O capítulo é uma apóstrofe direta: o mundo (tevel) é personificado como mulher corrupta — construída sobre a podridão, que inverte os valores e trai seus amantes — e o orador a confronta, expõe a sua natureza e a demite. A última palavra é um epitáfio retomado de Jeú sobre Jezabel: "sepultai-a".
1 Ó mundo, fonte da decadência e da ruína — das tuas vaidades haveríamos de aguardar herança, para que nos deixes um futuro e uma esperança?
2 Manancial das privações — de ti esperaríamos encontrar nome e sobrevivência?
3 Pois quando me ponho a investigar a tua raiz e a tua procedência — donde vieste e como foste formada — para saber se és capaz de fazer o bem, se prestas para reinar —
4 descobri que os teus construtores foram os teus perturbadores, e os teus artífices, os teus demolidores.
5 As mãos dos que te moldaram são as que te afligem; os que te erigem são os que te arruínam.
6 Deitaram-te sobre a traça, alicerçaram-te na podridão.
7 Produziram o teu nada; dissolvida está a tua têmpera, desfeita a tua composição.
8 Mas, depois de eu me deter sobre os teus defeitos e expor a tua vergonha a todos os que te encontram — hei de ir atrás de ti? Hei de honrar-me com a tua convivência?
9 Tornarei ainda a desejar a tua formosura, visível aos meus olhos, depois de a haver desprezado no meu coração?
10 E como me embruteceria e desfilharia a minha alma, esperando que do cacho de amarguras das tuas amarguras e do absinto das tuas uvas se produzisse fruto e messe?
11 Acaso do antro do fedor das úlceras, do veneno dos dragões, tirarei doçura?
12 E do corpo do leão e do urso colherei mel?
13 Ainda mais que, ao contemplar os teus amantes — gente sem nome — vejo que os homens de renome, esses são os teus odiados.
14 Vi-te a catar as cascas e a jogar fora o âmago.
15 Ajuntas a turba, achegas o vazio e o que é pleno afastas.
16 Com isto atestas a tua raiz, ó vendedora ambulante de tropeços, mercadora de defeitos.
17 Com isto proclamas a tua vileza, ó mulher de tochas.
18 Ao empenhar-te o dia inteiro, em tua muita perversidade, em destituir os reis, cada um do seu posto, e pôr em lugar deles os mais baixos entre as servas e os desprezíveis entre as famílias —
19 ao enlouqueceres o dia inteiro para traçar nas portas das casas dos nobres o sinal da destruição e da queda, enquanto as casas dos vis edificas com pedra lavrada e pedra preciosa —
20 e o fogo da tua ira, no jardim de D'us, nas árvores do Líbano se acende — mas a sarça não é consumida.
21 Os cedros decepas, e aos sicômoros renovas o vigor.
22 Tornas trevas, ó desvairada, os louvores de Heilel, filho da Aurora; enegreces a brancura das suas safiras; lavas com nitro a imundície dos maculados de iniquidade, para falsear os que são manifestos, mantendo no meio deles a sua cilada.
23 E que tenho eu contigo, ó senhora das vilezas?
24 Falas suavidades aos de coração mole — e depois lhes quebras os ossos.
25 Enfeitas a tua cabeça, espreitas como a alva pelas tuas janelas — e depois lhes foge o olhar, e tu já não és.
26 Cintila a tua glória ao redor das suas tendas por um instante — e depois se some.
27 As orlas dos seus mantos, sobre os altos do seu tempo, arrastas por um breve instante — depois os conduzes como os trapos dos marinheiros: arrasta e lança.
28 Derramas, por um breve instante, a tua benevolência sobre as suas cabeças — uma grinalda de graça e esplendor; e dali a pouco se solta a tua ira: fisgas o Leviatã com o anzol — golpe de espada e perdição.
29 Foste aos meus olhos como mulher estranha, néscia, glutona: todos os que continuam a comer do seu pão e a deitar-se no seu seio, e se lhe fazem filho — a esse ela trai naquele tempo; e irmão, ou filho da aborrecida, não reconhece.
30 Ouvi-me, meus irmãos e meu povo: esta, que despedaça os seus próprios filhinhos com a maldade dos seus atos — eis o meu conselho a respeito dela:
31 Afastai-vos das suas portas — que são fendas abertas — e de diante dos vossos olhos removei-a.
32 Não cuideis desta maldita — e sepultai-a.
A figura feminina do capítulo sobrepõe várias fontes. A mais clara é a "mulher estranha" (ishah zarah) de Mishlei 7, a sedutora que leva à morte; o v. 29 chama-a explicitamente assim. O v. 8 ecoa Yechezkel 16, onde a infidelidade é exposta diante dos amantes. O v. 17 chama-a, com ironia mordaz, "eshet lapidot" — a expressão que em Shoftim 4:4 designa a profetisa Devorá ("mulher de Lapidot"), aqui relida como "mulher de tochas/chamas", isto é, incendiária.
O coração do capítulo descreve a função perversa do mundo: destronar os reis e entronizar os vis (v. 18, eco de marcar com o sinal tav de Yechezkel 9:4), decepar os cedros e fortalecer os sicômoros (v. 21, vocabulário de Yeshayahu 9:9). O v. 20 introduz a única exceção: "o fogo da tua ira... nas árvores do Líbano se acende, mas a sarça não é consumida" — a sarça ardente de Shemot 3:2 como imagem do que resiste ao fogo do mundo. O v. 22 invoca "Heilel, filho da Aurora" (Yeshayahu 14:12, a estrela da manhã caída) e o nitro que não lava a mancha da iniquidade (Yirmiyahu 2:22).
O fecho é um dos exemplos mais agudos de shibbutz do livro. O versículo final reescreve as palavras de Jeú sobre Jezabel, em Melachim II 9:34: "pikdu na et ha'arurah hazot vekivruha" — "atendei agora a esta maldita e sepultai-a". Yedaiah inverte o primeiro verbo — "al tifkedu", "não cuideis dela" — mas conserva o "vekivruha", "e sepultai-a". O mundo é Jezabel: a rainha sedutora e idólatra cujo fim é ser deixada aos cães. Para quem alcançou a compreensão, o mundo já é, por assim dizer, um cadáver à espera de sepultamento — e a tarefa não é fugir dele em terror, mas enterrá-lo depois de o haver olhado de frente.