D'us criou o mundo por ato livre de vontade, ou o mundo emana de D'us por necessidade — assim como a luz emana do sol sem que o sol "decida" iluminar? Esta questao — criacao por vontade (bechirah) vs. emanacao por necessidade (hechreach) — e uma das mais disputadas da filosofia judaica medieval, e Albo a examina como shoresh do primeiro ikar.
Os filosofos neoplatonicos, e alguns interpretes de Aristoteles, defendiam que o mundo emana de D'us por necessidade — assim como o calor emana necessariamente do fogo. Nesta visao, D'us nao "criou" o mundo num momento especifico; o mundo e eterno como D'us, coexistindo com Ele necessariamente. A implicacao: D'us nao tem escolha sobre criar ou nao — a criacao e uma extensao necessaria da Sua natureza. Albo rejeita isso categoricamente, por tres razoes. Primeiro: contraria o texto de Bereshit — "No principio D'us criou" pressupoe um comeco temporal, logo nao eternidade. Segundo: se D'us nao tem escolha, D'us e um escravo da Sua propria natureza — e um D'us que e escravo nao e o D'us da Tora. Terceiro e mais profundo: se o mundo e necessario, a providencia (incluindo milagres, profecia, revelacao) torna-se impossivel — pois providencia requer que D'us possa intervir, o que pressupoe vontade livre.
O Rambam no Moreh Nevuchim II:25 formula o argumento que Albo adapta: se o mundo fosse eterno e necessario, todas as leis da Tora cairiam — pois a Tora pressupoe milagres, e milagres pressupõem que D'us pode alterar a ordem natural, o que pressupoe que essa ordem e fruto de vontade livre e nao de necessidade. O Rambam nao prova a criacao ex nihilo filosoficamente (ele considera a prova impossivel) — mas mostra que a Tora depende logicamente dela. Albo e mais ousado: ele tenta uma prova positiva baseada na vontade divina.
Albo argumenta que a vontade (ratzon) de D'us e um atributo que requer tratamento especial. Nos atributos anteriores (unidade, incorporeidade, atemporalidade, onisciencia), Albo seguiu o programa rambamiano de atributos negativos — o que esses atributos negam, nao o que afirmam positivamente. Mas a vontade de D'us tem uma estrutura diferente: ela e o fundamento da possibilidade de toda a relacao entre D'us e o mundo. Sem vontade livre, nao ha relacao — ha apenas necessidade mecanica. A vontade de D'us nao e idêntica a vontade humana (que e desejo de algo que falta), mas e analoga: e a capacidade de D'us de agir ou nao agir em relacao ao mundo por razoes que D'us mesmo determina. Albo usa aqui o conceito de cheshek (desejo intelectual) em oposicao a ta'ava (desejo sensorial) — a vontade de D'us e analogia do primeiro, nao do segundo.
Albo conclui o capitulo com uma inversao elegante: a criacao ex nihilo — que parece ser um problema filosofico (como pode algo surgir do nada?) — e na verdade a condicao de possibilidade da liberdade humana. Se o mundo emana de D'us por necessidade, tudo no mundo — incluindo as escolhas humanas — e necessario. A liberdade humana seria uma ilusao. Mas se D'us criou livremente por ato de vontade, entao a liberdade esta inscrita na propria estrutura da criacao desde o inicio. D'us criou livremente seres que tambem agem livremente — a liberdade humana e um reflexo da liberdade divina. Esta conexao entre ratzon Hashem (vontade de D'us) e bechirat ha'adam (livre-arbitrio humano) e a chave do sistema do Sefer HaIkkarim: o primeiro ikar (existencia de D'us) fundamenta o terceiro (revelacao divina) atraves do segundo (Tora do ceu) precisamente porque um D'us com vontade livre pode querer revelar Sua Tora, e um ser humano com livre-arbitrio pode escolher ouvir.
O debate sobre a eternidade do mundo (kadmut ha'olam) vs. criacao no tempo (chidush ha'olam) foi o mais acirrado da filosofia judaica medieval. Aristoteles defendia a eternidade; a Tora afirmava a criacao. O Rambam tentou mostrar que a prova aristotelica e inconclusiva e que a Tora deve prevalecer na ausencia de prova. Hasdai Crescas (Or Hashem, c. 1410, uma geracao antes de Albo) atacou o aristotelismo pela raiz. Albo encontra um caminho intermediario: aceita a impossibilidade de prova filosofica da criacao, mas mostra que a criacao por vontade e necessaria para a coerencia do sistema halakhico-teologico judaico. Nao e uma prova da criacao — e uma demonstracao de que o judaismo pressupoe e requer a criacao.
De todos os atributos divinos que Albo examina no Maamar II, a vontade e o mais proximo da experiencia pessoal humana da relacao com D'us. A unidade, incorporeidade e atemporalidade sao atributos que estabelecem a transcendencia de D'us — a distancia entre Ele e o mundo. Mas a vontade aponta para a imanencia — a capacidade de D'us de agir no mundo, de responder a oracoes, de enviar profetas, de revelar a Tora. Sem o atributo da vontade, D'us seria o Deus dos filosofos — perfeito, imutavel, mas alheio. Com a vontade, D'us e o Deus de Avraham, Yitzchak e Yaacov — que age na historia, que ouve, que responde. O programa do Sefer HaIkkarim e mostrar que o Deus dos filosofos e o Deus da Biblia sao o mesmo — o Maamar II e o movimento que transita de um para o outro.