Bechinat Olam · Yedaiah haPenini · Capítulo VIII

A ponte sobre o mar

הָעוֹלָם יַם זוֹעֵף וְהַזְּמַן גֶּשֶׁר רָעוּעַ בָּנוּי עָלָיו
Yedaiah ben Avraham haPenini (c. 1270–1340) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

O capítulo mais célebre do livro: o mundo é um mar revolto, e o tempo, uma ponte frágil construída sobre ele — de um côvado de largura, sem parapeitos. O homem a atravessa à força desde o nascimento. A passagem inspirou a tradição posterior; sua forma mais conhecida (atribuída a Rabi Nachman de Breslov) — "todo o mundo é uma ponte estreita" — tem aqui a sua fonte literária.

vv. 1–8 · A ponte

1 O mundo é um mar revolto, de grande profundeza, largo de extensão.

2 E o tempo, uma ponte frágil construída sobre ele.

3 O seu início preso às cordas da inexistência que antecede o seu surgimento.

4 E o seu término, contemplar a delícia perpétua, resplandecer na luz do rosto do Rei.

5 A largura da ponte é um côvado de homem, e ainda por cima faltam-lhe os parapeitos.

6 E tu, ó filho do homem, contra a tua vontade estás vivo, atravessando-a sem cessar desde o dia em que te fizeste homem.

7 Ao veres a estreiteza da senda, sem caminho para desviar à direita ou à esquerda — hás de gloriar-te de monumento e nome?

8 Ao espreitares — eis que o Abadom e a morte te são muralha à direita e à esquerda — resistirá o teu coração, ficarão firmes as tuas mãos?

הָעוֹלָם יַם זוֹעֵף רַב מְצוּלָה רְחַב יָדָיִם: וְהַזְּמַן גֶּשֶׁר רָעוּעַ בָּנוּי עָלָיו: רֹאשׁוֹ אָחוּז בְּחַבְלֵי הַהֶעַדֵר הַקּוֹדֵם לְהַוָּיָתוֹ: וְתַכְלִיתוֹ לִרְאוֹת בְּנֹעַם מַתְמִיד לֵאוֹר בְּאוֹר פְּנֵי מֶלֶךְ: רֹחַב הַגֶּשֶׁר אַמַּת אִישׁ וְגַם אָפְסוּ הַמִּסְגָּרוֹת: וְאַתָּה בֶן־אָדָם עַל כָּרְחֲךָ אַתָּה חָי עוֹבֵר עָלָיו תָּמִיד מִיּוֹם הֱיוֹתְךָ לָאִישׁ: בְּהַבִּיטְךָ קֹצֶר הַמַּסְלוּל וְאֵין דֶּרֶךְ לִנְטוֹת יָמִין וּשְׂמֹאל הַתִתְפָּאֵר בְּיַד וָשֵׁם: בַּהֲצִיצְךָ אֲבַדּוֹן וָמָוֶת לְךָ חוֹמָה מִיְּמִינְךָ וּמִשְּׂמֹאלְךָ הַיַּעֲמוֹד לִבֶּךָ הַתֶחֱזַקְנָה יָדֶיךָ:
vv. 9–17 · O mar e a fragilidade

9 E se te ufanas de uma posse cobiçada e de muitos haveres, que ajuntaste com o braço desnudado, que caçaste com o teu arco e desceste a apoderar-te dela com a tua rede —

10 que farás à fúria do mar e à sua turba, quando se enfurecer, inundar e passar — e a tua própria pousada estiver a ponto de despedaçar-se?

11 Este mar grande, em cujo seio te encontras — vangloria-te sobre ele, assenhoreia-te também dos seus cavaleiros e da sua carruagem; sai agora e peleja contra ele!

12 Ainda que cambaleies e osciles — do vinho das ilusões da tua soberba, que te iludem; do mosto das romãs das tuas exaltações, que te enganaram —

13 por um nada, por um nada que te desvies para cá e para lá, perecerás num instante em abismos pavorosos, e o teu sangue, da mão deles, ninguém reclamará.

14 Irás de abismo em abismo, perdido nos recessos do mar, e não há quem diga: "devolve!"

15 Hei de confiar na mentira? Hei de escorar-me num bordão de cana quebrada?

16 Tomar uma estalagem de viandantes como esta por fortaleza, por baluarte e por santuário de rei?

17 A asa de uma pulga, a ponta de diamante, teias de aranha, corais e cristal.

וְכִי תִתְהַלֵּל בְּחֶמְדַּת קִנְיָן וְרַב עִנְיָן אֲשֶׁר אֲסַפְתּוֹ בִּזְרוֹעַ חֲשַׂפְתּוֹ אֲשֶׁר בִּקַּשְׁתּוֹ בְּקַשְׁתֶּךָ וְתֵּרֶד לְרִשְׁתּוֹ בְּרִשְׁתֶּךָ: מַה תַּעֲשֶׂה לְזַעַף הַיָּם וַהֲמוֹנוֹ כִּי יִתְגָּעַשׁ וְשָׁטַף וְעָבַר וּבֵית מְלוֹנְךָ אַף הוּא יֵחָשֵׁב לְהִשָּׁבֵר: זֶה הַיָּם גָּדוֹל אֲשֶׁר אַתָּה בְּקִרְבּוֹ הִתְפָּאֵר עָלָיו גַּם הִשְׂתָּרֵר עַל פָּרָשָׁיו וְרִכְבּוֹ צֵא נָא עַתָּה וְהִלָּחֶם בּוֹ: גַּם כִּי תָחֹג וְתָנוּעַ מִיֵּין תְּנוּאוֹת גְּאוֹנֶיךָ אֲשֶׁר יוֹנוּךָ מֵעֲסִיס רִמּוֹנֵי רוֹמְמוֹתֶיךָ שֶׁהֵמָּה רִמּוּךָ: כִּמְעַט כִּמְעַט נְטוֹתְךָ אָנֶה וְאָנָה תֹּאבַד כְּרֶגַע בִּמְצוּלוֹת מַבְהִילוֹת וְדָמְךָ מִיָּדָם אֵין מְבַקֵּשׁ: תֵּלֵךְ מִתְּהוֹם אֶל תְּהוֹם נָבוּךְ בְּנִבְכֵי יָם וְאֵין אֹמֵר הָשַׁב: הַאֶבְטַח עַל שֶׁקֶר הַאֶשָּׁעֵן עַל מִשְׁעֶנֶת קָנֶה רָצוּץ: לַחֲשׁוֹב מְלוֹן אוֹרְחִים אֲשֶׁר כָּזֶה מִבְצָר מִשְׂגָּב וּבֵית מִקְדַּשׁ מֶלֶךְ: כְּנַף פַּרְעוֹשׁ צִפּוֹרֶן שָׁמִיר קוּרֵי עַכָּבִישׁ רָאמוֹת וְגָבִישׁ:
vv. 18–23 · A sedução dos dias amenos

18 E quando vires os dias amenos, e o tempo a saltar e a dançar, e o instante a vir acalmar-te, e a hora a folgar e a brincar diante de ti pelo mundo — e desprezares no teu coração o porvir dos dias —

19 é na mentira que confias; a sombra da aboboreira vês como um monte alto e escarpado.

20 Por causa destas coisas lançaste a alma para trás das costas, voltaste os teus caminhos para os tristes deleites da carne?

21 E sempre que a vires — a alma — amando o seu D'us, lembrada do seu fim, abastecendo-se para a jornada — com a labuta das tuas mãos a perturbas.

22 Cada vez que ela sobe à casa do Eterno, assim a provocas.

23 Por vaidades de delícias imaginárias hás de abandonar a preciosidade eterna, o deleite perene?

וְכִי תִרְאֶה הַיָּמִים נְעִימִים וְהַזְּמָן מְפַזֵּז וּמְכַרְכֵּר וְהָרֶגַע הוֹלֵךְ לְהַרְגִּיעֲךָ וְהַשָּׁעָה מִשְׁתַּעְשַׁעַת מְשַׂחֶקֶת לְפָנֶיךָ בְּתֵבֵל וְתִבֶז בְּלִבְּךָ לְאַחֲרִית הַיָּמִים: עַל שֶׁקֶר אַתָּה בֹּטֵחַ צֵל הַקִּיקָיוֹן אַתָּה רֹאֶה כְּהַר גָּבוֹהַּ וְתָלוּל: הַעַל אֵלֶּה הִשְׁלַכְתָּ נְשָׁמָה אַחֲרֵי גֵו הֲסִבּוֹתָ דְּרָכֶיךָ אֶל מוּל נוּגֵי תַּעֲנוּגֵי בָשָׂר: וְכָל אֲשֶׁר תִּרְאֶינָה אוֹהֶבֶת אֱלֹהֶיהָ כְּזוֹכֶרֶת אַחֲרִיתָהּ כְּמִצְטַיֶּדֶת לְדֶרֶךְ בַּעֲמַל יָדֶיךָ תַּרְגִּיזֶנָה: מִידֵי עֲלוֹתָהּ בְּבֵית יְיָ כֵּן תַּכְעִיסֶנָּה: הַעַל הַבְלֵי חֲמֻדּוֹת מְדֻמּוֹת תִּטּוֹשׁ יִקְרַת נֶצַח חֶמְדַּת עוֹלָם:
vv. 24–27 · O acerto de contas

24 E sucederá que, quando o teu coração te perguntar amanhã — ao despontarem os filhos do dia — "quem me gerou estes?" —

25 também tu lhe responde: a obstinação do teu coração e o seu conselho mau.

26 Há de o servo estragar a obra que lhe foi prescrita, e o ânimo do soberano não o rejeitará?

27 Andará um homem com o seu senhor sem atenção, alegando que não o odeia?

וְהָיָה כִּי יִשְׁאָלְךָ לְבָבְךָ מָחָר בִּקְפוֹץ יַלְדֵי יוֹם מִי יָלַד לִי אֶת אֵלֶּה: אַף אַתָּה אֱמוֹר לוֹ שְׁרִירוּת לְבָבְךָ וַעֲצָתוֹ הָרָעָה: הַיְּקַלְקֵל עֶבֶד מְלֶאכֶת חֻקּוֹ וְרוּחַ הַמּוֹשֵׁל לֹא תִמְאָסֶנּוּ: הֲיִתְהַלֵּךְ אִישׁ אֶת אֲדוֹנָיו בִּבְלִי דַעַת וְהוּא לֹא שֹׂנֵא לוֹ:

Sobre a tradução e as fontes · מְקוֹרוֹת

A ponte estreita

A imagem central — o mundo como mar e o tempo como ponte de "um côvado de largura, sem parapeitos" (v. 5) — é a fonte literária da máxima posterior "todo o mundo inteiro é uma ponte muito estreita". Note-se a precisão filosófica do desenho: a ponte tem um início preso à inexistência anterior ao nascimento (v. 3) e um fim que é a contemplação da "luz do rosto do Rei" (v. 4, de Mishlei 16:15). A travessia é involuntária — "à tua revelia estás vivo" (v. 6) — e sem retorno.

Os ecos bíblicos

v.7 usa "monumento e nome" (yad vashem, Yeshayahu 56:5). v.8 evoca o mar do Êxodo, "muralha à direita e à esquerda" (Shemot 14:22), e "resistirá o teu coração, ficarão firmes as tuas mãos?" (Yechezkel 22:14). v.11 retoma "este mar grande" (Tehillim 104:25) e os "cavaleiros e a carruagem" de Faraó (Shemot 14). v.12 alude a "cambaleiam como o bêbado" (Tehillim 107:27). v.14 usa "os recessos do mar" (Iyov 38:16) e "não há quem diga: devolve" (Yeshayahu 42:22). v.15 cita "o bordão de cana quebrada" (Yeshayahu 36:6). v.19 remete à aboboreira de Yonah 4:6. v.22 ecoa "cada vez que ela subia à casa do Eterno" (Shmuel I 1:7, sobre Hanná). v.24 reescreve "quando teu filho te perguntar amanhã" (Shemot 13:14). v.27 aplica a fórmula do homicida involuntário "que não o odiava" (Devarim 19:4) à negligência para com D'us.

O catálogo do versículo 17

O versículo 17 é uma enumeração deliberadamente heteróclita: "a asa de uma pulga, a ponta de diamante, teias de aranha, corais e cristal". Cada termo é colhido de um versículo: a "ponta de diamante" (tziporen shamir) de Yirmiyahu 17:1 — o estilete com que se grava o pecado; as "teias de aranha" de Yeshayahu 59:5; os "corais e o cristal" (ramot vegavish) de Iyov 28:18. A lista mistura o frágil (asa de pulga, teia) e o duro e precioso (diamante, coral, cristal), concentrando numa só linha a tese do livro: tudo o que o mundo oferece — o efêmero e o valioso por igual — não passa de matéria do mar sobre o qual se estende a ponte. A frase é elíptica no original (sem verbo), e a tradução a preserva como inventário, deixando ao leitor a função que o autor lhe atribui.