Sefer HaIkkarim · Maamar II · Capitulo 6

A vontade divina e a criacao

הָרָצוֹן הָאֱלֹהִי וּבְרִיאַת הָעוֹלָם
Rav Yosef Albo (1380–1444) · hebraico de dominio publico · traducao original PT-BR

D'us criou o mundo por ato livre de vontade, ou o mundo emana de D'us por necessidade — assim como a luz emana do sol sem que o sol "decida" iluminar? Esta questao — criacao por vontade (bechirah) vs. emanacao por necessidade (hechreach) — e uma das mais disputadas da filosofia judaica medieval, e Albo a examina como shoresh do primeiro ikar.

O problema: emanacao ou criacao?

Os filosofos neoplatonicos, e alguns interpretes de Aristoteles, defendiam que o mundo emana de D'us por necessidade — assim como o calor emana necessariamente do fogo. Nesta visao, D'us nao "criou" o mundo num momento especifico; o mundo e eterno como D'us, coexistindo com Ele necessariamente. A implicacao: D'us nao tem escolha sobre criar ou nao — a criacao e uma extensao necessaria da Sua natureza. Albo rejeita isso categoricamente, por tres razoes. Primeiro: contraria o texto de Bereshit — "No principio D'us criou" pressupoe um comeco temporal, logo nao eternidade. Segundo: se D'us nao tem escolha, D'us e um escravo da Sua propria natureza — e um D'us que e escravo nao e o D'us da Tora. Terceiro e mais profundo: se o mundo e necessario, a providencia (incluindo milagres, profecia, revelacao) torna-se impossivel — pois providencia requer que D'us possa intervir, o que pressupoe vontade livre.

הַפִּילוֹסוֹפִים הַנֵּיאוֹ-אַפְלָטוֹנִים טָעֲנוּ שֶׁהָעוֹלָם שׁוֹפֵע מֵהָאֵל בְּהֶכְרֵחַ. אַלְבּוֹ דּוֹחֶה זֹאת בְּשָׁלוֹשׁ סִיבוֹת. רִאשׁוֹן: מְנַגֵּד לְטֶקְסְט שֶׁל בְּרֵאשִׁית. שֵׁנִי: אִם אֵין לָאֵל בְּחִירָה, הָאֵל הוּא עֶבֶד לְטִבְעוֹ שֶׁלּוֹ. שְׁלִישִׁי וְעַמֻּק יוֹתֵר: אִם הָעוֹלָם הַכְרָחִי, הַהַשְׁגָּחָה הוֹפֶכֶת לִבְלְתִּי אֶפְשָׁרִית.
Nota — Rambam, Moreh Nevuchim II:25 sobre criacao e milagre

O Rambam no Moreh Nevuchim II:25 formula o argumento que Albo adapta: se o mundo fosse eterno e necessario, todas as leis da Tora cairiam — pois a Tora pressupoe milagres, e milagres pressupõem que D'us pode alterar a ordem natural, o que pressupoe que essa ordem e fruto de vontade livre e nao de necessidade. O Rambam nao prova a criacao ex nihilo filosoficamente (ele considera a prova impossivel) — mas mostra que a Tora depende logicamente dela. Albo e mais ousado: ele tenta uma prova positiva baseada na vontade divina.

A vontade de D'us — um atributo especial

Albo argumenta que a vontade (ratzon) de D'us e um atributo que requer tratamento especial. Nos atributos anteriores (unidade, incorporeidade, atemporalidade, onisciencia), Albo seguiu o programa rambamiano de atributos negativos — o que esses atributos negam, nao o que afirmam positivamente. Mas a vontade de D'us tem uma estrutura diferente: ela e o fundamento da possibilidade de toda a relacao entre D'us e o mundo. Sem vontade livre, nao ha relacao — ha apenas necessidade mecanica. A vontade de D'us nao e idêntica a vontade humana (que e desejo de algo que falta), mas e analoga: e a capacidade de D'us de agir ou nao agir em relacao ao mundo por razoes que D'us mesmo determina. Albo usa aqui o conceito de cheshek (desejo intelectual) em oposicao a ta'ava (desejo sensorial) — a vontade de D'us e analogia do primeiro, nao do segundo.

אַלְבּוֹ טוֹעֵן שֶׁהָרָצוֹן שֶׁל הָאֵל הוּא תְּכוּנָה הַדּוֹרֶשֶׁת טִיפּוּל מְיֻחָד. בַּתְּכוּנוֹת הַקּוֹדְמוֹת עָקַב אַלְבּוֹ אַחַר תָּכְנִית הָרַמְבַּ"ם שֶׁל תְּכוּנוֹת שְׁלִילִיּוֹת. אֲבָל לָרָצוֹן שֶׁל הָאֵל יֵשׁ מִבְנֶה שׁוֹנֶה: הוּא הַיְּסוֹד שֶׁל אֶפְשָׁרוּת כָּל קֶשֶׁר בֵּין הָאֵל וְהָעוֹלָם. בְּלִי רָצוֹן חוֹפְשִׁי אֵין קֶשֶׁר — יֵשׁ רַק הֶכְרֵחַ מֶכָנִי.
A criacao ex nihilo como fundamento da liberdade

Albo conclui o capitulo com uma inversao elegante: a criacao ex nihilo — que parece ser um problema filosofico (como pode algo surgir do nada?) — e na verdade a condicao de possibilidade da liberdade humana. Se o mundo emana de D'us por necessidade, tudo no mundo — incluindo as escolhas humanas — e necessario. A liberdade humana seria uma ilusao. Mas se D'us criou livremente por ato de vontade, entao a liberdade esta inscrita na propria estrutura da criacao desde o inicio. D'us criou livremente seres que tambem agem livremente — a liberdade humana e um reflexo da liberdade divina. Esta conexao entre ratzon Hashem (vontade de D'us) e bechirat ha'adam (livre-arbitrio humano) e a chave do sistema do Sefer HaIkkarim: o primeiro ikar (existencia de D'us) fundamenta o terceiro (revelacao divina) atraves do segundo (Tora do ceu) precisamente porque um D'us com vontade livre pode querer revelar Sua Tora, e um ser humano com livre-arbitrio pode escolher ouvir.

אַלְבּוֹ מַסְכִּים אֶת הַפֶּרֶק בְּהֶיפּוּך אֶלֶגַנְטִי: הַבְּרִיאָה יֵשׁ מֵאַיִן — שֶׁנִּרְאֵית כְּבְּעַיָּה פִּילוֹסוֹפִית — הִיא בְּאֶמֶת תְּנַאי לְאֶפְשָׁרוּת הַחֵרוּת הָאֱנוֹשִׁית. אִם הָעוֹלָם שׁוֹפֵע מֵהָאֵל בְּהֶכְרֵחַ, כָּל דָּבָר בָּעוֹלָם — כּוֹלֵל בְּחִירוֹת אֱנוֹשִׁיּוֹת — הֶכְרָחִי. אֲבָל אִם הָאֵל בָּרָא חוֹפְשִׁית בְּמַעֲשֵׂה רָצוֹן, הַחֵרוּת חֲקוּקָה בְּמִבְנֵה הַבְּרִיאָה מֵהַהַתְחָלָה. הָאֵל בָּרָא חוֹפְשִׁית יְצוּרִים שֶׁגַּם הֵם פּוֹעֲלִים חוֹפְשִׁית.

Sobre este capitulo · עִיּוּן

Albo e o debate sobre a eternidade do mundo

O debate sobre a eternidade do mundo (kadmut ha'olam) vs. criacao no tempo (chidush ha'olam) foi o mais acirrado da filosofia judaica medieval. Aristoteles defendia a eternidade; a Tora afirmava a criacao. O Rambam tentou mostrar que a prova aristotelica e inconclusiva e que a Tora deve prevalecer na ausencia de prova. Hasdai Crescas (Or Hashem, c. 1410, uma geracao antes de Albo) atacou o aristotelismo pela raiz. Albo encontra um caminho intermediario: aceita a impossibilidade de prova filosofica da criacao, mas mostra que a criacao por vontade e necessaria para a coerencia do sistema halakhico-teologico judaico. Nao e uma prova da criacao — e uma demonstracao de que o judaismo pressupoe e requer a criacao.

A vontade como o atributo mais "pessoal" de D'us

De todos os atributos divinos que Albo examina no Maamar II, a vontade e o mais proximo da experiencia pessoal humana da relacao com D'us. A unidade, incorporeidade e atemporalidade sao atributos que estabelecem a transcendencia de D'us — a distancia entre Ele e o mundo. Mas a vontade aponta para a imanencia — a capacidade de D'us de agir no mundo, de responder a oracoes, de enviar profetas, de revelar a Tora. Sem o atributo da vontade, D'us seria o Deus dos filosofos — perfeito, imutavel, mas alheio. Com a vontade, D'us e o Deus de Avraham, Yitzchak e Yaacov — que age na historia, que ouve, que responde. O programa do Sefer HaIkkarim e mostrar que o Deus dos filosofos e o Deus da Biblia sao o mesmo — o Maamar II e o movimento que transita de um para o outro.