Derashot HaRan · Rav Nissim Gerondi · Derasha I

A criação e a substância primordial

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֶת הַשָּׁמַיִם וְאֶת הָאָרֶץ
Rav Nissim ben Reuven Gerondi — Ran (1320–1376) · hebraico de domínio público · tradução original PT-BR

A primeira derasha parte de Bereshit 1:1–2 para um argumento filosófico preciso: por que D'us criou uma substância primordial única para o mundo sublunar — e o que isso revela sobre a sabedoria divina e sobre a perfeição que emerge do imperfeito.

O versículo-base

"No princípio criou D'us os céus e a terra" (Bereshit 1:1–2). Todos os intérpretes verdadeiros concordam na explicação desses versículos: sua intenção é dizer que no princípio da criação foi criada uma substância comum a tudo que existe abaixo da esfera lunar. E embora alguns deles entendam que "os céus e a terra" referem-se a duas substâncias distintas — a substância dos céus e a substância da terra —, todos concordam que o segundo versículo encerra os quatro elementos que são os pais de tudo que existe abaixo da esfera lunar.

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים וְגוֹ׳. כָּל הַמְּפָרְשִׁים הָאֲמִתִּיִּים הִסְכִּימוּ בְּפֵרוּשׁ אֵלּוּ הַכְּתוּבִים, שֶׁכַּוָּנָתָם לוֹמַר כִּי בְּרֵאשִׁית הַבְּרִיאָה נִבְרָא חֹמֶר מֻשְׁתָּף לְכָל מַה שֶּׁתַּחַת גַּלְגַּל הַיָּרֵחַ. וְאִם קְצָתָם סָבְרוּ שֶׁהַכַּוָּנָה בְּאָמְרוֹ אֶת הַשָּׁמַיִם וְאֶת הָאָרֶץ וְכוּ׳ שֶׁהָיוּ שְׁנֵי חֳמָרִים נִבְדָּלִים שֶׁהֵם חֹמֶר הַשָּׁמַיִם וְחֹמֶר הָאָרֶץ, כֻּלָּם הִסְכִּימוּ שֶׁזֶּה הַפָּסוּק הַשֵּׁנִי כּוֹלֵל אַרְבָּעָה יְסוֹדוֹת שֶׁהֵם אָבוֹת לְכָל מַה שֶּׁתַּחַת גַּלְגַּל הַיָּרֵחַ.
Os quatro elementos

Eles são: o fogo — aludido na palavra "trevas" (choshech); o ar — aludido na expressão "espírito de D'us" (ruach Elohim); e a água e a terra — incluídos na palavra "abismo" (tehom). Com efeito, a Sabedoria Divina exigiu que houvesse uma única substância comum a tudo que está abaixo da esfera lunar — pois Sua vontade foi que a natureza do ser procedesse segundo o possível, e não quis criar muitas coisas do nada (yesh me'ayin) quando uma única substância pode abranger a todas.

וְהֵם הָאֵשׁ הַנִּרְמָז בְּמִלַּת וְחֹשֶׁךְ, וְהָאֲוִיר הַנִּרְמָז בְּמִלַּת וְרוּחַ אֱלֹהִים, וְהַמַּיִם וְהֶעָפָר הַנִּכְלָלִים בְּמִלַּת תְּהוֹם. וְאָמְנָם חִיְּיְבָה הַחָכְמָה הָאֱלֹהִית לִהְיוֹת חֹמֶר אֶחָד מֻשְׁתָּף לְכָל מַה שֶּׁתַּחַת גַּלְגַּל הַיָּרֵחַ, לִהְיוֹת הָרָצוֹן מֵאִתּוֹ לְהַמְשִׁיךְ טֶבַע הַהֲוָיָה כְּפִי הָאֶפְשָׁרוּת. לֹא רָצָה לִבְרֹא דְּבָרִים רַבִּים יֵשׁ מֵאַיִן אַחַר שֶׁיֵּשׁ בְּאֶפְשָׁרוּת חֹמֶר אֶחָד לִכְלֹל כֻּלָּם.
Nota — Os quatro elementos em Bereshit 1:2

A correspondência entre os quatro elementos e as palavras do versículo é uma interpretação aristotélica mediada pelos filósofos árabes (especialmente Averróis) e adotada pelo Rambam no Moreh Nevuchim (II:30). O Ran a acolhe como ponto de partida consensual entre "os intérpretes verdadeiros" — expressão que aponta para a cadeia racionalista: Saadia Gaon, Rambam, Gersonides.

A economia da criação

Por isso, se precisarmos admitir que a substância dos céus é diferente, é porque a forma esférica não poderia estar em potência na substância da terra. Mas já que tudo o que existe desde a esfera lunar para baixo pode em potência receber sua forma desta substância — criar duas substâncias no mundo inferior sem necessidade seria criação do nada sem propósito. E basta esta criação miraculosa e necessária — uma única substância do nada — para todo o mundo sublunar.

וְלָזֶה אִם נִצְטָרֵךְ לְהוֹדוֹת לִהְיוֹת חֹמֶר הַשָּׁמַיִם חֹמֶר אַחֵר, הָיָה מִפְּנֵי שֶׁהַצּוּרָה הַגַּלְגָּלִית לֹא יִהְיֶה לָהּ אֶפְשָׁרוּת לָחוּל בְּחֹמֶר הָאָרֶץ. אֲבָל אַחַר שֶׁלְּכָל הַנִּמְצָאִים מִגַּלְגַּל הַיָּרֵחַ וּלְמַטָּה יֵשׁ לְצוּרָתָם אֶפְשָׁרוּת לָחוּל בְּחֹמֶר זֶה, יִהְיֶה אִם כֵּן הַמְצָאַת שְׁנֵי חֳמָרִים בָּעוֹלָם הַתַּחְתּוֹן יֵשׁ מֵאַיִן לְלֹא תוֹעֶלֶת. וְדַי בַּחִדּוּשׁ הַזֶּה הַנִּפְלָא וְהַהֶכְרֵחִי.
O imperfeito gera o perfeito

E daqui poderás compreender um princípio maravilhoso: na ordem da criação, a Sabedoria Divina quis que o perfeito emergisse do imperfeito, e não que o perfeito viesse diretamente do perfeito. Os quatro elementos em sua forma bruta são imperfeitos — opostos entre si, incapazes de durar. Mas ao combinarem-se, produzem compostos de grandíssima perfeição: os vegetais, os animais, e no mais alto grau, o ser humano. Este é o método da criação: não a emanação direta do perfeito do Perfeito, mas a ascensão gradual do imperfeito rumo à sua forma mais elevada.

וּמִכָּאן תּוּכַל לְהָבִין עִקָּר נִפְלָא: בְּסֵדֶר הַבְּרִיאָה רָצְתָה הַחָכְמָה הָאֱלֹהִית שֶׁהַשָּׁלֵם יֵצֵא מִן הַבִּלְתִּי שָׁלֵם, לֹא שֶׁהַשָּׁלֵם יָבוֹא מִן הַשָּׁלֵם בְּיֶשֶׁר. הַיְסוֹדוֹת הָאַרְבָּעָה בִּתְכוּנָתָם הַגּוּלְמִית בִּלְתִּי שְׁלֵמִים הֵם — מְנֻגָּדִים זֶה לָזֶה, בִּלְתִּי מִתְקַיְּמִים. אַךְ בְּהִתְחַבְּרָם מוֹלִידִים מֻרְכָּבִים שְׁלֵמִים בִּשְׁלֵמוּת גְּדוֹלָה: הַצּוֹמֵחַ, הַחַי, וּבְדַרְגָּה הָעֶלְיוֹנָה, הָאָדָם.
O ser humano — o composto mais alto

Por isso o ser humano foi criado por último: não por ser menor, mas porque toda a criação anterior era preparação para ele. A alma intelectual — perfeita em sua essência — foi unida ao corpo — composto imperfeito de matéria e elementos. E dessa união emerge o ser mais elevado da criação sublunar: aquele que, pelo exercício do intelecto, pode elevar-se até conhecer seu Criador. A imperfeição do corpo não é obstáculo — é condição. Sem ela, não haveria tensão, nem esforço, nem mérito, nem crescimento.

לָכֵן נִבְרָא הָאָדָם אַחֲרוֹן — לֹא מִפְּנֵי שֶׁהוּא פָּחוּת, אֶלָּא מִפְּנֵי שֶׁכָּל הַבְּרִיאָה שֶׁלְּפָנָיו הָיְתָה הֲכָנָה לוֹ. הַנֶּפֶשׁ הַשִּׂכְלִית — שְׁלֵמָה בְּמַהוּתָהּ — חֻבְּרָה לַגּוּף — מֻרְכָּב בִּלְתִּי שָׁלֵם מֵחֹמֶר וְיְסוֹדוֹת. וּמֵהִתְחַבְּרוּת זוֹ יוֹצֵא הָיְצוּר הַנַּעֲלֶה בַּבְּרִיאָה הַתַּחְתּוֹנָה: זֶה שֶׁבִּמְאַמַּץ שִׂכְלוֹ יָכוֹל לְהִתְעַלּוֹת עַד שֶׁיַּכִּיר אֶת בּוֹרְאוֹ.

Sobre esta derasha · עִיּוּן

O Ran — figura de transição

Rav Nissim ben Reuven Gerondi (Barcelona, c. 1320–1376) é mais conhecido como autoridade halákica — seus novellae (חידושים) ao Talmud e ao Rif são estudados em yeshivot até hoje. Mas as Derashot HaRan revelam outra dimensão: um filósofo-teólogo que usa o sermão como veículo de reflexão sistemática. Ele escreve num momento de crise: a comunidade judaica catalã, após a disputa de Barcelona (1263) e as crescentes pressões da Reconquista, precisa de fundamentos intelectuais sólidos para sua fé.

A física aristotélica como porta de entrada teológica

A primeira derasha começa com física — os quatro elementos, a substância primordial, o movimento dos corpos. Isso não é desvio: é método. O Ran usa a física aristotélica (mediada por Averróis e o Rambam) como linguagem compartilhada com os intelectuais do seu tempo. Começar com aquilo que todos concordam (a estrutura do mundo físico) para chegar ao que quer demonstrar (a sabedoria divina na estrutura da criação) é a estratégia retórica das derashot.

O princípio central: o imperfeito gera o perfeito

A tese filosófica mais importante desta derasha é: na criação, a perfeição emerge da imperfeição — não da perfeição. Os quatro elementos são contraditórios entre si (fogo e água, terra e ar são opostos), mas sua combinação produz os seres mais complexos e perfeitos. O Ran usa isso para defender a criação do mundo material: D'us não criou um mundo imperfeito por engano ou limitação, mas porque a imperfeição controlada é o meio pelo qual emerge a perfeição.

A implicação antropológica

O argumento tem consequências diretas para a compreensão do ser humano. A alma é perfeita; o corpo é imperfeito. Mas a sua união — aparentemente paradoxal — é precisamente o que torna o ser humano capaz de crescimento moral e espiritual. Um ser puramente espiritual não precisaria de esforço; um ser puramente material não seria capaz de transcendência. O composto humano é o único ser que pode, a partir da imperfeição, alcançar a perfeição — e por isso ocupa o lugar mais alto na criação sublunar. Esta ideia percorrerá todas as doze derashot.