Derashot HaRan · Derasha IX

O livre-arbítrio e o conhecimento divino

בְּחִירָה חָפְשִׁית וְיְדִיעַת הָאֵל
Rabbeinu Nissim ben Reuven Gerondi (c. 1320–1376) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

O paradoxo do livre-arbítrio e da onisciência divina é um dos mais antigos da filosofia religiosa. Se D'us sabe desde sempre o que cada pessoa fará, como essa pessoa pode ser genuinamente livre? O Ran examina as posições clássicas e defende que o paradoxo desaparece quando entendemos corretamente o que é o conhecimento divino.

A formulação do paradoxo

A dificuldade é esta: D'us sabe antes que eu nasça que amanhã às dez horas vou comer pão. Se esse conhecimento é verdadeiro, então amanhã às dez horas eu vou comer pão — necessariamente, pois se não comesse o conhecimento de D'us seria falso, e D'us não pode saber o que é falso. Mas se é necessário que eu coma pão amanhã, então não sou livre para não comer. E se não sou livre, como posso ser responsabilizado pela minha escolha? O sistema de recompensa e punição — o terceiro ikar que discutimos no Maamar I do Sefer HaIkkarim — pressupõe liberdade genuína. Se a liberdade é ilusória, o sistema desmorona. O Ran reconhece que este é o problema filosófico mais difícil que enfrenta qualquer teólogo monoteísta.

הַקֹּשִׁי הוּא זֶה: הָאֵל יוֹדֵעַ לִפְנֵי שֶׁנּוֹלַדְתִּי שֶׁמָּחָר בְּעֶשֶׂר שָׁעוֹת אֹכַל לֶחֶם. אִם הַיְּדִיעָה הַזֹּאת אֲמִתִּית, מָחָר בְּעֶשֶׂר שָׁעוֹת אֹכַל לֶחֶם — בְּהֶכְרֵחַ, שֶׁאִם לֹא הָיִיתִי אוֹכֵל, יְדִיעַת הָאֵל הָיְתָה שְׁקָרִית. אֲבָל אִם בְּהֶכְרֵחַ אֹכַל לֶחֶם מָחָר, אֵינִי חוֹפֶשִׁי לִבְחוֹר שֶׁלֹּא לֶאֱכוֹל. וְאִם אֵינִי חוֹפֶשִׁי, כֵּיצַד אֲנִי נִשְׂכָּר וְנֶעְנָשׁ עַל בְּחִירָתִי?
Nota — Rambam, Mishneh Torah, Hilchot Teshuvah 5:5

"אולי תאמר הא-ל יודע כל מה שיהיה, קודם שיהיה, ידע שזה יהיה צדיק או רשע, או לא ידע — אם ידע שיהיה צדיק, אי אפשר שיהיה רשע..." O Rambam formula o paradoxo com rigor e propõe sua solução: o conhecimento de D'us não é como o conhecimento humano (que pressupõe um sujeito que conhece um objeto exterior); em D'us, a diferença entre conhecedor e conhecido não existe. Portanto a pergunta "o conhecimento de D'us causa a necessidade?" pressupõe uma analogia inadequada com o conhecimento humano. O Ran aceita o núcleo desta posição mas a desenvolve de forma diferente.

O conhecimento divino é categorialmente diferente

A solução do Ran segue a trilha do Rambam mas acrescenta precisão filosófica. O argumento do paradoxo pressupõe que o conhecimento de D'us é como o conhecimento humano — que existe num sujeito separado do objeto conhecido. Mas o conhecimento de D'us é idêntico ao Seu ser: D'us não "tem" conhecimento como nós "temos" informação. O conhecimento humano sobre um evento futuro não causa esse evento — e por isso parece estranho que o conhecimento divino cause. Mas o problema não está no "conhecimento" — está na relação de D'us com o tempo. D'us não está "antes" dos eventos vendo o que vai acontecer. D'us está fora do tempo — para Ele, o passado, o presente e o futuro são igualmente presentes. Quando dizemos que D'us "sabe" o que farei amanhã, estamos usando a linguagem temporal inadequada para descrever uma relação atemporal. D'us vê minha escolha livre — e minha escolha é livre — mas de um ponto de vista que não está encadeado pela sequência temporal.

הָרַ"ן הוֹלֵךְ בְּעִקְבוֹת הָרַמְבַּ"ם אֲבָל מוֹסִיף דַּיְּקָנוּת פִּילוֹסוֹפִית. טַעֲנַת הַפָּרָדוֹקְס מַנִּיחָה שֶׁיְּדִיעַת הָאֵל הִיא כִּידִיעָה הָאֱנוֹשִׁית. אֲבָל יְדִיעַת הָאֵל זְהוּיָה עִם הֱיוֹתוֹ: הָאֵל לֹא "מַחְזִיק" יְדִיעָה כְּמוֹ שֶׁאָנוּ "מַחְזִיקִים" מֵידָע. הָאֵל נִמְצָא מִחוּץ לַזְּמַן — בִּשְׁבִילוֹ, הֶעָבָר, הַהוֹוֶה וְהֶעָתִיד נְכוּחִים בְּשָׁוֶה. כְּשֶׁאָנוּ אוֹמְרִים שֶׁהָאֵל "יוֹדֵעַ" מַה שֶּׁאֶעֱשֶׂה מָחָר, אָנוּ מִשְׁתַּמְּשִׁים בִּלְשׁוֹן זְמַנִּית לִתְאֵר יַחַס חֲסַר-זְמַן.
Bechirah chofshit — a liberdade como axioma

Independentemente da solução filosófica que se adote para o paradoxo, o Ran insiste que a bechirah chofshit — o livre-arbítrio — é um axioma que não pode ser sacrificado. A própria Torá o pressupõe a cada passo: "Vê, coloquei diante de ti hoje a vida e o bem, a morte e o mal — escolhe a vida" (Devarim 30:15–19). Um D'us que ordena "escolhe" não pode ser um D'us que pré-determinou tua escolha. A Torá, cujo caráter divino é o segundo ikar, pressupõe a liberdade — e portanto a liberdade é uma certeza mais firme do que qualquer argumento filosófico sobre a onisciência divina. Se um argumento leva à conclusão de que não temos liberdade, isso é evidência de que há um erro no argumento, não que devemos abandonar a liberdade.

הָרַ"ן מַדְגִּישׁ שֶׁהַבְּחִירָה הַחָפְשִׁית הִיא אַקְסִיּוֹמָה שֶׁלֹּא יָכְלָה לְהִקָּרֵב. הַתּוֹרָה עַצְמָהּ מַנִּיחָה אוֹתָהּ בְּכָל צַעַד: "רְאֵה נָתַתִּי לְפָנֶיךָ הַיּוֹם אֶת הַחַיִּים וְאֶת הַטּוֹב וְאֶת הַמָּוֶת וְאֶת הָרָע — וּבָחַרְתָּ בַּחַיִּים" (דְּבָרִים ל:טו-יט). אֵל שֶׁמְּצַוֶּה "בְּחַר" אֵינוֹ יָכוֹל לִהְיוֹת אֵל שֶׁקְּבַע מֵרֹאשׁ אֶת בְּחִירָתְךָ. אִם טַעֲנָה מוֹבִילָה לַמַּסְקָנָה שֶׁאֵין לָנוּ חֵרוּת, זוֹ עֵדוּת שֶׁיֵּשׁ טָעוּת בַּטַּעֲנָה — לֹא שֶׁיֵּשׁ לָנוּ לַעֲזֹב אֶת הַחֵרוּת.

Sobre esta derasha · עִיּוּן

Ran vs. Rambam: o papel da Torá no debate filosófico

Um ponto metodológico importante diferencia o Ran do Rambam neste debate: o Rambam tende a resolver o paradoxo primariamente no plano filosófico (o conhecimento divino é de natureza diferente do humano) e depois confirmar com a Torá. O Ran inverte a ordem: a Torá estabelece a liberdade como fato, e isso determina que qualquer solução filosófica para o paradoxo deve preservá-la. Esta diferença metodológica reflete uma diferença mais profunda: para o Rambam, a filosofia e a Torá são dois caminhos para a mesma verdade, com a filosofia como framework neutro. Para o Ran, a Torá é a autoridade última, e a filosofia é um instrumento a seu serviço.

O problema da enduração do coração de Faraó — teste da teoria

O teste mais difícil para qualquer teoria do livre-arbítrio judaico é o relato do endurecimento do coração de Faraó (Shemot 7–11): "E o Eterno endureceu o coração de Faraó, e ele não ouviu..." Se D'us endureceu o coração de Faraó, Faraó não escolheu livremente recusar Moisés — logo, como pôde ser punido? O Rambam (Hilchot Teshuvah 6:3) responde que as primeiras cinco pragas, Faraó resistiu por livre escolha; as últimas cinco, depois de ter abusado repetidamente da liberdade para pecar, D'us tornou o arrependimento impossível como punição. O Ran aceita essa leitura como parte de um princípio mais geral: a bechirah não é infinitamente plástica — ela pode ser estreitada por escolhas repetidas até que certos caminhos se fechem. A responsabilidade existe não apenas por cada ato individual mas pelo processo acumulado.