Um mal pior que os anteriores: o homem comum que anseia pela chegada das estações para alcançar seus desejos deseja, sem perceber, a própria morte — pois cada porção de tempo que ele quer ver passar é uma porção da sua própria vida. As festas, os anos, os anos sabáticos e os jubileus são lidos numa cadeia de trocadilhos.
1 E pior ainda do que isto: a intensidade do anseio do homem comum por que cheguem os ciclos dos dias para alcançar os seus desejos — e talvez, com isso, ver a sua própria ruína.
2 Consome-se a sua alma por que se acabe o ano e se revelem as suas maldições.
3 E como há de vigiar o "que vai da noite" aquele que numa só noite se desfaz?
4 Ou dirá: "quem dera fosse tarde" — a tarde em que ele murcha e seca.
5 Como há de anelar pela sombra aquele cujo vigor foge com a fuga das sombras, e cuja força o sedento sorve?
6 Ou confiará na convivência da sua alma com o seu corpo — que é como o entardecer, o tempo marcado da sua partida?
7 Espera o dia em que será arrebatado; aguarda o fim dos dias em que despertará entre pavores.
8 Para as festas, vacilam-lhe os pés; para os anos, alteram-se as suas ordens; para os anos sabáticos, é desligado; para os jubileus, se enluta.
9 Anseia a sua alma por que empalideça a sua face; farta-se de vergonha; espera ser ferida sem piedade.
10 Acaso sobre isto não atentaste — ao desejares saltar, com rapidez, num piscar de olhos, do princípio do ano até o fim do ano?
11 E se amaste lavrar o solo como quem serve a D'us, por amor — como anseias pelo dia em que o deixarás em pousio e o abandonarás? Isto não é senão maldade de coração.
O capítulo identifica uma forma sutil de autodestruição: o desejo de que o tempo passe. Quem anseia pelo fim do dia, do ano, ou pela chegada de uma data esperada, está — sem perceber — desejando a própria morte, pois cada parcela de tempo que ele quer ver consumida é uma parcela da sua vida. O homem persegue uma sombra (v. 5), mas é ele mesmo uma sombra que foge. O fecho (vv. 10–11) acusa a contradição: amar o trabalho do solo "como quem serve a D'us" e ao mesmo tempo desejar o dia de abandoná-lo é "maldade de coração".
v.1 ecoa "ver na sua ruína" (Ovadyah 1:13). v.2 retoma "consome-se a minha alma" de Tehillim 84:3, com o trocadilho kaltah / tichleh (anela / acabe). v.3 funde "guarda, que vai da noite?" (Yeshayahu 21:11) e a aboboreira de Yonah 4:10, "que numa noite surgiu e numa noite pereceu". v.4 tece "quem dera fosse tarde" (Devarim 28:67) e "à tarde murcha e seca" (Tehillim 90:6). v.5 combina "como o servo anseia pela sombra" (Iyov 7:2), "a fuga das sombras" (Shir HaShirim 2:17) e "o sedento sorve a sua riqueza" (Iyov 5:5). v.6 alude ao pôr do sol de Bereshit 15:12. v.9 ecoa "farta-se de opróbrio" de Eichah 3:30. v.10 cita "do princípio do ano até o fim do ano" de Devarim 11:12. v.11 reúne "deixá-la em pousio e abandoná-la" (Shemot 23:11, lei da shemitá) e "isto não é senão tristeza/maldade de coração" (Nechemyah 2:2).
O versículo 8 alinha as quatro unidades do calendário sagrado, cada uma colada a um verbo de queda que rima com ela: mo'adim / yima'adu (festas / vacilam), shanim / yishtanu (anos / mudam), shemitot / yishamet (anos sabáticos / é desligado), yovlim / yit'abel (jubileus / se enluta). O tempo litúrgico, que deveria marcar a santificação dos dias, torna-se, para quem só deseja vê-lo passar, uma sucessão de tropeços e lutos. A tradução conserva o sentido de cada par, perdendo inevitavelmente a rima do original.