Bechinat Olam · Yedaiah haPenini · Capítulo XIII

Tu conheces o homem

יְיָ אֱלֹהִים אַתָּה יָדַעְתָּ אֶת הָאִישׁ וְאֶת שִׂיחוֹ
Yedaiah ben Avraham haPenini (c. 1270–1340) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

O ponto de virada do livro: das lamentações sobre o tempo e o mundo, o autor volta-se em oração direta a D'us. O capítulo é um hino à onisciência divina — D'us conhece o homem, os seus segredos, os opostos e os futuros, num único conhecimento — e termina na confissão da teologia negativa: o ápice do que sabemos de D'us é que não o conhecemos.

vv. 1–7 · A queixa contra mim mesmo

1 O agravo que sofro recai sobre os meus atos e sobre a obra das minhas mãos — e que mais hei de gritar e clamar?

2 E que te pedirei, ó Eterno D'us — vida e mercê — se o meu próprio coração quer dar-me a morte?

3 Se eu não cuido de mim mesmo, quem estará comigo?

4 Que proveito há naquela afeição extra que revelas à minha alma, se sou eu mesmo que a odeio?

5 Se as minhas mãos me afligiram e me agastaram com as suas vaidades — como me alegrarás, ó Eterno, com a tua obra?

6 E se as minhas cogitações roubam a minha honra, ainda quando a sua lâmpada brilha — que me outorgarás de honra e grandeza?

7 E se sou eu mesmo quem retém de mim o bem, por mais que abunde a tua bondade — ó Eterno meu D'us, que me darás?

חֲמָסִי עַל מַעֲשַׂי וְעַל פּוֹעַל יָדַי וּמָה אֶזְעַק וַאֲשַׁוֵּעַ: וּמַה יְיָ אֱלֹהִים אֶדְרוֹשׁ מִמְּךָ חַיִּים וָחֶסֶד אִם חָפֵץ לְבָבִי לַהֲמִיתֵנִי: אִם אֵין אֲנִי לְעַצְמִי מִי אִתִּי: מַה־בֶּצַע בְּאוֹתָהּ חִבָּה יְתֵרָה שֶׁתּוֹדִיעַ לְנַפְשִׁי אִם אָנֹכִי שְׂנֵאתִיהָ: אִם יָדַי עִצְּבוּנִי הִכְעִסוּנִי בְּהַבְלֵיהֶן מַה תְּשַׂמְּחֵנִי יְיָ בְּפָעֳלֶךָ: וְאִם סְעִפַּי גּוֹזְלֵי כְבוֹדִי בְּהִלּוֹ נֵרוֹ מַה תַּעֲנִיקֵנִי יְקָר וּגְדוּלָּה: וְאִם אֲנִי אֲנִי הוּא הַמּוֹנֵעַ מִמֶּנִּי הַטּוֹב בִּרְבוֹת הַטּוֹבָה יְיָ אֱלֹהַי מַה תִּתֶּן לִי:
vv. 8–18 · Tu conheces o homem

8 Ó Eterno D'us, tu conheces o homem e a sua palavra; sondaste, entendeste de longe o seu pensamento; delineias todas as suas fronteiras.

9 As câmaras do seu ser e os seus recônditos tu esquadrinhas, pois apalpaste todos os seus vasos.

10 Os altos aposentos do que lhe sobe ao espírito são espaçosos; as aberturas da sua intenção estão escancaradas, transparentes, ante a face do teu saber.

11 Tu fixaste os laços da tua ira; eles o prendem na sua própria astúcia; tu dominas a sua soberba.

12 Fazes girar os seus distritos e os seus príncipes, os que lhe racionam o sustento, os que dão o seu pão, o seu linho, o seu óleo e as suas bebidas.

13 Tu firmaste os seus caminhos, as suas ordenanças, os seus criados, os nascidos na sua casa.

14 As asas das suas alvas tu sustentas; os seus dias e as suas noites fundaste, e o número dos seus instantes declaras.

15 Ergues os humildes, do poço das profundezas, às alturas; e os que estavam acima deles, afundas no abismo.

16 Precipitas do céu à terra os nobres da terra, com a vara da tua ira; e ao que abraça os monturos elevas a cavaleiro dos céus, com o teu socorro.

17 Tu reforçaste os ferrolhos das portas dos que guardam a Torá e zelam pelo direito; e quebraste as cabeças do povo da terra.

18 Tu vês os rins e o coração, e discernes todas as suas obras.

יְיָ אֱלֹהִים אַתָּה יָדַעְתָּ אֶת הָאִישׁ וְאֶת שִׂיחוֹ בָּחַנְתָּ בַּנְתָּה לְרֵעוֹ תְּתָאֵר כָּל גְּבוּלָיו: חַדְרֵי יְצוּרָיו וּסְתָרָיו אַתָּה חוֹפֵשׂ כִּי מִשַּׁשְׁתָּ אֶת כׇּל כֵּלָיו: עֲלִיּוֹת הָעוֹלֶה עַל רוּחוֹ מְרֻוָּחִים כַּוָּנֵי כַוָּנָתוֹ פְּתוּחִים שְׁקוּפִים אֶל מוּל פְּנֵי מַדָּעָךְ: אַתָּה הִצַּבְתָּ מוֹקְשֵׁי חֲרוֹנְךָ יִלְכְּדֻנּוּ בְּעָרְמָתוֹ אַתָּה מוֹשֵׁל בְּגַאֲוָתוֹ: תִּסּוֹב פְּלָכָיו נְסִיכָיו מַטְרִיפֵי חֻקָּיו נוֹתְנֵי לַחְמוֹ פִּשְׁתּוֹ שַׁמְנוֹ וְשִׁקּוּיָו: אַתָּה כוֹנַנְתָּ דְּרָכָיו מַעֲרָכָיו חֲנִיכָיו יְלִידֵי בֵיתוֹ: כַּנְפֵי שַׁחֲרָיו תִּשָּׂא יָמָיו וְלֵילָיו אַתָּה יָסַדְתָּ וּמִסְפַּר רְגָעָיו תַּגִּיד: תָּשִׂים שְׁפָלִים מִבּוֹר תַּחְתִּיּוֹת לַמָּרוֹם וּגְבוֹהִים עֲלֵיהֶם צוֹלְלִים בִּמְצוּלָה: תַּפִּיל מִשָּׁמַיִם אֶרֶץ נְדִיבֵי אֶרֶץ בְּשֵׁבֶט עֶבְרָתֶךָ תִּתֵּן מְחַבֵּק אַשְׁפַּתּוֹת רוֹכֵב שָׁמַיִם בְּעֶזְרֶךָ: אַתָּה חִזַּקְתָּ בְּרִיחֵי שַׁעֲרֵי שׁוֹמְרֵי תוֹרָה נוֹצְרֵי מִשְׁפָּט אַתָּה שִׁבַּרְתָּ רָאשֵׁי עַם הָאָרֶץ: אַתָּה רוֹאֶה כְּלָיוֹת וָלֵב וּמֵבִין אֶת כָּל מַעֲשֵׂיהֶם:
vv. 19–24 · A exaltação e o escabelo

19 O teu escabelo — altura do mundo — sobre os cimos das mais altas criaturas erguem-se os seus píncaros, para tornar admirável a tua glória, para proclamar único o teu domínio.

20 Ali está o velado do teu poder, ali as carruagens da tua glória, a proclamar: "Eu, e mais ninguém."

21 Ali ocultaste os teus amores — a grandeza e o poderio — e o que se eleva a dizer: "Eu reinarei."

22 És mais alto que tudo o que há, exaltado acima de tudo o que existe; e os olhos da tua vontade percorrem a baixeza da nossa condição, desde o princípio dos nossos anos neles até o seu fim.

23 És imensamente grande, acima das vaidades dos nossos feitos — e, contudo, as vaidades dos nossos feitos tu perscrutas.

24 Terrivelmente maravilhoso és, acima de todas as obras, e a lembrança de todas as obras chega à tua presença.

הֲדוֹמְךָ מְרוֹם עוֹלָם עַל גַּפֵּי מְרוֹמֵי הַיְּצִירוֹת יַאֲרִיכוּ רָאשָׁיו לְהַפְלִיא כָּבוֹד לְיַחֵד מֶמְשָׁלָה: שָׁם חֶבְיוֹן עֻזֶּךָ שָׁמָּה מַרְכְּבוֹת כְּבוֹדֶךָ לֵאמֹר אֲנִי וְאַפְסִי עוֹד: שָׁמָּה צָפַנְתָּ דּוֹדֶיךָ הַגְּדֻלָּה וְהַגְּבוּרָה וְהַמִּתְנַשֵּׂא לֵאמֹר אֲנִי אֶמְלוֹךְ: גָּבַהְתָּ מִכָּל יֵשׁ הִתְרוֹמַמְתָּ מִכָּל נִמְצָא וְעֵינֵי רְצוֹנְךָ בִּשְׁפַל מַצָּבֵינוּ יְשׁוֹטְטוּ מֵרֵאשִׁית שְׁנוֹתֵינוּ בָּהֶם עַד אַחֲרִיתָם: גָּדַלְתָּ מְאֹד מֵהֶבְלֵי פְעָלֵינוּ וְהֶבְלֵי פְעָלֵינוּ תִּבְחָן: נוֹרָאוֹת נִפְלֵאתָ עַל כָּל הַמַּעֲשִׂים וְזֵכֶר כָּל הַמַּעֲשִׂים לְפָנֶיךָ בָּא:
vv. 25–34 · Um único conhecimento

25 Acaso se fará, ó Eterno D'us, coisa alguma sem que o seu segredo te seja revelado antes de ser feita?

26 Subirá ao meu espírito, nas câmaras do meu leito, coisa grande ou pequena, sem que tu, meu Senhor, ó Rei, a saibas?

27 O teu intelecto altíssimo — diante de cujo valor as maiores alturas dos céus se rebaixam — conhece tudo o que se faz no vale da nossa profundeza, que é o mais ínfimo fundo de todo abismo.

28 E não nos compete admirar como e de que modo tu, e só tu, conheces;

29 e como conheces os contrários e os gêneros diversos num só conhecimento, idêntico por todos os lados;

30 e os particulares que se renovam e se alteram, infinitos em número, num só saber permanente que a todos abarca;

31 e as coisas futuras, que ainda não vieram à existência, tu conheces num conhecimento verdadeiro, sem que ele dependa da sua inexistência;

32 e qual dos dois extremos do possível se realizará no futuro — por uma resolução singular e admirável que ainda assim preserva a natureza contingente deles.

33 Quem conhece todas estas coisas, exceto tu?

34 E os nossos conhecimentos, gastos e remendados, ficaram curtos demais para apreender como tu nos conheces — dada a distância da relação entre nós, do teu lado e do nosso.

הַיֵּעָשֶׂה יְיָ אֱלֹהִים דָּבָר בִּלְתִּי אִם נִגְלֶה לְךָ סוֹדוֹ טֶרֶם הֵעָשׂוֹתוֹ: הֲתַעֲלֶה עַל רוּחִי בְּחַדְרֵי מִשְׁכָּבִי גְדוֹלָה אוֹ קְטַנָּה וְאַתָּה אֲדֹנִי הַמֶּלֶךְ לֹא יָדָעְתָּ: שִׂכְלְךָ הַגָּבוֹהַּ גּוֹבַהּ גָּבְהֵי שָׁמַיִם שָׁפְלוּ בְעֶרְכּוֹ יָדַע אֶת כׇּל אֲשֶׁר נַעֲשֶׂה בְּעֵמֶק מְצוּלָתֵנוּ אֲשֶׁר הִיא תַּכְלִית תַּחְתִּית כָּל עָמוֹק: וְאֵין עָלֵינוּ לְהַפְלִיא אֵיךְ וְאֵיכָכָה אַתָּה לְבַדְּךָ תֵּדַע: וְאֵיךְ תֵּדַע הַהֲפָכִים וְהַמִּינִים הַשּׁוֹנִים בִּידִיעָה אַחַת לְבַד מִכָּל צַד: וּפְרָטִים מִתְחַדְּשִׁים מִשְׁתַּנִּים בְּלִי תַכְלִית בְּמִסְפָּר בְּמַדַּע אֶחָד קַיָּם וּמַקִּיף עַל כֻּלָּם: וְהַדְּבָרִים הָעֲתִידִים אֲשֶׁר לֹא יָצְאוּ אֶל הַמְּצִיאוּת בִּידִיעָה אֲמִתִּית בְּלִי הִתָּלוֹת בְּהֶעֱדֵר: וְהַצּוֹדֵק מִשְּׁנֵי קְצוֹת הָאֶפְשַׁר בֶּעָתִיד בְּהַכְרָעָה סְגֻלִּית נִפְלָאָה מַשְׁאֶרֶת טֶבַע אֶפְשְׁרוּתָם: מִי יָדַע בְּכָל אֵלֶּה זוּלָתֶךָ: וִידִיעוֹתֵינוּ בָּלוֹת וּמְטֻלָּאוֹת קָצְרוּ מֵהַשִּׂיג אֵיךְ יְדַעְתָּנוּ עִם רֹחַק הַיַּחַשׂ בֵּינוֹתֵינוּ מִצִּדְּךָ וּמִצִּדֵּנוּ:
vv. 35–46 · O limite do nosso saber

35 Contudo, tudo o que veio à existência, tu o formaste; e tudo o que vês é teu — tanto o que para nós é oculto como o que é manifesto.

36 E que coração sábio se admiraria de que ages maravilhosamente na obra das tuas mãos?

37 Seria coisa demasiado difícil para o oleiro algo da obra do barro e da sua feitura?

38 Tu trouxeste à existência tudo o que a sabedoria julgou bom produzir, e puseste na natureza do nosso entendimento estes véus e estes obstáculos.

39 E o segredo deles deixaste inscrito, selado na escritura da tua verdade.

40 A verdade és tu, ó Eterno nosso D'us, e a verdade és tu mesmo.

41 Hás de te dar a conhecer à roda dos escarnecedores? Hás de te revelar diante dos filhos da iniquidade?

42 Eis que nem os anjos alcançaram o segredo da tua escritura verdadeira, gravada nas suas tábuas — e como o alcançaríamos nós, de quem se diz "não há homem que consiga ler a escritura"?

43 Eis que até nos teus santos, que para sempre creem em ti, não plenamente confias — e como então cevarias, com a tua abundância, o que escoiceia o seu rei e o seu D'us?

44 Ou como um mosquito desesperado acharia graça aos teus olhos e chegaria a conhecer-te?

45 O máximo do que de ti sabemos é que não te conhecemos.

46 Contudo, sabemos que existes — esta é a nossa porção de todo o labor da contemplação e do esforço da especulação.

וְאוּלָם כָּל אֲשֶׁר יָצָא אֶל הַיֵּשׁ אַתָּה יְצַרְתּוֹ וְכָל אֲשֶׁר אַתָּה רוֹאֶה לְךָ הוּא הַנִּסְתָּרוֹת לָנוּ וְהַנִּגְלוֹת: וְאֵיזֶה לְבַב חָכָם יִתְפַּלֵּא כִּי תָשׁוּב תִּתְפַּלֵּא בְּמַעֲשֵׂה יָדֶיךָ: הֲיִפָּלֵא מֵהַיּוֹצֵר דָּבָר מִמְּלֶאכֶת הַחֹמֶר וּמַעֲשֵׂהוּ: אַתָּה הִמְצֵאת כָּל אֲשֶׁר רָאֲתָה הַחָכְמָה לְהַמְצִיאוֹ וַתִּתֵּן בְּטֶבַע מַדָּעֵנוּ אֵלּוּ הַמְּסָכִים וְהַמְּנִיעוֹת: וְסוֹדָם הִשְׁאַרְתָּ רָשׁוּם בְּחוֹתָם כְּתַב אֲמִתֶּךָ: הָאֱמֶת אַתָּה הוּא יְיָ אֱלֹהֵינוּ וְהָאֱמֶת הוּא אָתָּה: הֲתִוָּדַע לְמוֹשַׁב לֵצִים הֲתִגָּלֶה לִפְנֵי בְנֵי עַוְלָה: הִנֵּה הַמַּלְאָכִים לֹא עָמְדוּ עַל סוֹד מִכְתָּבְךָ הָאֲמִתִּי הֶחָרוּת בְּלוּחוֹתֵיהֶם וְאֵיךְ נַעֲמֹד אֲנַחְנוּ דִּי לָא אִיתַי אֱנַשׁ דִּי כְתָבָא יָכִיל לְמִקְרֵא: הֵן בִּקְדוֹשֶׁיךָ אֲשֶׁר בְּךָ יַאֲמִינוּ לְעוֹלָם לֹא תַאֲמִין וְאֵיךְ תַּשְׁמִין בְּשִׁפְעֲךָ בּוֹעֵט בְּמַלְכּוֹ וּבֵאלֹהָיו: אוֹ אֵיךְ יִתּוּשׁ נוֹאָשׁ יִמְצָא חֵן בְּעֵינֶיךָ וְיֵדָעֶךָ: תַּכְלִית מַה שֶׁנֵּדַע בְּךָ שֶׁלֹּא נֵדָעֶךָ: וְאוּלָם נֵדַע הֱיוֹתְךָ נִמְצָא זֶה חֶלְקֵנוּ מִכָּל עֲמַל הַהִשְׂתַּכְּלוּת וִיגִיעַת הַהַשְׁקָפָה:
vv. 47–56 · O morcego e a águia

47 Apenas pela apreensão de alguns atributos negativos é que se reveste de justiça quem visita os teus templos; e é compreendendo o quanto estás além que o homem se aproxima para prostrar-se diante de ti.

48 E como ficaria oculta a tua existência, sendo tão notórias as maravilhas das tuas obras e tão manifestas?

49 E se o excesso do seu fulgor nos resulta em ocultamento, por causa da nossa pequenez — nem por isso deixaremos de reconhecer a tua grandeza.

50 Pois a intensidade do seu ocultamento dá testemunho dele aos de visão curta, tal como a intensidade do seu fulgor o revela aos que o alcançam.

51 Como o morcego, cujo olho não viu a luz preciosa, pela fraqueza da sua força e do seu sentido, e que, mesmo assim, forçosamente concebe a intensidade do raio do sol — depois de fugir dele;

52 assim como a águia o concebe numa imagem verdadeira, pela sua muita aproximação dele, para se deleitar no seu fulgor.

53 Ainda que entre os dois modos de representação não haja semelhança.

54 Tu conheces mais que todo conhecedor, e as tuas obras comprovam que és mais sábio que todo sábio.

55 E realizaste, segundo a tua sabedoria, obras incomparáveis.

56 Maravilhas que não se podem medir, prodígios que não se podem comparar, produziste na forma da minha criação; feitos que não se costumam fazer, fizeste comigo.

לְבַד בְּהַשָּׂגַת קְצַת שׁוֹלְלִיּוֹת יִלְבַּשׁ צְדָקָה מְבַקֵּר בְּהֵיכָלֶיךָ וּבַהֲבָנַת הַהַרְחָקוֹת יִקְרַב אִישׁ לְהִשְׁתַּחֲוֹת לָךְ: וְאֵיךְ יֵעָלֵם מְצִיאוּתְךָ עִם גּוֹדֶל פִּרְסוּם פִּלְאֵי מַעֲשֶׂיךָ וְהִגָּלוֹתָם: וְאִם תַּכְלִית הֵרָאוֹתָם מְחַיֵּב לָנוּ הֵעָלְמָם לְקִצּוּרֵנוּ לֹא בְּכָל זֹאת נֶחְדַּל לְהַכִּיר גָּדְלֶךָ: כִּי חֹזֶק הִסָּתְרוֹ יָעִיד עָלָיו לַמְּקַצְּרִים כְּמוֹ שֶׁיְּגַלֵּהוּ חֹזֶק הֵרָאוֹתוֹ לַמַּשִּׂיגִים: כְּמוֹ הָעֲטַלֵּף אֲשֶׁר אוֹר יְקָרוֹת לֹא רָאֲתָה עֵינוֹ לְחֻלְשַׁת כֹּחוֹ וְחוּשׁוֹ וְהוּא בְּהַכְרֵחַ מְצַיֵּר חֹזֶק נִיצוֹץ הַשֶּׁמֶשׁ אַחַר הֱיוֹתוֹ בוֹרֵחַ מִמֶּנּוּ: כְּמוֹ שֶׁיְּצַיְּרֵהוּ הַנֶּשֶׁר צִיּוּר אֲמִתִּי בְּרוֹב הִתְקָרְבוֹ אֵלָיו לְהִתְעַנֵּג בְּזִיווֹ: וְאִם שְׁנֵי מִינֵי הַצִּיּוּר אֵין בֵּינֵיהֶם הִדָּמוֹת: אַתָּה יָדַעְתָּ מִכָּל יוֹדֵעַ וּמַעֲשֶׂיךָ מוֹכִיחִים כִּי חָכָם מִכָּל חָכָם אָתָּה: וְעָשִׂיתָ כְּחָכְמָתְךָ מְלָאכוֹת בְּלִי נֶעֱרָכוֹת: נִפְלָאוֹת לֹא יְשֹׁעֲרוּ נוֹרָאוֹת לֹא יִדָּמוּ הִמְצֵאתָ בְצִיּוּר יְצִירָתִי מַעֲשִׂים אֲשֶׁר לֹא יֵעָשׂוּ עָשִׂיתָ עִמָּדִי:

Sobre a tradução e as fontes · מְקוֹרוֹת

O ponto de virada do livro

Depois de doze capítulos de lamento sobre a vaidade do mundo e a instabilidade do tempo, o capítulo 13 inverte o tom: torna-se uma oração endereçada diretamente a D'us. A queixa inicial reconhece que o mal sofrido pelo autor vem dos seus próprios atos (vv. 1–7); o verso 3 reescreve a máxima de Hillel, "se eu não sou para mim, quem será por mim?" (Avot 1:14). A partir do v. 8, o capítulo desdobra a onisciência divina sobre o ser humano — eco constante do Tehillim 139 ("sondaste de longe o meu pensamento").

O conhecimento divino dos universais e dos futuros (vv. 29–32)

O núcleo filosófico (vv. 29–32) enfrenta o problema clássico da ciência divina: como pode D'us conhecer, num único e imutável conhecimento, os opostos, os particulares infinitos e mutáveis, e os contingentes futuros — sem que isso anule a contingência deles? O versículo 32 é preciso: D'us conhece qual dos "dois extremos do possível" se realizará, "preservando a natureza da sua possibilidade" — isto é, sem que o conhecimento divino transforme o possível em necessário. É a mesma questão que ocupa Maimônides (Guia III:20) e que reaparece nas Derashot HaRan e no Sefer HaIkkarim.

O morcego, a águia e a teologia negativa (vv. 45–53)

O ápice do capítulo é a confissão da via negativa: "o máximo do que de ti sabemos é que não te conhecemos" (v. 45). Conhecemos D'us apenas por "atributos negativos" (sholeliyot, v. 47) — dizendo o que ele não é — exatamente como ensina Maimônides (Guia I:58). Segue-se a célebre parábola, de origem aristotélica, transmitida pela filosofia judaica medieval: o morcego, cujos olhos fracos não suportam a luz, e a águia, que se aproxima do sol para deleitar-se no seu brilho (vv. 51–52). Ambos "concebem" o sol — mas de modos sem nenhuma semelhança entre si (v. 53). Assim o sábio e o ignorante "conhecem" D'us: a própria força do ocultamento é, para os de vista curta, um testemunho (v. 50). O verso final ecoa as palavras de Avimélec a Avraham, "fizeste comigo coisas que não se fazem" (Bereshit 20:9), aqui voltadas em louvor: as maravilhas da própria criação do autor.