"ף בֵּיתָ"א מְצֻמֶּדֶת, יִמְצָא כָּל מִצְוָה וְכָל מִדָּה בְּאוֹת מְיֻחֶדֶת. וְכַאֲשֶׁר יִתְעוֹרֵר הָאָדָם וְיָרִים רֹאשׁ, וְיִרְצֶה לִדְרֹשׁ, יִסְתַּכֵּל בַּכְּתֻבּוֹת הָאֵלֶּה אֲשֶׁר הֵם כְּתוּבִים בְּדַפֵּי הַסֵּפֶר, וְהֵם יַדְרִיכוּהוּ לַעֲלוֹת בַּמְסִלָּה הָעֶלְיוֹנָה, הִיא הַנִּמְצֵאת לְכָל מְבַקְשֶׁיהָ, הַנִּדְרֶשֶׁת לְכָל שׁוֹאֵל, הִיא הָעוֹלָה בֵּית אֵל.

Sobre esta introdução · עִיּוּן

O título e o gênero literário

O nome Kad HaKemach — "A Jarra de Farinha" — remete ao milagre da jarra de farinha da viúva de Tzarfat que não se esgotava enquanto alimentava o profeta Eliyahu (I Reis 17:8-16). Rabeinu Bachya sugere que sua obra funcionará da mesma forma: uma fonte inesgotável de sustento espiritual para o leitor, "para que não faltasse a jarra de farinha nem se esvaziasse a vasilha de azeite". A obra reúne sessenta e um ensaios (o autor menciona "sessenta" na introdução, contagem que variou ligeiramente nas edições manuscritas), cada um dedicado a uma virtude, um mandamento ou um conceito central da vida religiosa judaica — organizados alfabeticamente, à maneira de um dicionário de valores.

Contexto histórico

Rabeinu Bachya ben Asher escreveu no início do século XIV, em Saragoça, no reino cristão de Aragão — um período de crescente pressão sobre as comunidades judaicas ibéricas. A introdução reflete essa realidade: fala de "uma geração cansada pelo exílio e pelas tribulações" que busca "descanso" nos ensinamentos da tradição. A obra funciona, portanto, tanto como compêndio ético-halákico quanto como literatura de consolação para uma comunidade sob pressão.

A estrutura alfabética

A escolha de organizar a obra pelo alef-bet não é meramente mnemônica. Segue uma tradição literária judaica — presente em partes de Tehilim (como o Salmo 119) e em Eichah — que associa a ordem alfabética à totalidade: percorrer o alfabeto é percorrer a plenitude da linguagem, e por extensão, da experiência religiosa. Cada letra recebe um ou mais conceitos: assim, sob a letra alef (א) encontram-se emuná (fé) e ahavá (amor); a confiança (bitachon) recebe a letra bet (ב); a providência (hashgachá), a letra hei (ה). Este é o plano que o autor apresenta nesta introdução, e que a presente edição segue, capítulo a capítulo.