O paradoxo do livre-arbítrio e da onisciência divina é um dos mais antigos da filosofia religiosa. Se D'us sabe desde sempre o que cada pessoa fará, como essa pessoa pode ser genuinamente livre? O Ran examina as posições clássicas e defende que o paradoxo desaparece quando entendemos corretamente o que é o conhecimento divino.
A dificuldade é esta: D'us sabe antes que eu nasça que amanhã às dez horas vou comer pão. Se esse conhecimento é verdadeiro, então amanhã às dez horas eu vou comer pão — necessariamente, pois se não comesse o conhecimento de D'us seria falso, e D'us não pode saber o que é falso. Mas se é necessário que eu coma pão amanhã, então não sou livre para não comer. E se não sou livre, como posso ser responsabilizado pela minha escolha? O sistema de recompensa e punição — o terceiro ikar que discutimos no Maamar I do Sefer HaIkkarim — pressupõe liberdade genuína. Se a liberdade é ilusória, o sistema desmorona. O Ran reconhece que este é o problema filosófico mais difícil que enfrenta qualquer teólogo monoteísta.
"אולי תאמר הא-ל יודע כל מה שיהיה, קודם שיהיה, ידע שזה יהיה צדיק או רשע, או לא ידע — אם ידע שיהיה צדיק, אי אפשר שיהיה רשע..." O Rambam formula o paradoxo com rigor e propõe sua solução: o conhecimento de D'us não é como o conhecimento humano (que pressupõe um sujeito que conhece um objeto exterior); em D'us, a diferença entre conhecedor e conhecido não existe. Portanto a pergunta "o conhecimento de D'us causa a necessidade?" pressupõe uma analogia inadequada com o conhecimento humano. O Ran aceita o núcleo desta posição mas a desenvolve de forma diferente.
A solução do Ran segue a trilha do Rambam mas acrescenta precisão filosófica. O argumento do paradoxo pressupõe que o conhecimento de D'us é como o conhecimento humano — que existe num sujeito separado do objeto conhecido. Mas o conhecimento de D'us é idêntico ao Seu ser: D'us não "tem" conhecimento como nós "temos" informação. O conhecimento humano sobre um evento futuro não causa esse evento — e por isso parece estranho que o conhecimento divino cause. Mas o problema não está no "conhecimento" — está na relação de D'us com o tempo. D'us não está "antes" dos eventos vendo o que vai acontecer. D'us está fora do tempo — para Ele, o passado, o presente e o futuro são igualmente presentes. Quando dizemos que D'us "sabe" o que farei amanhã, estamos usando a linguagem temporal inadequada para descrever uma relação atemporal. D'us vê minha escolha livre — e minha escolha é livre — mas de um ponto de vista que não está encadeado pela sequência temporal.
Independentemente da solução filosófica que se adote para o paradoxo, o Ran insiste que a bechirah chofshit — o livre-arbítrio — é um axioma que não pode ser sacrificado. A própria Torá o pressupõe a cada passo: "Vê, coloquei diante de ti hoje a vida e o bem, a morte e o mal — escolhe a vida" (Devarim 30:15–19). Um D'us que ordena "escolhe" não pode ser um D'us que pré-determinou tua escolha. A Torá, cujo caráter divino é o segundo ikar, pressupõe a liberdade — e portanto a liberdade é uma certeza mais firme do que qualquer argumento filosófico sobre a onisciência divina. Se um argumento leva à conclusão de que não temos liberdade, isso é evidência de que há um erro no argumento, não que devemos abandonar a liberdade.
Um ponto metodológico importante diferencia o Ran do Rambam neste debate: o Rambam tende a resolver o paradoxo primariamente no plano filosófico (o conhecimento divino é de natureza diferente do humano) e depois confirmar com a Torá. O Ran inverte a ordem: a Torá estabelece a liberdade como fato, e isso determina que qualquer solução filosófica para o paradoxo deve preservá-la. Esta diferença metodológica reflete uma diferença mais profunda: para o Rambam, a filosofia e a Torá são dois caminhos para a mesma verdade, com a filosofia como framework neutro. Para o Ran, a Torá é a autoridade última, e a filosofia é um instrumento a seu serviço.
O teste mais difícil para qualquer teoria do livre-arbítrio judaico é o relato do endurecimento do coração de Faraó (Shemot 7–11): "E o Eterno endureceu o coração de Faraó, e ele não ouviu..." Se D'us endureceu o coração de Faraó, Faraó não escolheu livremente recusar Moisés — logo, como pôde ser punido? O Rambam (Hilchot Teshuvah 6:3) responde que as primeiras cinco pragas, Faraó resistiu por livre escolha; as últimas cinco, depois de ter abusado repetidamente da liberdade para pecar, D'us tornou o arrependimento impossível como punição. O Ran aceita essa leitura como parte de um princípio mais geral: a bechirah não é infinitamente plástica — ela pode ser estreitada por escolhas repetidas até que certos caminhos se fechem. A responsabilidade existe não apenas por cada ato individual mas pelo processo acumulado.