O orador ergue o olhar das vicissitudes do tempo para as esferas celestes (galgalim). Diante da vastidão dos orbes, a terra é uma caverna baixa, e o homem, uma mosca de asas cortadas numa gaiola. Mas as esferas foram criadas com sabedoria, para servir a D'us — não às criaturas inferiores a elas.
1 E ao revistar os alforjes dos meus tempos, buscando se acharei taças de esplendor e hastes de candelabro —
2 poderá o meu tempo honrar-me, ainda que esteja entre os meus valedores?
3 Voltei-me e vi-o curto de mão para salvar, incapaz de dominar os que me afligem e de removê-los de sobre mim.
4 A vara do seu terror não pesa sobre eles, e para deter os meus destruidores não retém força.
5 Pois ainda que me escolhesse dentre os meus vizinhos, para abrigar-me numa tenda contra as conspirações dos tumultos fortuitos e contra os alvoroços das desgraças deliberadas,
6 e ainda que o Altíssimo me erguesse acima dos meus irmãos, livre da malha das perplexidades que advêm do livre-arbítrio —
7 teria ele força na sua mão para me livrar de tantos golpes naturais e forçosos, e da multidão de tribulações que dos céus guerreiam contra mim?
8 Pois vejo esferas preciosas dispostas ao meu redor — como uma bola me enrolam num novelo — e elas me ultrapassam, pelas maravilhas dos seus atos e do seu poder.
9 Perde-se toda sabedoria, e todo discernimento se esconde, ao tentar medir com exatidão a grandeza das suas distâncias e a amplidão dos seus confins.
10 A terra foi posta no centro delas — uma caverna baixa, para a qual escorrem todos os resíduos naturais e as suas podridões.
11 E ao erguer os olhos e considerar a sua altura — maravilhosa demais para mim — e as miríades dos seus exércitos que me coroam em derredor, a mim e aos meus, que habitam na orla da caverna, na ponta de um pontinho minúsculo, o mais ínfimo dos lugares —
12 depois de dividida em climas, províncias, cidades e casas, o meu lugar é do tamanho de um mosquito — na medida da minha estatura e da sombra da minha pequena viga — menor que uma das casas de uma pequena cidade.
13 Há de gloriar-se um fraco como eu sobre esses gigantes, que cavam a minha sepultura antes mesmo de eu existir?
14 E por todos os dias em que vivo sobre a terra — firmar-me-ei eu e o meu reino, ao passo que eles me inclinam para tudo o que lhes apraz?
15 Como há de assenhorear-se o menor das moscas, de asas cortadas, afundado no cárcere, esmagado numa gaiola, enquanto todo o exército dos céus se posta sobre ele, à sua direita e à sua esquerda?
16 Poderá o meu tempo livrar-me do pavor de uma só das pequenas covas que, do alto, abriram para os meus pés — covas que, desde o tempo da criação, se comprometeram a levar-me até elas?
17 Esses corpos terríveis, o seu Criador os fez servos perpétuos, para se deleitarem em narrar a sua glória — sem língua, sem que haja fadiga ou labor na sua postura em fileiras.
18 Ali proclamam atos de justiça, e não foram entregues a aflições; servem ao Todo-Poderoso, e não conhecem a ruína.
19 E ainda mais: com o seu poder o seu Criador os cunhou; na sua forma preciosa, dispô-los em alternância de posições e de cursos opostos —
20 que produzem efeitos nos seres inferiores — movendo corpos que jazem inertes e conferindo disposições para receber as formas — para revestir de novo o que se envergonha da sua nudez.
21 Não que para isso tenham sido criados — para servir criaturas perecíveis, sendo eles mais nobres e mais elevados do que elas.
22 Longe esteja do seu Criador submeter o precioso ao vil, e o duradouro ao perecível.
23 E não se terá por sábio o artífice que prepare instrumentos de dez mil talentos de prata de peso para fabricar uma única agulha de ferro.
24 Mas criou-os com discernimento, segundo uma ordem que só ele conhece, cuja rota de giro e de marcha cumpre a sua obra.
25 Foi-lhes outorgada do bem uma medida ampla, conforme a boa mão do seu D'us, que assim a fundou; e fartaram-se e sobejaram, segundo a palavra do Eterno.
O modelo cosmológico de Yedaiah é o de Ptolomeu transmitido pela filosofia árabe e judaica: esferas concêntricas (galgalim) girando em torno da terra imóvel, no centro. Para o autor, a grandeza dos orbes não ameaça o monoteísmo — demonstra-o: D'us criou seres tão sublimes que existem apenas para "narrar a sua glória" (v. 17, eco de Tehillim 19:2, "os céus contam a glória de D'us"). O versículo 8 retoma a imagem de Yeshayahu 22:18 — "como bola te enrolará num novelo".
O argumento central é que a contemplação da vastidão do cosmos deve calibrar o lugar do homem: diante das esferas, a terra é "uma caverna baixa" para onde escorrem os resíduos (v. 10), e o homem é "o menor das moscas, de asas cortadas, esmagado numa gaiola" (v. 15) — imagem talvez modelada na visão de Michaiahu, "todo o exército dos céus de pé à direita e à esquerda" (Melachim I 22:19). Mas a conclusão não é niilista: as esferas servem "sem língua" (v. 17), ao passo que o homem pode servir a D'us com a fala e a razão.
O versículo 18 contém um dos melhores trocadilhos do livro: hemmah ya'avdun Shaddai velo yede'un shaddun — "servem ao Todo-Poderoso (Shaddai) e não conhecem a destruição (shaddun)". As esferas não pecam, logo não sofrem a ruína que é consequência do pecado. Os versículos finais (21–23) rematam o argumento com a parábola do artífice: assim como nenhum sábio fabricaria instrumentos de dez mil talentos de prata para produzir uma só agulha de ferro, também D'us não criaria os orbes sublimes apenas para servir às criaturas perecíveis abaixo deles. O eco final "fartaram-se e sobejaram, segundo a palavra do Eterno" (v. 25) vem do milagre de Elisha em Melachim II 4:44.
O texto-base do Sefaria apresenta, a partir deste capítulo, repetições de versículos provavelmente decorrentes da transmissão da edição. A tradução acima segue os vinte e cinco versículos coerentes do capítulo; eventuais duplicações posteriores no aparato digital não foram reproduzidas.