Como opera a teshuvá? Ela muda o ser humano, ou muda o decreto divino — ou ambos? E a oração: pode reverter o que D'us já decidiu? O Ran examina a mecânica do arrependimento e da oração à luz do sistema de providência e livre-arbítrio que construiu nas derashot anteriores.
A teshuvá — literalmente "retorno" — não é simplesmente remorso ou pedido de desculpa. O Rambam nas Hilchot Teshuvah 2:2 define: teshuvá verdadeira ocorre quando a mesma circunstância que provocou a transgressão se apresenta novamente, e o indivíduo não transgride. Esta definição sublinha que a teshuvá é uma transformação do sujeito, não apenas uma declaração. O Ran aprofunda: a teshuvá reverte o efeito moral do pecado no ser humano porque o pecado não é primariamente uma violação de uma regra externa — é um dano à estrutura da alma do próprio transgressor. Quando alguém peca, enfraquece sua ligação com D'us, obscurece seu intelecto, deforma seu caráter. A teshuvá é o processo de reparação dessa estrutura danificada. O versículo de Hoshea 14:2 — "Retorna, Israel, ao Eterno teu D'us" — usa "retorno" no sentido de voltar ao estado original: não ao estado anterior ao pecado, mas ao estado de ligação com D'us que o pecado interrompeu.
O Talmud em Yoma 86b afirma que a teshuvá é tão poderosa que pode "deslocar um decreto de setenta anos." Este midrash levanta imediatamente a questão filosófica: se a providência divina é imutável (como o Ran argumentou ao discutir a natureza atemporal de D'us), como pode a teshuvá "mudar" um decreto? A resposta do Ran é elegante: o decreto nunca se referiu ao ser humano que se arrependeu — pois esse ser humano, depois da teshuvá, é efetivamente uma pessoa diferente (o Talmud em Yoma 86b também usa a imagem: "sua iniquidade foi esquecida"). Não é D'us que "mudou de ideia" — é que o decreto se referia a um sujeito que já não existe. A teshuvá cria um novo sujeito moral.
A questão da oração é análoga mas distinta. A oração (tefillah) é descrita pela tradição como capaz de "rasgar o decreto" (kore'a get gezar dino). Mas como? O Ran recorre à sua teoria da providência: a providência divina age através das naturezas — das disposições dos seres e das suas circunstâncias. A oração sincera muda a disposição interna do orador — assim como a teshuvá — e essa mudança interna o torna um sujeito diferente perante a providência. Não é que D'us "mudou de ideia" em resposta à oração — é que o sujeito que ora e se transforma tornou-se um sujeito ao qual corresponde uma providência diferente. A oração é eficaz na medida em que é genuinamente transformadora para quem a reza — não na medida em que persuade D'us como se Ele fosse um rei humano sujeito a lobbying.
O Ran examina uma objeção clássica: para que pedir algo a D'us se Ele já sabe de que necessitamos (Mateus 6:8 formula a mesma objeção do lado cristão)? A resposta do Ran: a tefillah não é informativa — não informa D'us de nada que Ele não saiba. É transformadora — transforma quem a reza. Reza-se não para informar D'us mas para se tornar o tipo de pessoa que merece o que pede. Aqui o Ran cita a intuição talmúdica (Berachot 26b): os Patriarcas estabeleceram as três orações diárias. Por que três? Porque correspondem a momentos de transição entre os regimes naturais do dia (manhã, tarde, noite) — momentos em que o ser humano é mais facilmente movido à reflexão e à transformação interior. A oração diária estruturada é um programa de transformação contínua.
A teshuvá e a tefillah são o coroamento prático de todo o sistema filosófico das Derashot. O Ran construiu, ao longo das derashot anteriores: a existência de providência (II), a eleição especial de Israel (V), a imutabilidade da Torá (IV, VII), o livre-arbítrio (IX). A teshuvá é a aplicação dessas premissas: se há providência, ela responde à nossa transformação; se há livre-arbítrio, a teshuvá é a expressão mais plena desse arbítrio — escolher, de forma radical, ser uma pessoa diferente. O Ran estava pregando para judeus catalões no séc. XIV que viviam sob pressão de conversão, exílio e perseguição. Para eles, a mensagem da teshuvá não era abstrata — era a afirmação de que seu retorno a D'us era possível, efficaz e real, independentemente das circunstâncias externas.
A tradição rabínica insiste que a teshuvá deve ser feita "hoje" — não amanhã. O Talmud em Avot 2:4 (Rabi Eliezer): "Faze teshuvá um dia antes de tua morte." Como ninguém sabe quando morrerá, faz teshuvá hoje. Esta urgência existencial não é medo mascarado — é a afirmação de que cada dia de atraso é um dia em que a estrutura danificada permanece danificada, em que a distância entre o ser humano e D'us persiste desnecessariamente. O Ran, que pregou em Barcelona durante anos de deterioração da segurança das comunidades judaicas catalãs, certamente entendia a urgência de modo não apenas filosófico.