O capítulo dramatiza o homem como um enviado que se atrasa em sua missão e, depois, o paradoxo de quem precisa julgar a própria escolha: escolho o bem sem saber o que é o bem; meu caminho é doce aos meus olhos — mas será bom aos olhos do Eterno? O eu torna-se réu, juiz e oráculo de si mesmo.
1 Se a minha alma colheu sequer um vestígio de caminhos como estes — para que me serve a vida?
2 Se curta é a minha jornada e o meu trajeto até o porto desejado — que me aproveita, nos vaus da travessia, prolongarem-se ali os meus dias?
3 Se para alcançar um fim distante fui criado, mas vou-me arrastando devagar, indolente, a mão metida no prato, exausto demais para devolver resposta a quem me enviou —
4 de que me serve uma velhice ditosa? E anos de vida que me acrescentem — que acrescentam, que dão?
5 Se para fazer a minha obra fui enviado para cá, e eis-me frouxo de mãos, ferido de vadiagem, golpeado pela ociosidade —
6 de que vale, para bem ou para mal, eu ficar em casa, pouco ou muito tempo?
7 E se vejo os males e o bem, e escolho o bem sem saber o que é o bem — como hei de saber e como hei de discernir?
8 E quando digo: "Quão doce ao meu paladar é o meu caminho! Quão bons, aos meus olhos, são todos os meus pensamentos!" —
9 acaso se comprovará a minha escolha? Acaso se confirmará a minha palavra — de que será bom para a minha alma um caminho que eu escolha? Será ele bom aos olhos do Eterno?
10 Ou será reto o meu caminho, a ponto de eu pisar sobre os altos da minha soberba, só porque ela é reta aos meus olhos?
11 Hei de me ensoberbecer por haver entronizado o meu próprio rei? Há de me agradar, se no pátio do meu rei é falsa a minha libação?
12 Ou hei de venerar o meu conselho néscio? Será ele venerado no secreto dos santos? Há de causar pavor a minha turba?
13 Ou hei de exaltar o meu dito, se amargo ele será no fim?
O capítulo formula um problema que atravessa toda a ética: como pode o homem julgar a retidão das próprias escolhas, se o critério de julgamento é o seu próprio coração — parte interessada na causa? "Escolho o bem sem saber o que é o bem" (v. 7); "quão bons aos meus olhos são os meus pensamentos" (v. 8). O eixo é a distinção entre o que é "bom aos meus olhos" e o que é "bom aos olhos do Eterno" (v. 9) — eco do refrão sombrio do livro de Shoftim, "cada um fazia o que era reto aos seus próprios olhos" (Shoftim 17:6; 21:25). Os versículos finais levam a ironia ao extremo: o homem que entroniza a si mesmo como rei e reverencia o próprio conselho néscio como se fosse oráculo no "conselho dos santos".
v.1 funde "um sussurro disso" (Iyov 4:12) e "para que me serve a vida?" (Bereshit 27:46, palavras de Rivká). v.2 usa "o porto desejado" (Tehillim 107:30) e os "vaus" (Bereshit 32:23). v.3 tece "vou-me conduzindo devagar" (Bereshit 33:14, Yaacov a Esaú), "o preguiçoso esconde a mão no prato" (Mishlei 26:15) e "devolver resposta a quem te envia" (Mishlei 22:21). v.4 combina "boa velhice" (Bereshit 15:15) e "que te dá e que te acrescenta?" (Tehillim 120:3). v.5 ecoa "D'us me enviou" (Bereshit 45:5). v.8 alude a "quão boas são as tuas tendas" (Bemidbar 24:5, Bilam). v.10 reúne "pisar sobre os altos" (Devarim 33:29) e "reto aos seus olhos" (Shoftim 17:6). v.11 usa "eu instalei o meu rei" (Tehillim 2:6). v.12 ecoa "D'us temível no conselho dos santos" (Tehillim 89:8). v.13 cita "amargo será no fim" (Shmuel II 2:26).
A força acusatória dos versículos 11–13 está na série de imagens em que o homem usurpa funções sagradas para com a sua própria vontade: entroniza o seu rei (mas a libação que lhe oferece é falsa), venera o próprio conselho (como se fosse "conselho dos santos"), exalta a própria palavra (que será amarga no fim). É a idolatria de si — adorar a própria opinião como se fosse revelação. O capítulo não resolve o paradoxo do juízo parcial; deixa-o em aberto, como pergunta que o leitor deve levar adiante.